sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

NÃO LEIA ESTE TEXTO. É TUDO MENTIRA. MENTIRA.


2008 foi um ano muito bom pra mim. Ganhei muito dinheiro e trepei com uma meia-dúzia de oito ou nove mulheres gostosas. Meu time me deu muitas alegrias. Parei de fumar e beber. Escalei o monte Aconcágua. Atravessei o Canal da Mancha a nado. A Alessandra Negrini me deu mole numa festa. Consegui colocar todas as minhas idéias em ordem. Em 2009, não mentirei.

A gente mente muito mais do que pensa, apesar de pensarmos muito mais do que mentimos. Um gesto de cumprimento pode ser uma mentira. Um olhar, um pensamento pode ser uma mentira. A mentira não é dependente da palavra. É livre, e de vez em quando, liberta. Eu sempre tive essa mania feia de tentar ser verdadeiro e honesto com as pessoas o tempo todo. Sempre achei bonito isso de dizer o que penso, assim no estilo Romário. E estou cansado de me foder por causa disso.

Uma noite, há alguns anos, saí pra jantar com uma ex-namorada que andava meio insegura. O clima tava legal, rolaram uns beijinhos, umas cervejas e tal. Mas eis que, no final da noite, ela resolve testar a minha patética honestidade com aquele tipo de pergunta que não se faz. Com um sorriso no rosto, olhos nos olhos, ela pediu: “Diz a verdade: eu sou a mulher mais bonita e mais gostosa com quem você já ficou?”.

Gelei. Este é o típico momento em que a mentira é necessária, mesmo que não seja mentira. Porque mesmo que ela seja a mulher mais bonita e gostosa que você já conheceu, é necessário dizer que SIM com o maior grau de afetação possível (e aí, meu chapa, você já está mentindo), senão, ela pode ficar magoada.

Mas eu... tinha que ser verdadeiro! Dei um gole na cerveja, enchi o pulmão de fumaça e disse a ela que não, ela não era a mais bonita, mas era a mulher que eu mais amava nesse mundo (sou ou não sou um merda?). E nem era mentira. Na hora, ela até riu e tentou disfarçar o ódio, mas aquilo ficou lá, no fundo da cabeça dela até o dia em que ela me deu um pé na bunda. Agora já sei: da próxima vez, digo o que ela quiser escutar, seja ela um dragão-de-komodo ou uma flor. A verdade é um crime hediondo. A mentira é uma pequena contravenção.

Você diz que é feliz. Feliz nos seus relacionamentos, feliz no trabalho, na vida. Diz que acredita num monte de coisas porque aquilo te faz sentir-se melhor. Pois é. Melhor assim. Chega de condenar a mentira, por maior que ela seja. Vamos todos sair às ruas e mentir com sinceridade para os porteiros, padeiros, trocadores de ônibus. Fodam-se a culpa, a consciência, a ética e a moral. Vão todas pra puta que os pariu! Hoje e sempre é primeiro de abril.

Mark Twain (1835-1910), o escritor norte-americano, já dizia: “Se raças e povos inteiros conspiram para difundir gigantescas mentiras silenciosas no interesse das tiranias e dos impostores, por que nos importarmos com as bagatelas ditas pelos indivíduos? Por que havemos de dar a impressão de que abster-se da mentira é uma virtude? Por que nos enganamos dessa maneira? Por que não sermos honrados e sinceros, mentindo todas as vezes que tivermos oportunidade? Isto é... Por que não havemos de ser lógicos, mentindo constantemente ou então nunca mentindo? Creio que será apenas para recobrarmos forças e tirarmos dos lábios o sabor rançoso.”

Mentira boa foi a que eu contei no dia do alistamento para um oficial do exército brasileiro. Se algum milico ler isso aqui, posso me foder, mas foda-se, vamos lá. Eu sou daltônico e me orgulho disso. Tenho um amigo que, além de ser dois anos mais velho, também é daltônico e se livrou de servir o exército por causa disso. Foi ele quem me deu a dica de pegar um atestado de daltonismo com um oftalmologista. E foi o que eu fiz. Cheguei ao quartel com o atestado debaixo do braço.

Passei nos exames e questionários iniciais e estava ficando tenso, pois ao que tudo indicava, eu estava sobrando no grupo que iria servir. Só que, aos 45 do segundo tempo, um oficial virou-se para o meu grupo e perguntou: “Alguém aqui tem alguma deficiência, alguma doença? Se tiver, essa é a hora de falar”. Dei um passo à frente e respondi: “Eu tenho daltonismo”, e puxei o atestado do bolso. “Daltonismo? Que porra é essa, moleque?”, respondeu o oficial, com cara de nojo, enquanto lia o atestado. “Eu não sei diferenciar as cores com precisão”, aleguei, com raro senso didático.

“Não sabe ver cor? Tu tá de sacanagem. E qual é a cor disso aqui?”. O oficial apontou para a camisa de um dos outros caras do meu grupo. A camisa era branca, mas ele apontou para o mapa que ficava no centro da camisa. E aquela era uma das camisas mais comuns da época. Era uma camiseta da marca Company, com um mapa da Ilha Grande. E todo mundo sabia que aquele mapa era obviamente verde, inclusive eu. A maioria dos mapas é verde. Mas fiz um teatro. Fiquei olhando o desenho por alguns segundos, fazendo cara de esforço, até dizer: “Eu não tenho certeza, mas acho que é marrom”. Fui dispensado na mesma hora. Liberado, libertado pela mentira.

Mas como eu ia dizendo, em 2009, não mentirei. Vou torcer pro Vasco voltar à primeira divisão. Vou escalar o Aconcágua, de novo. Vou me matricular numa academia. Vou escrever um texto por dia. E vou parar de mandar o foda-se para os problemas da vida, porque isso é muito feio. De verdade.

Zé McGill

ps - a imagem acima é um teste para daltônicos. Se você enxerga ali no meio o número 5, bem-vindo ao mundo do daltonismo.

* Aqui o vídeo de uma música que tem alegrado as tardes deste início de ano. Rubinho Jacobina, Dr sabe tudo. E não é mentira!






quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE UMBABARAUMA






O último registro do ano na Revista Foda-se tinha que ser especial. Mas aqui, não tem essa de retrospectiva, listinha, sapatinho na janela e nem promessas para 2009. Aqui, temos este roteiro maluco de ficção musical para um curta-metragem. Trata-se de um encontro imaginário entre aqueles que são, na nossa opinião, os maiores nomes da música na América do Sul, Caribe e África: Jorge Ben, Bob Marley e Fela Kuti, respectivamente. Lá vai...

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1. EXT. CATUMBI, RIO DE JANEIRO, 1972. ESTRADA DE TERRA. DIA.

FADE IN MÚSICA: ROOTS, ROCK, REGGAE - DE BOB MARLEY.

Os sapatos brancos de Jorge Ben levantam poeira em passos relaxados pela estrada. A câmera passeia verticalmente pelo corpo do violão que Jorge carrega pela ponta do braço, como se empunhasse um frango abatido pelo pescoço. Velhos, criancinhas e cachorros acompanham e saúdam o Babulina em sua caminhada em direção à birosca.

FADE OUT MÚSICA

2. INT. BIROSCA. DIA.

JORGE BEN
(sentando à mesa)
Ô Tião, serve aí aquele ovinho de codorna e uma Jurubeba.
Hoje eu tô inspirado, quero ir a um samba bem animado.

TIÃO
É pra já, Babulina!
Tu viu o golaço que o Fio marcou contra o Benfica?

JORGE BEN
(escancarando um sorriso)
Claro que vi, pô, só não entrou com bola e tudo porque teve humildade!

CORTE PARA A PORTA DA BIROSCA. Um anão negro e misterioso, de chapéu panamá, gravata florida e tapa-olho, está parado na porta. Ele se aproxima e deixa sobre a mesa um envelope branco. Sai de cena sem olhar para ninguém, sem falar nada. Intrigado, Jorge Ben abre o envelope e lê com atenção o conteúdo da carta.

CLOSE na última linha da carta: AGUARDO SUA VISITA EM LAGOS, NO DIA 31. VENHA SOZINHO. ASSINADO: FELA ANIKULAPO KUTI.


3. EXT. BECO ESCURO. KINGSTON, JAMAICA. NA NOITE DO DIA SEGUINTE.

FADE IN MÚSICA: SORROW, TEARS AND BLOOD - DE FELA KUTI.

Três pistoleiros negros, de dreadlocks, se reúnem no beco e entram numa kombi.

TRAVELLING LATERAL: a kombi roda pelas ruas escuras de Kingston até estacionar na porta de uma casa (o estúdio dos Wailers). Os homens descem do veículo, armados com suas pistolas.

FADE OUT MÚSICA.

4. INT. ESTÚDIO DA BANDA THE WAILERS. NOITE.

Câmera passeia pelo interior do estúdio enfumaçado. A banda ensaia a música Sun is shining. Foco em primeiro plano na guitarra de Peter Tosh. No segundo plano, Bob Marley, de headphones, canta atrás do vidro de aquário do estúdio. O ensaio é interrompido pelo estrondo causado pelo arrombamento da porta. Os pistoleiros invadem o estúdio.

PISTOLEIRO 1
(diálogo em inglês, sotaque jamaicano brabo)
Mister Marley, a propina está atrasada em mais de um mês.
E você sabe bem o que acontece quando atrasam a propina do homem.

BOB MARLEY
(ainda dentro do aquário)
Olha, diga ao homem que nós vamos pagar. Já disse que vamos pagar.
Nós não precisamos de mais problemas. A bilheteria do show de amanhã é dele.

PISTOLEIRO 2
É melhor que seja. Senão, pode dar adeus ao seu pequeno estúdio de merda.

CORTE PARA O PISTOLEIRO 3, que acerta um tiro no meio do amplificador de guitarra. Os pistoleiros batem em retirada. Na saída, o PISTOLEIRO 1 arranca um baseado da boca do percussionista Bunny Wailer. Bob Marley sai do aquário e junta-se aos músicos na sala principal. Ele enfia a mão no bolso e saca um punhado de erva.

BOB MARLEY
Alguém tem seda?

PETER TOSH
Nosso papel acabou. Aquele escroto levou o último.

BOB MARLEY
Merda, vou sair pra arrumar algum.

CÂMERA SEGUE MARLEY ATÉ A PORTA DO ESTÚDIO.


5. EXT. PORTA DO ESTÚDIO. NOITE.

Lá fora, encostado na parede, está o anão do tapa-olho, com a mão esquerda estendida no vão da porta, segurando um maço de papel de seda e olhando em direção à rua. Bob Marley agradece e observa o anão enquanto pega os papéis. Quando abre o maço de sedas, descobre a mensagem em letras garrafais. Marley procura o anão, que já desapareceu na escuridão.

CLOSE no papel de seda: AGUARDO SUA VISITA EM LAGOS, NO DIA 31. VENHA SOZINHO. ASSINADO: FELA ANIKULAPO KUTI.


6. EXT. AEROPORTO DE LAGOS, NIGÉRIA. DIA.

FADE IN MÚSICA: OS ALQUIMISTAS ESTÃO CHEGANDO - DE JORGE BEN.

O avião se aproxima da pista num dia de sol forte. Jorge Ben desce primeiro. Bob Marley surge na escada do avião após meia dúzia de passageiros.

CORTA PARA PORTA DO AEROPORTO.
Jorge Ben e Bob Marley estão no ponto de táxi do aeroporto. Cada um carrega uma mala e um instrumento. Ben traja uma camisa do Flamengo, Marley está vestido com a camisa da seleção brasileira de 1970. Eles se olham, mas não reconhecem um ao outro. Uma caminhonete bege estaciona na frente dos dois. Do banco do carona, salta o anão misterioso.

FADE OUT MÚSICA.

ANÃO MISTERIOSO
(em inglês)
Mister Bob Marley, entre, por favor.
(em português, sotaque angolano)
Senhor Jorge Ben, por favor.

Os dois músicos adentram a caminhonete, que dá a partida e ganha as ruas de Lagos.


7. INT. CAMINHONETE. DIA. CÂMERA COLOCADA SOBRE O FREIO DE MÃO DA CAMINHONETE FOCA A CONVERSA ENTRE MARLEY E BEN NO BANCO DE TRÁS.

JORGE BEN
(apontando para a camiseta amarela de Marley)
Mister Marley, véri naice camiseta, véri naice, mai frend!

BOB MARLEY
(em inglês)
Obrigado, Mister Ben. Sua música é linda e sua camiseta também...

JORGE BEN
I donti spik inglish, mai frend... véri naice, véri naice!

ANÃO MISTERIOSO
(traduzindo as palavras de Marley para Ben)
Ele disse que sua música é linda e sua camiseta também.

JORGE BEN
(para Marley)
Maravilha! Is Flamengo, mai frend, FLA-MEN-GO!

BOB MARLEY
(num português tosco)
Ahh! “Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa”…

JORGE BEN
Yes, yes, mai frend!
Ô, senhor Anão Misterioso, diz aí pra ele que lá no Brasil a gente adora aquele som que ele faz, o Réguis.

FADE IN MÚSICA: CONCRETE JUNGLE, DE BOB MARLEY.

CORTA PARA A CARA DE MARLEY, que sorri para Ben e depois começa a olhar as ruas de Lagos, cheias de miséria. CÂMERA ESTÁ COLOCADA NA PERSPECTIVA DE JORGE BEN, com o perfil de Marley em primeiro plano e a janela com as ruas de Lagos em segundo plano.

CORTA PARA A CARA DE BEN, compenetrado na pobreza da capital nigeriana. CÂMERA ESTÁ COLOCADA NA PERSPECTIVA DE BOB MARLEY, com o perfil de Ben em primeiro plano e a janela com as ruas de Lagos em segundo plano.

A caminhonete estaciona na porta do Afrika Shrine, o nightclub criado por Fela Kuti, que ficava na comunidade Kalakuta Republic, outra criação do Fela Kuti. Jorge Ben, Bob Marley, o motorista e o Anão Misterioso descem do automóvel e ficam parados na porta do nightclub.

FADE OUT MÚSICA.


8. INT. AFRIKA SHRINE. NOITE.

O interior do Afrika Shrine é escuro, iluminado apenas por luzes fracas de neon amarelo e vermelho. Fela Kuti está deitado no sofá, rodeado por oito mulheres negras de caras pintadas e os músicos de sua banda. Ben e Marley estão de pé, em frente ao sofá. O primeiro carrega o violão, o segundo tem uma guitarra. O som de fundo é o Afro-beat.

FELA KUTI
(em inglês; o anão traduz para Jorge Ben)
Mister Bob Marley! Mister Jorge Ben! Sejam bem-vindos!
Obrigado por aceitarem o meu convite. A comunidade da Kalakuta Republic está em festa pela presença dos maiores músicos das Américas. Chamei-os aqui porque a música de vocês é o que melhor representa a cultura africana pelo mundo. Eu ia chamar o James Brown também, mas descobri que ele é simpatizante do Partido Republicano e mudei de idéia. Nós precisamos colocar a música africana nos corações e nas mentes das pessoas e ninguém melhor do que vocês, negros descendentes do nosso continente, para levar esta missão adiante. Venham, tragam seus instrumentos e sigam-me.

CÂMERA SEGUE PELAS COSTAS OS TRÊS MÚSICOS. Eles se dirigem ao palco do Afrika Shrine, que já está tomado por uma dúzia de músicos de Fela Kuti, todos em suas devidas posições, prontos para tocar os instrumentos.

CLOSE no Anão Misterioso, que cochicha alguma coisa no ouvido de Fela Kuti.

FELA KUTI
(em inglês)
Alright, alright. Mister Marley, você primeiro. Sabemos que você aprecia as ervas e temos aqui uma nova música pra você. Chama-se African Herbsman. Aqui está a partitura. Tem um pedaço de letra e você pode completar. Vamos tocar?

BOB MARLEY
(isto não tem tradução à altura)
Of course, boss. Whatever you say. Let’s jam!

MÚSICA: AFRICAN HERBSMAN, DE BOB MARLEY.

A banda começa a tocar. Bob Marley e Fela Kuti cantam juntos. Jorge Ben observa de braços cruzados na frente do palco.
LEGENDA: A MÚSICA AFRICAN HERBSMAN DARIA TÍTULO AO NOVO DISCO DE BOB MARLEY, LANÇADO EM 1973.

FADE OUT MÚSICA.

CLOSE no Anão Misterioso, que novamente cochicha alguma coisa no ouvido de Fela Kuti.

FELA KUTI
(em inglês; o Anão traduz para Jorge Ben)
Jorge, agora é sua vez. Sei que você ama o futebol e temos aqui na Kalakuta Republic um atacante chamado Umbabarauma. Ele já marcou um milhão de gols pelo nosso time, que se chama Korokondô. Você pode fazer a letra em português, mas a base da música é esta aqui. (Fela Kuti toca no saxofone a linha de guitarra de Umbabarauma). Vamos tocar?

JORGE BEN
Ô, chefia... Você é quem manda. Vamo nessa!

Jorge Ben sobe ao palco e pede a guitarra de Bob Marley emprestada. Bob Marley vai para a percussão. As cantoras de Fela Kuti começam o coro de “Umbabaraumááá”. Todos começam a tocar!!!

MÚSICA: UMBABARAUMA, DE JORGE BEN.

LEGENDA: PONTA DE LANÇA AFRICANO (UMBABARAUMA) SERIA A PRIMEIRA FAIXA DO DISCO ÁFRICA BRASIL, LANÇADO POR JORGE BEN EM 1976.

FIM

FADE OUT MÚSICA.

CRÉDITOS.

MÚSICA: GENTLEMAN, DE FELA KUTI.

Zé McGill

*Se você ainda não conhece o som do Fela Kuti, eis aqui a sua chance de redenção:


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

JÔNATAS PRECISA DE CARINHO


Adeus hexa, adeus Libertadores, adeus Caio Harry Potter Júnior. Olhei o Flamengo contra o Atlético Paranaense pela televisão no último domingo. Um olho brilhou de tristeza pela apatia e covardia do time, mas o outro brilhou diferente, aliviado com a saída iminente de um técnico que me causou um dos sentimentos mais esquisitos que existem: pena.

Quando li que Harry Potter admitiu ainda não ter encontrado a formação ideal da equipe na trigésima sexta rodada do campeonato, deu pena. Quando ele disse que o Frambueza foi o melhor em campo contra o Botafogo, deu pena. Quando declarou, numa entrevista coletiva, que seu sonho era um dia ter o nome gritado pela torcida... misericórdia. Coitado.

A gente sabe que um técnico é fraco quando uma meia-dúzia de três ou quatro jogadores notoriamente bons de bola vão mal. Foi assim com Leonardo Moura, Ibson, Juan e Marcelinho Paraíba, que tiveram raros momentos de brilho durante o campeonato. E foi assim com o único craque do elenco do Flamengo: Jônatas, que passou o ano inteiro fora até do banco de reservas.

Quando o problema é com apenas um jogador que anda em má fase, tudo bem, aí o problema é o jogador, não o técnico. Mas quando vários jogadores vão mal ao mesmo tempo, há algo errado no comando. O Harry Potter usa óculos, tem varinha de condão, cabelo lambidinho e até que é bem intencionado, mas não sabe falar grosso e escala mal o time. Vide as insistências com Jaílton como zagueiro (cometendo três pênaltis por jogo) e Marcelinho Paraíba (que só faltou chorar para ser escalado em sua posição de origem, no meio de campo).

Se o técnico do Flamengo em 2008 fosse o Felipão, o Muricy Ramalho ou o Mano Menezes, o Jônatas voltava a jogar bola rapidinho. Se bobear, já estaria de volta à seleção. Aliás, se o técnico do Flamengo fosse um desses caras no campeonato que acabou, seríamos campeões. Tínhamos time pra isso. E não há jogador atuando no Brasil que lance uma bola de longa distância, que tenha categoria e visão de jogo como Jônatas Domingos. Que ele é meio doidão, todo mundo sabe. Mas Romário e Maradona também são. Todo gênio é doidão.

O meu avô, que já foi dirigente do Flamengo, conta que um dia chegou no vestiário e encontrou o Jônatas cabisbaixo, quase chorando. Ele já era titular do time, já estava arrebentando e o bolso dele já estava cheio de dinheiro, mas mesmo assim, tinha os olhos cheios d’água ali no vestiário. Meu avô chegou pra ele e perguntou: “Ô Jônatas, que é que há? Tá triste por quê?”. O camisa 5, soluçando, respondeu algo parecido com: “Eu quero voltar pro Ceará, não aguento mais, quero voltar pra minha família...”. Pergunto: É gênio ou não é?

Poucos anos depois, Jônatas carregou o time na conquista da Copa do Brasil de 2006, com ajuda fundamental do Renato Abreu. Não esqueço a comemoração do gol do Renato contra o Ipatinga, naquela Copa do Brasil. O jogo da volta estava empatado no Maracanã quando o Jônatas saiu driblando no meio de campo e lançou uma bola limpinha pro Renato, que chutou de primeira e marcou o gol da vitória. No close da câmera de TV, deu para ler os lábios do Renato durante a comemoração. Ele procurava à sua volta e perguntava: “Cadê o Jônatas? Cadê o Jônatas?”. Queria agradecer o presente. "Cadê o Jônatas", foi o que eu fiquei perguntando ao Caio Potter o ano inteiro.

E agora é isso. O ano acabou e engolimos a pior classificação possível em um Campeonato Brasileiro, que é a quinta colocação. Só não é pior que o rebaixamento. E ainda temos que aturar aquela grande corporação, aquele business, que é o São Paulo Futebol Clube, tomar o nosso posto de maior campeão do Brasil com aquele joguinho safado deles. Você, que não é flamenguista, dirá: “Isso é papo de recalcado”. E é mesmo, mas é também papo de quem não acha legal ver uma empresa ser campeã de futebol.

Quanto ao rebaixamento do Vasco, senti pena (oh, sentimento profano!). Cheguei a torcer pelo time das mulheres bigodudas porque não queria ver tiração de onda por parte do Eurico Miranda – aquele hipopótamo de suspensórios, o personagem mais escroto da história do nosso futebol. Torci pelo rebaixamento do Fluminense. Este sim, merecia. Afinal, todos sabem que o time da burguesia carioca voltou à primeira divisão numa virada de mesa estapafúrdia.

Nós, flamenguistas, tivemos um ano triste. Triste porque o futebol é feito de expectativas e todas as nossas foram frustradas a partir daquela que foi a maior tragédia rubro-negra da história: a derrota por três a zero para o América do México, na Libertadores. Depois vieram outros desastres, como a derrota para o Atlético Mineiro e o empate com o Goiás que, na verdade, foi mais uma derrota por três a zero.

Se tivemos algum momento de alegria em 2008, este nos foi fornecido por um dos nossos maiores ídolos: Renato Gaúcho. Ele, que fez aquele gol insólito contra o Atlético Mineiro, em 1987, e que, agora, comandou o fracasso do Fluminense na final da Libertadores contra a LDU. Valeu, Renato!!! E, no ano que vem, tudo pode melhorar. O Harry Potter já saiu de fininho, temendo ser alvejado pela pedra filosofal das arquibancadas, e o Jônatas vem aí. O Kaiser do Semi-Árido voltará a brilhar. Ele só precisa de um técnico que lhe dê um pouco de carinho e dois quilos de rapadura pra matar as saudades do Ceará.

Zé McGill

Aqui uma pequena amostra do que o Jônatas sabe fazer. Veja sem som, porque a música é uma merda.
http://www.youtube.com/watch?v=jMhwQhAx-QU

Em compensação, aqui está um clipe amador da melhor música do mundo: Gentleman, de Fela Kuti. Pra ouvir no último volume.
http://www.youtube.com/watch?v=-ykpwr8K3M4

sábado, 22 de novembro de 2008

JOÃO JOÃO E O FORASTEIRO


João João era um bandido que metia medo em todo mundo. A barba precisamente aparada, o terno marrom sempre alisado com ferro quente e aquele cabelo negro brilhante que nunca escorria eram as bandeiras do temperamento gelado que carregava. Ninguém sabia o motivo da cicatriz que dividia sua cara redonda em dois hemisférios: no sudoeste, a boca amordaçada pelo corte. No nordeste, olhos infinitos.

Estava faminto quando adentrou a taberna naquela noite fria. Colocou o revólver sobre o balcão, tirou o terno e pediu um ovo estrelado com duas fatias de bacon. Sentou-se e abriu bem as narinas para aspirar o cheiro quente de sua refeição, que já flutuava pelo salão. O rádio de pilha tocava um blues dos anos 1930 que falava sobre o encontro de alguém com o diabo numa encruzilhada.

Sentado ao seu lado, um forasteiro franzino engolia calmamente a cerveja morna que descia da caneca de vidro. Tinha um olho cego embaçado, o outro no revólver de João João, que dormia sobre o balcão. Acabara de chegar na cidade e estava à procura do assassino de seu irmão. Agora que o encontrara, sentado logo ao lado com aquela cicatriz indefectível, refazia seu plano de vingança.

O forasteiro ouvira dizer que o ponto fraco de João João residia justamente nos deboches que seu nome composto inspirava, mesmo que ninguém na cidade tivesse coragem de proferir os tais deboches na sua presença. Portanto, foi por este caminho que o forasteiro iniciou o ataque quando o ovo estrelado e os bacons pousaram no colo de seu adversário.

“Boa noite, estranho, qual é a sua graça?”
“E quem é que deseja saber?”, retrucou João João, salgando o ovo sem olhar para o forasteiro.
“Ora, vamos, meu caro. Só estou tentando puxar conversa nesta noite vazia. Você pode me chamar de Zezé”.
João João largou os talheres de metal sobre o prato e finalmente o encarou.
“Me chamo João João”, respondeu, com o bacon entre os dentes.
“Pfff... João João!”, exclamou o forasteiro explodindo numa gargalhada maliciosa e esguichando cerveja por entre os lábios semi-cerrados antes de concluir: “Que raio de nome é esse!?”

Os outros clientes da taberna, que até então acompanhavam o diálogo entre João João e o forasteiro de olhos arregalados, encolheram-se em seus cantos, provocando um súbito silêncio, apesar do som do rádio e da gargalhada escandalosa que ecoava pelo salão.

Agora de pé, João João passou a mão no revólver e apontou na direção do forasteiro. Sua alma embriagada de cólera desfizera as manias mais excêntricas de sua frieza e uma mecha do cabelo negro e brilhante agora pendia patética sobre a testa em brasa.

“É nome de sujeito homem”, trovejou João João. “Nome de matador, seu filho de uma puta. E tira esse sorriso da cara senão eu te meto chumbo agora mesmo!”

O forasteiro descansou a caneca de vidro sobre o balcão e limpou o sorriso com a manga da camisa. Foi ali que o dono da taberna, um tipo obeso e de bigode ruivo, apresentou Marieta, a escopeta que ficava escondida do outro lado do balcão. Não precisou dizer nada. Bastou apontar, com o cano da arma, o caminho da rua.

Lá fora, o vento corria rasteiro, sujando de poeira o couro das botas de João João. A estrada de terra que passava na frente da taberna dormia deserta no mais negro breu. A única testemunha do duelo que se anunciava era a luz fraca da lamparina de querosene, que dançava preguiçosa na porta da taberna. Nenhum dos clientes teve peito de meter a cara na janela.

João João, que saíra primeiro, empunhava o revólver com raiva. Tanta raiva, que o suor da palma de sua mão tornara escorregadia a coronha do revólver. Seus olhos procuravam a silhueta do forasteiro no meio da escuridão, mas o que avistaram foi a caneca de vidro rolando na direção das botas sujas e derramando o resto de cerveja morna sobre a areia. Nenhum sinal do forasteiro, até que sentiu a garganta sendo esmagada por um braço e a barriga espetada pela ponta de um facão. O revólver de João João quicou pela estrada.

“Vou fazer um X na tua cara, completar o serviço que meu irmão começou”, disse o forasteiro, soltando um bafo quente na parte posterior da orelha de João João.
“Mate-me agora, ou morra depois, seu pedaço de merda”, grunhiu João João.
“Não... prefiro te deixar caminhar por aí, com um X na cara, pra completar a desgraça que esse teu nome ridículo já te traz. João João... pfff. Que nome escroto.”

O facão viajou fundo, do noroeste ao sudeste da face de João João. Deitado em frente à taberna, com o rosto coberto de sangue, ele escutou as gargalhadas e os gritos cada vez mais distantes do forasteiro, que sumiu para sempre no breu da estrada: “João João! Teu nome é tua sepultura! Tua sepultura, João João!”

Zé McGill

*Trilha sonora para leitura: Me and the devil blues, de Robert Johnson.
Aqui o link pro vídeo, que é bem sinistro - http://www.youtube.com/watch?v=3MCHI23FTP8



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

ALESSANDRA NEGRINI NUNCA ME LIGOU


Lá estava eu comandando as carrapetas no meu primeiro trabalho como DJ em uma festa particular. Passava das onze da noite e a pista de sinteco da sala começava a fumegar naquele apartamento ancião da praia do Flamengo. Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na vista panorâmica da Baía de Guanabara, revezávamos, eu e meu parceiro Lupicínio, no temporal de Funk 70 que desabava em forma de James Brown, Kool & The Gang, Sly, Tim Maia e JB’s, entre outros meliantes da pesada, quando uma perua precoce e ocluda me abordou.

“Toca um funk aí!”
“Hã?”, respondi, fingindo que o volume do som atrapalhava a compreensão daquele pedido lunático.
“Fuuun-kêêê!”, escancarou a ocluda. Pronto. Agora não tinha mais desculpa.
“Pô... mas isso é James Brown. Quer mais funky que isso?”, tentando ser simpático: a ocluda tinha uma bunda legal.
“Eu sei, muito bom! Mas toca aí um funk original.”
“Original, como assim!?”
Afinal, entendi. O “funk original” dela era o pancadão-popozudo-tigrão-carioca.
“Foi mal, não tenho”, aleguei, tentando fornecer um sorriso amarelado.
A ocluda fez beicinho mas sorriu e saiu saltitando pelo sinteco feito uma gazela suntuosa enquanto ajeitava os óculos.

Tudo bem, até acho que o pancadão, ou funkarioca, tem o seu valor, que é uma forma legítima e até divertida de expressão dos esquecidos do esquemão e etc., mas porra, os meliantes do funk norte-americano dos anos 70 é que são os originais, os pais do funk. E quando a ocluda me abordou, o som que rodava no CDJ era Make it funky, do James Brown: uma pedrada violenta, daquelas que fazem até joão-bobo murcho balançar.

Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na bunda da ocluda, lembrei que a festa acontecia em um dos metros quadrados mais caros da cidade, e que os convidados eram daquele time que acha que é cool militar a favor da cultura dos morros sem nunca ter pisado numa favela. De qualquer maneira, o aniversariante (vulgo: patrão) e a maioria dos convidados estavam perdendo a noção do ridículo na pista, bamboleando de tal maneira que não deixavam dúvida quanto ao sucesso da sequência musical a que eu e Lupicínio os submetíamos.

Já perto da meia-noite, entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na mesa de quitutes, o Lupicínio acertou uma leve cotovelada nas minhas costelas e forneceu a notícia aterrorizante:

“Olha quem chegou aí... a tua musa, Alessandra Negrini”.
“Tá de sacanagem... cadê?”, perguntei no susto.
“Ali, malandro!”, apontando para a porta do apartamento.
“Aí, fodeu, não vou mais conseguir tocar.”, avisei, meio rindo, meio sério.

Lupicínio conhecia a minha tara pela atriz Global. Estava farto de me ouvir dizer, no final dos nossos porres pelos botecos sujos, que Alessandra Negrini era a mulher mais tesuda da galáxia. Sim, encabeçando uma lista que conta ainda com as seguintes alienígenas: Catherine Boceta-Jones (aquela égua galesa), Kirsty Alley (a mamãe-delícia do filmeco Três solteirões e um bebê), Mireya Luis (a ex-craque popozuda da seleção cubana de vôlei) e Cláudia Cruz (a apresentadora do RJTV nos anos 90, que fazia um biquinho fatal com a boca enquanto apresentava as notícias de inutilidade pública do telejornal).

Sabedor da minha aflição, Lupicínio não estranhou quando larguei o headphone no meio de Acenda o farol, do Tim Maia, e fui fumar um cigarro na janela. Alessandra já havia sumido na pequena multidão que se formara no corredor colossal que desembocava na “pista”, mas a ciência de sua presença no recinto festivo me perturbava. Entre uns goles na latinha de cerveja e uns tragos no cigarro, fiquei lembrando das fotos da Playboy, em que ela aparece com o olhar mais safado do mundo, posando de prostituta na Lapa. É a melhor Playboy nacional de todos os tempos.

Encostado no parapeito, de costas pra janela, senti a brisa soprar na minha nuca quando Alessandra surgiu na pista. Trajava um vestido preto de tecido leve que denunciava todos os seus volumes mas deixava nuas apenas as canelas brancas e grossas. Segurando uma taça de champagne com uma das mãos e ajeitando o cabelo recém-cortado com a outra, ela entrou na dança timidamente, apesar do esforço dos estranhos em transparecer a maior naturalidade na sua presença. Acho que foi a suposta timidez dela que me encorajou a voltar pra mesa de som.

Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas no popô da Alessandra - que já requebrava bonito na minha frente - relaxei. Passava das duas horas da madrugada quando a vi caminhando em direção à mesa de som, quer dizer, em minha direção. O sorrisinho dela era bem diferente daquele da Playboy. Era um sorriso meio torto, meio encabulado e, ao mesmo tempo, maroto que só ele. Os dois olhões negros me encontraram com cara de panaca, a boca entreaberta. Notei que ela trazia um pequeno pedaço de papel e uma caneta, ambos na mesma mão. Na outra, ainda a taça de champagne. Tirei o headphone da cabeça, enchi o peito de confiança e me preparei para o confronto.

“Oi. Tudo bem?”, ela - colocando a taça sobre a mesa.
“Tudo!”, eu - vermelho, roxo, magenta, sei lá, sou daltônico.
“Adorei o som de vocês. Várias músicas que eu não escutava há um tempão. Vocês tocam sempre juntos? É que eu vou precisar de um DJ pruma festa e queria pegar o telefone de vocês...”.

Olhei de relance pro Lupicínio, com cara de quem pede socorro, mas o puto fingiu estar compenetrado no trabalho, nem tirou o olho do CDJ. Aposto que estava se mijando de rir. Depois ele confessou que ouviu a conversa toda. Mas agora era comigo. A maior tesuda da galáxia estava na minha frente, pedindo o meu telefone e eu queria lhe dizer algo além do meu número. Ela é o tipo de mulher que já escutou toda a sorte de gracinhas e cantadas imbecis, portanto, perguntar se ela gostaria de conhecer a minha coleção de selos estava fora de cogitação. Resolvi então libertar o canalha que mora dentro de todos nós:

“Olha, Alessandra, seria o maior prazer tocar pra você, mas quando é a festinha?”
“É no dia 31 de outubro, sexta-feira. Você pode?” – respondeu, ainda sorrindo torto, mas na maior boa vontade. Percebi que desta vez ela perguntara se eu poderia, e não se nós poderíamos.
“Hummm... dia 31. É o dia do Halloween, né?”
“É mesmo! Coincidência...”
“Pois é, acho que não vou poder, minha mãe não me deixa sair de casa no Halloween...”
“Que história é essa menino, quantos anos você tem?”, o sorriso dela agora era mais espontâneo.
“Tenho 31, mas a minha mãe... sabe como é...”
“Olha, avisa sua mãe que eu tomo conta de você, tá legal?”
“Ahn, sendo assim, anota aí o meu número.”

O dia 31 de outubro já passou e até hoje aguardo o telefonema de Alessandra. Naquela noite, ainda trocamos alguns comentários sobre os CDs, sobre aquele apartamento ancião e sobre a sua futura festa. Alessandra foi embora na hora do parabéns, lá pelas três da madrugada. Saiu de fininho, sem falar com ninguém. Nem comigo. Acho que deveria tê-la convidado para conhecer a minha coleção de selos. E deveria ter pedido o número do telefone dela, entre os goles na latinha de cerveja e as piadas duvidosas sobre o Halloween.

Zé McGill

* Por falar em Tim Maia, segue o link de um vídeo raro e foderoso do Síndico. (Atentem para a performance do percussionista, que recebe um santo no final do vídeo... ISSO É BRASIL!!)


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

M A R I N A


Um amigo sugeriu que eu tentasse escrever um conto curto ao mesmo tempo em que escutasse alguma música que não gosto. A idéia era despertar a criatividade através do improvável e deixar o texto correr. Escolhi a sofrível Goodbye my lover, do James Blunt, e coloquei em "repeat" no Media Player. Quando o primeiro parágrafo saiu, acho que já havia escutado a música mais de dez vezes. Uma tortura fodida. Os parágrafos seguintes foram escritos no silêncio... segue o resultado: um conto curto chamado Marina.

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O sal rachava os lábios rúbidos de Marina. Cada sopro do vento hostil levantava o vestido rasgado e desnudava suas coxas pálidas. Marina permanecia inerte, com os pés dormentes afundando na areia e olhar fixo na ilha em forma de baleia. As gotas d’água que saltavam do mar encontravam seu rosto sardento e escorriam em direção à sua boca, confundindo-se desgostosas com as lágrimas salgadas.

No início do crepúsculo, o dedão do pé direito descobriu as costas lisas de uma concha e empregou-lhe uma massagem letárgica. Enquanto isso, a maré enchia apressada e a canela de Marina desaparecia progressivamente na areia encharcada a cada refluxo do mar verde, cor de limonada. Os movimentos de seu corpo carnudo resumiam-se a inclinações dos olhos vermelhos que agora testemunhavam o soterramento de uma comunidade de tatuís.

A lua cheia mirou intrigada a imersão das coxas enquanto o oceano, faminto, lambia as dobras da bunda voluptuosa de Marina. Um carangueijo que passava por ali estranhou a estagnação apática da moça e decidiu provocá-la, investindo bruscamente na direção dos mamilos pontudos, como se ameaçasse beliscá-los com suas mãos de alicate. Nenhuma reação. O carangueijo deixou-se levar por uma marola e flutuou magoado. Sentia-se imprestável, invisível.

Marina já podia sentir a areia entre os dentes quando o odor de peixe, água e sal penetrou suas narinas e enviou a mensagem de transe para as profundezas do cérebro. Quando amanheceu, a praia estava deserta.

Zé McGill


* Um vídeo amador do incrível Shuggie Otis! A música chama-se Aht uh mi hed. Confira:




quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O GRANDE FRACASSO


Estou achando essa crise financeira que assaltou os Estados Unidos – e que começa a atropelar a economia mundial como uma avalanche – de uma beleza fundamental. Pronto. Você aí que leu estas primeiras palavras já está dizendo: “Ah, não... quem é esse ignorante pra falar uma asneira dessas?”. Sim, estimado e atormentado leitor, aqui vos fala um idiota econômico, alguém que não entende patavina sobre as oscilações do mercado financeiro, um jumento numerológico incapaz de operar uma planilha de Excel. Alguém que até bem pouco tempo sequer conhecia a taxa de juros de seu próprio cheque especial.

No entanto, o jumento aqui quer ver o circo financial pegar fogo com todos os palhaços, domadores e atiradores de faca ardendo de febre dentro do inevitável globo da morte capitalista. Este asno da retórica econômica torce para que esta seja uma crise definitva, diferentemente daquela dos anos 30, que não serviu para elucidar as almas mais pobres sobre o que está acontecendo na sua casa, o mundo. Pois o que está acontecendo, meu sorumbático amigo, é o evidente seguinte: o capitalismo fracassou. E só os bobos ainda não perceberam.

Fracassou porque faz com que passemos a maior parte de nossa vidas dedicando-nos à construção de um patrimônio material que relega ao segundo plano a construção do patrimônio da amizade, da espiritualidade, do amor. Fracassou porque nos induz à busca por supostos segurança e conforto financeiros a qualquer custo, mesmo que este seja o custo da destruição do planeta, dos animais com os quais o dividimos e de nossos próprios corpos e mentes, sacrificados de forma tão vil pela pressa estúpida e pelos prazeres inconsistentes da vida moderna.

O socialismo também fracassou. Mas fracassou, entre outros motivos, por exigir a limitação da ganância de muitos e permitir assim o banquete ganancioso de poucos. Já o capitalismo, fracassou por promover e exigir a ganância desenfreada de todos. Os sinais de seu fracasso são sutis como o coice duma égua prenha na boca do estômago, como a invasão do Iraque na busca por petróleo ou o dedo amputado de uma madame no semáforo por causa do anel de diamante.

É claro que numa grande crise econômica como a que está se anunciando, quem sai mais prejudicado é sempe o pobre, o miserável. Os ricos continuarão ricos e muitos deles ficarão ainda mais ricos às custas da miséria alheia. Mas dizem que existe sempre um lado positivo em toda crise, e, se existirá um lado bom aqui, este será justamente a oportunidade de percebermos como todos nos tornamos escravos da máquina capitalista. E quanto mais profunda for esta crise, maior será nossa capacidade de percepção e julgamento do grande fracasso.

Os homens de “sucesso” gostam de se referir àqueles que vivem à margem do sistema como perdedores, losers, fracassados. Muito bem. Mas que grande sucesso é este senão o êxito em fazer girar a roda-gigante do consumo, da ambição e do caos que tanto contribuíram para o grande fracasso? Chegou a hora deles reverem este conceito e se perguntarem quem são os verdadeiros losers do parque temático do capitalismo.

Votei em Fernando Gabeira para prefeito do Rio e não acredito que ele tenha notado a realidade do grande fracasso. Se notou, não acredito que a vaidade lhe permita abrir a boca para tocar no assunto. Meu voto foi vítima da urgência ecológica por um peido oxigenado de esperança. Pretendo me registrar e votar em Barack Obama e sei que este nem mesmo cogita da possibilidade do grande fracasso que ulula radiante na Wall Street, na Main Street e nos becos escuros e enfumaçados. Este seria um voto contra a truculência e a imbecilidade perigosas de seus adversários, nada mais.

Escrevi este texto e sei que você, oh macambúzio mosquito atolado na graxa da engrenagem colossal, mesmo que tenha se dado conta do grande fracasso, pouco ou nada poderá fazer a respeito. Mas não importa. O que importa agora é enxergá-lo. O rei está nu e só os bobos não enxergaram, ainda.


Zé McGill


* Aqui uma outra visão sobre o grande fracasso. Vale o clique.


** E aqui uma boa trilha sonora para a reflexão sobre o grande fracasso. A banda é do Novo México (EUA) e se chama Beirut. A música é Post cards from italy.