terça-feira, 29 de setembro de 2009

MARISTELA E O BALDE


Cabelos louros e cacheados, corpo descompensado e torneado, Maristela fora apelidada de “Empadinha” pelos meninos da rua antes mesmo de completar a maioridade. Era de fato uma obra inclemente da natureza, daquelas em que a ausência de beleza não é indenizada com inteligência ou simpatia. Pelo contrário: Maristela exibia sua animosidade com a maior impudência e tinha como passatempo favorito submeter os gatinhos da vizinhança a crueldades impensáveis. Portanto, caro leitor, convém eliminar agora mesmo qualquer indício de compaixão que porventura esteja brotando de sua alma caridosa. O que aconteceu no quintal daquela casa suburbana pode até ser chocante, mas não é digno de pena.

A única paixão de Maristela chamava-se Jonathan, personagem de uma radionovela que era transmitida de segunda à sexta-feira, às nove da noite, numa estação de rádio AM. Naquele derradeiro episódio, Jonathan ameaçara abreviar a própria vida após uma dolorosa descoberta de traição. Ao tomar conhecimento da tragédia iminente, a Empadinha adentrou num grave estado de alteração: agarrou o rádio de pilha com a mão direita e arremessou o aparelho contra a parede do quintal com toda força. Não teve tempo de descobrir que a ameaça de suicídio de Jonathan tratava-se na verdade de um blefe, e que o destino do personagem seria a reconciliação com a mulher amada antes do final da novela. O blefe, aliás, era patente para qualquer ouvinte atento, mas não para Maristela. Na cabeça dela, Jonathan era completamente incapaz de mentir. Blefar, ela nem sabia o que era.

Para aliviar sua indignação, Maristela resolveu torturar um gato vadio. Capturou um malhado que dormia no muro da padaria e trouxe-o para o quintal de casa. Ali, cortou com um alicate de unha todos os pelos do bigode do felino e ficou a observar a agonia cambaleante do animal. Ela descobrira que, sem os pelos da frente, os gatos ficam totalmente desorientados, como se perdessem o seu radar. E com o malhado não foi diferente. Mas a verdade é que a maldade aprontada pela moça não funcionou como remédio para atenuar a dor que o suicídio não-consumado de Jonathan lhe causava. Decidiu então que era ela mesma quem deveria se matar.

A ideia não era nova: por diversas vezes, a Empadinha havia planejado a própria morte. Numa delas, pensou em se enforcar com uma corda, mas lembrou que seu pescoço praticamente inexistia. A cabeça era quase que diretamente colada ao tronco, o que poderia dificultar a colocação da corda em torno do pescoço, imaginava. Em outra ocasião, tomara uma overdose de laxantes acreditando ingerir um remédio para insônia que, segundo a Revista da TV, provocara a morte de um ator famoso. Aquilo lhe rendeu semanas de diarreia e um constrangimento inolvidável.

Agora, aqui estava Maristela, andando de um lado para o outro no chão do quintal e pensando numa maneira de suicidar-se sem que houvesse sangue derramado. Tinha pavor de sangue. Foi então que avistou o balde de metal jogado num canto do quintal. Aquele balde enferrujado estava largado ali havia muito tempo. Pertencia ao seu irmão e era utilizado nas tardes de domingo, quando ele limpava o automóvel que o havia levado para bem longe. Por conta das sujeiras do carro, o balde tinha uma crosta negra entranhada no fundo e Maristela tratou de lavá-lo com Bombril e detergente porque, apesar de estar premeditando um suicídio, temia contrair doenças no momento em que enchesse o balde sujo com água e enfiasse a cabeça ali dentro.

Balde limpo, a tentativa de suicídio quase foi frustrada pela falta d’água. Maristela girava as torneiras da casa e as poucas gotas que caíam serviam apenas para umedecer as palmas gordas de sua mão. Enquanto testava a última torneira, lembrou-se do estoque de suco concentrado de groselha que sua tia havia deixado guardado na garagem para a produção dos sacolés do próximo verão. Não teve dúvida: morreria afogada na groselha.

Quem contemplasse a cena do alto, talvez não compreendesse bem o que sucedia no quintal de Maristela. No chão, o balde cheio de líquido avermelhado. De cócoras, em frente ao balde, aquela moça loura e parruda que olhava para o céu com os braços estendidos e um sorriso torto no canto da boca. Ela repetia, bem baixinho: “Jonathan! Jonathan!”.

Quando finalmente enfiou a cabeça no balde, a cena tornou-se ainda mais esquisita. Isto porque o vento levantava a saia de Maristela – que agora tinha as mãos e os joelhos apoiados no chão – e deixava seu ânus respirando livremente o ar da madrugada (Maristela raramente usava calcinha). O espetáculo estapafúrdio, entretanto, durou pouco: a suicida não conseguia prender a respiração por mais de dez segundos e o suco de groselha penetrava por suas narinas durante a tentativa de afogamento.

Ofegante e irritada, a moça arrancou um pregador de roupas do varal e aplicou o objeto nas narinas para evitar a inalação do suco. Acontece que o pregador tapou parcialmente a sua visão e ela não notou a presença do gato malhado, que circulava desorientado à sua frente. Por isso, tropeçou no balde e derramou o concentrado de suco pelo chão. O escorregão foi inevitável, e a queda, violenta. Maristela, desacordada, passou alguns minutos estirada no chão do quintal com o crânio fissurado enquanto o gato lambia a groselha que se esparramara ao redor de seu corpo.

Mesmo machucada e enfraquecida, ela ainda conseguiu reunir forças para encher novamente o balde e mergulhar nele a sua cabeça. Desta vez, o afogamento foi um sucesso. Antes de morrer, a Empadinha balbuciou, lá no fundo do balde, entre bolhas de groselha: “Jonathan! Jonathan!”.

Zé McGill

K. Frimpong é o que interessa... nada mais. Escuta isso:

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A COUSA SECRETA


Segue abaixo conto curto escrito a partir do primeiro parágrafo do conto A Causa Secreta, de Machado de Assis. Trata-se de um caminho alternativo para a história.

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GARCIA, EM PÉ, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, o que será explicado mais adiante. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.

O casal Fortunato desembarcara no Rio de Janeiro havia pouco mais de um ano. Vieram a convite do Dr. Garcia, cirurgião de renome, que àquela época inaugurava sua casa de saúde no Catumbi e lhes oferecera trabalho após longa troca de correspondência com Fortunato, cirurgião recém-formado na Universidade de Porto Alegre. Maria Luísa era enfermeira de pouca experiência, e um emprego para a esposa na casa de saúde era condição inegociável para aceitação da proposta. Mas bastou a foto do casal, enviada pelo correio, para que Garcia se prontificasse a providenciar trabalho para a jovem. Maria Luísa era de uma beleza humilhante.

Naquele primeiro ano, a competência e dedicação de Fortunato ao trabalho na casa de saúde conquistaram a confiança de Garcia de tal forma que este chegou mesmo a incumbir o primeiro da cirurgia de seu próprio sobrinho, um menino frágil que, aos onze anos de idade, carregava um cisto na bolsa escrotal. Maria Luísa auxiliou o marido no procedimento e guardou o cisto do menino num pequeno pote de vidro, dentro da geladeira, para servir como recordação de sua primeira operação bem sucedida.

No dia seguinte à cirurgia do menino, o casal Fortunato convidou Garcia para um jantar. Maria Luísa havia preparado um guisado de carne e tratou de vestir o que havia de mais elegante e discreto em seu guarda-roupa. Quando o convidado chegou, serviu-lhe conhaque e deixou visita e anfitrião conversando sobre política na sala-de-estar.

O guisado foi servido às oito horas; às nove, Maria Luísa foi até a cozinha e abriu a geladeira. De lá, retirou a travessa de doce de caju e o pequeno vidro com o cisto do sobrinho de Garcia. Encheu três tigelas com o doce e serviu a sobremesa numa bandeja de prata. À mesa, Garcia saboreava o doce de caju e gabava-se de seu sucesso profissional quando mordeu algo de consistência esponjosa, que não era caju. A cousa ficou presa entre seus dentes e ele chegou a mirar o paliteiro, que descansava no centro da mesa, mas seu olhar cruzou com o olhar de Maria Luísa e ele optou pela discrição. Deixou o paliteiro descansar.

Após o jantar, os três retornaram para a sala-de-estar. Agora, ali estava Fortunato, olhando para o tecto enquanto Maria Luísa fingia costurar um presente para o sobrinho de Garcia. Este último mirava a noite através da janela e produzia um ruído constante de estalar da língua entre os dentes. Maria Luísa aproximou-se timidamente de Garcia e, sem dizer qualquer palavra, entregou-lhe um palito. Em seguida, despediu-se do marido e do convidado e retirou-se para o quarto de dormir.

Zé McGill

* Pra ficar no clima de morbidez, aqui vai um vídeo da sensacional banda fantasma da Carolina do Norte, os Squirrel Nut Zippers:

domingo, 9 de agosto de 2009

M Ú Ú Ú Ú Ú


Outro dia saiu no jornal que a Secretária Municipal de Cultura, Jandira Feghali, teria dito que “o Rio de Janeiro voltou a ser a capital cultural do país”. É... Parece que o carioca tem mesmo essa mania feia de vender para o resto do mundo uma imagem sua que não reflete a realidade. Dizem que este aqui é o lugar onde as coisas acontecem primeiro, onde o povo é o mais caloroso na recepção à cultura, ponto de partida ou escala indispensável para o sujeito que pretenda consolidar sua carreira artística etc. Mas a realidade é bem diferente...

A realidade carioca é a cultura do hype, da pulseirinha VIP, dos modismos efêmeros e da falta de curiosidade. Especialmente na Zona Sul da cidade, onde a juventude bronzeada parece estar virando gado, apesar de sua condição financeira privilegiada e do acesso facilitado à informação.

Sábado à noite, se não ameaçar chover, é quase sempre o mesmo filme: os bois bronzeados seguem as vaquinhas bronzeadas e o gado inteiro vai comer capim naquela festa bombada, com músicas que bombam nas rádios, ou naquele show onde a pegação é garantida. A qualidade da música e do evento em si é o que menos importa. O negócio é fazer aquela social, ver e ser visto. O que interessa é dar beijo na boca, sacou, brother?

Nada contra o beijo na boca – pelo contrário –, mas, sair de casa é só isso?

É bom que fique claro: eu não me acho mais inteligente que você, oh, leitor macambúzio! Mas já percebi que existe no mundo globalizado e, especialmente, no Rio de Janeiro, um processo sinistro de emburrecimento geral que está tomando conta da situação.

Estou exagerando? Então, responda: você costuma sair de casa pra conferir o show de uma banda nova da qual você nunca tenha ouvido falar? Você tem interesse em uma festa onde os DJs não toquem músicas que bombam nas rádios? Você vence a preguiça e o preconceito contra aquilo que é de fato novo na música, na literatura, no cinema, nas artes plásticas, na cultura em geral? Se sua resposta foi positiva para as perguntas acima, saiba: és praticamente um super-herói carioca! E, infelizmente, uma exceção.

Mas se você se sentiu culpado, entenda que a culpa não é só sua. Você não tem nenhum grande veículo de comunicação que te mostre a diferença entre a melancia e a Mulher Melancia. Pelo contrário, em termos de cultura, tudo que chega com alguma facilidade ao seu conhecimento e da maioria dos brasileiros é reality show, música com jabá, filmes (na sua maioria, umas merdas) de Hollywood, mega eventos de qualidade duvidosa e informação preguiçosa ou tendenciosa.

Tomemos como exemplo o filme Se eu fosse você 2. Eu nem assisti, e não interessa agora se ele é bom ou ruim. Só que o filme tem atores Globais, um investimento forte de marketing etc. E aí as salas lotam na primeira semana. Em seguida, começam a divulgar o sucesso comercial da película e... boom! Sucesso total. Milhões de bois e vaquinhas comendo pipoca no escurinho do cinema. Enquanto isso, o filme sobre o Arnaldo Baptista (Lóki?), um dos caras mais importantes da cultura nacional, ganha três salinhas pequenas para exibição. Sai de cartaz em poucas semanas e quase ninguém assiste. Legal, né? MÚÚÚÚÚ...

E quem se lembra do show do Blur, no Metropolitan, em 1999? Eu estava lá e vi a decepção nos olhos do Damon Albarn (vocalista), quando pisou no palco e percebeu a falta de público no recinto. O cara colocou a mão direita sobre os olhos, como se estivesse procurando o público, e mandou no microfone: “Onde estão seus amigos?” Assim mesmo, o show foi fuderoso, histórico. Uma das maiores bandas de rock do mundo e o carioca cagou pra eles... Nunca mais voltaram. E o Radiohead? Lembra da capa da revista Rio Show na semana do show deles no Rio? Era a foto de um hambúrguer... De novo: um hambúrguer! Resultado: o show mais vazio da turnê latina da banda. MÚÚÚÚÚ...

E ainda insistem nessa baboseira de “capital cultural do país”! É muita arrogância para uma cidade onde existe meia dúzia de três ou quatro casas de shows decentes para apresentação de novas bandas, onde o teatro só enche quando a peça tem ator de novela e onde boa parte das crianças está fora das escolas. Esse complexo de superioridade que inundou São Sebastião é peça fundamental na máquina do emburrecimento.

E outra peça importante desta engrenagem é a falta de curiosidade. Sem a boa e necessária curiosidade, acontece como no show da Cat Power, domingo retrasado: lamentável fiasco de público. (Detalhe: o show lotou em São Paulo). Sem ela, as boas bandas gringas cancelam os shows no Rio e vão tocar em Curitiba. Sem ela, as novas bandas cariocas nunca vão tirar o pescoço da lama. Sem ela, as pessoas que encontramos nas festas de música alternativa (rock, eletrônica, africana, dos Bálcãs ou qualquer outro som) serão sempre aquela mesma meia dúzia de sete ou oito conhecidos. Sem curiosidade, o emburrecimento toma conta! Se liga, malandragem...

O Rio de Janeiro continua lindo e cheio de gente esperta, no bom sentido do termo. Mas, sem a tal da curiosidade, em breve estaremos todos mugindo uns para os outros nos currais VIPs da noite carioca. MÚÚÚÚÚ...

Zé McGill

* Originalmente publicado no Tico Tico, o site do programa roNca roNca, do Mauricio Valladares:

** E, antes do Tico Tico (em versão reduzida), no blog do Rio Fanzine (O Globo):

*** Frank Sinatra não tem nada com isso... Fly me to the moon!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

NINGUÉM FAZIA IDEIA


Você já parou pra pensar sobre a renovação que certas palavras sofreram por causa do novo acordo ortográfico da língua portuguesa? Nos textos que você lê nos jornais, na internet, nas publicações mais recentes, você percebe que existe uma palavrinha que antes quase não era notada, mas que agora, depois do tal acordo, botou o pescoço pra fora da janela?

A tal palavra é IDEIA. Segundo meu dicionário de bolso, surrado e manchado de suco de goiaba, significa: “Representação mental, imaginação; elaboração intelectual; concepção; plano, projeto”. Não sei se aconteceu somente comigo, mas após o tal acordo, parece que IDEIA começou a pipocar loucamente em 90% dos textos que leio. Eu não fazia IDEIA da assiduidade do nobre vocábulo. Acho que ninguém fazia IDEIA.

E de quem terá sido a magnânima IDEIA de colher o maduro acento agudo lá do alto dos cachos da IDÉIA? Fico imaginando um acadêmico lusitano, cabeçudo e atormentado, desprovido de boas IDEIAS, que se depara com a palavra IDÉIA num canto escuro de seu escritório. Ele decide escalar o E para afanar-lhe o acento na mão grande. Trepa sobre o segundo braço da letra, olha à sua volta para certificar-se de que não há ninguém olhando e disfarça um pigarro antes de passar a mão no agudo e enfiá-lo no bolso do paletó. Em seguida, pega o telefone e começa a ligar para os colegas de academia, conta-lhes sobre o sequestro e propõe um... acordo.

Ainda bem que o tal acordo ortográfico exclui os nomes próprios. Eu conheço uma moça bonita, de nome igualmente bonito, que tem o assassinado trema posto sobre a letra i, no meio do nome. Essa moça bonita não quer se livrar do trema e pode ignorar o tal acordo se assim desejar. Mas e a palavra linguiça, por exemplo, como é que fica?

Violentou-se a lingüiça, justamente ela, que sempre sofreu as mais perversas violações: além de ser tostada nos churrascos da vida, tornou-se sinônimo de órgão genital e de embromação, antes mesmo que a coroa do U levantasse voo. Por sinal, esta última palavra (ex-vôo) é mais uma que foi descortinada. Eu diria que voo vem logo na cola de IDEIA na fila indiana das palavras defloradas que andam salientes. Não sei se foi o acidente da Air France ou a queda do acento circunflexo, que deixou careca seu primeiro O, mas passei a ler voo com frequência muito maior nos últimos meses. Assim como passei a enxergar IDEIA em tudo que é folha de papel. E nisso reside aquele que talvez seja o único atributo positivo do novo acordo ortográfico.

Dizem que Deus está nas coincidências. E talvez não seja por acaso que IDEIA esteja pululando sob nossas pupilas ultimamente. Em nossas vidinhas modernosas, onde somos quase todos consumidos pela urgência de ganhar dinheiro, consolidar carreiras profissionais e conquistar patrimônios materiais, sobra cada vez menos tempo para parir boas IDEIAS. Parece que vivemos um processo dormente de emburrecimento no mundo globalizado, onde a boa IDEIA está minguando e nem a Caninha 51 salva.

Enfim, não sei se este texto em homenagem à IDÉIA foi uma IDEIA genial ou um sinal de que preciso beber menos, mas vou trocar uma IDEIA com aquela moça bonita (aquela, que manteve o trema no nome) pra ver se ela consegue dar um jeito de tirar esta IDEIA fixa da minha cabeça. Mas, que IDEIA...

Zé McGill

* All the world is green - Tom Waits



domingo, 28 de junho de 2009

LATIN GOES SKA


O negócio é o seguinte: nesta resenha, vou usar a palavra CLASSE repetidamente. Porque um show dos Skatalites é isso: classe. E não há sinônimo que substitua “classe” à altura.

Esperar que os Skatalites – banda fundada em 1962 – se apresentassem com o vigor que se percebe em álbuns como Stretching Out (um clássico do ska, de 1986) seria covardia. Afinal, metade da banda já ultrapassou a casa dos 60 anos de idade. Por outro lado, a falta de fôlego (flagrante em alguns momentos) foi compensada com doses generosas de classe, muita classe, no histórico show que passou pelo Rio de Janeiro, na última sexta-feira (05/06/09), no Circo Voador.

Mas não confunda falta de fôlego com falta de energia. Até porque os coroas do grupo (Lloyd Knibbs – bateria, Lester Sterling – sax alto, Cedric Brooks – sax tenor, e a cantora Doreen Schaffer) andam muito bem acompanhados por uma moçada que esbanja jovialidade no palco. E por falar em boa companhia, os jamaicanos acertaram também na escolha do Canastra, banda carioca que fez mais do que um simples show de abertura.

O bailão caribenho dos Skatalites foi inaugurado com “Freedom Sounds” e “Occupation”, dois clássicos do repertório deles, que serviram como aviso de que o negócio seria sério. Logo de cara, percebe-se que o coração da banda é mesmo o paredão indigesto de metais (dois saxofones + trompete + trombone). Sterling e Brooks, sempre no centro do palco, entram juntos num estado de torpor que dá gosto de ver. Os velhinhos ficam imóveis, tocando de olhos fechados, enquanto o resto da banda e o público ululam radiantes ao redor. Coisa fina. Classe.

E se os metais são o coração dos Skatalites, bateria e guitarra são o pulmão. Knibbs (o Charlie Watts do ska!) não ataca mais com a vitalidade do passado, as viradas de bateria são mesmo raras, mas é ele quem dá as cartas do ritmo. Ele e o guitarrista Devon James, que tem um ar quase blasé, quase preguiçoso, mas uma mão direita nervosinha que só ela. Mão direita que ficou em evidência em “Simmer Down”, por exemplo.

Outros clássicos skatalaitianos como “Guns of Navarrone” e “Eastern Standard Time” não poderiam faltar. E não faltaram, mas foi em “Latin Goes Ska” que o Circo Voador quase levantou voo de verdade. Uma galera que dançava em frente ao palco na maior animação não se conteve: começaram a subir no palco, um de cada vez, em total harmonia, pra dançar com a banda. E Lester Sterling, um dos membros originais do grupo (ao lado de Knibbs e Schaffer), aprovou a bagunça, com muita classe.

Agora, classe mesmo é com a tal da Doreen Schaffer. Ela participou de menos da metade do show, mas quando cantou, foi com elegância extraordinária. O que mais rola pelo mundo é banda de reggae fazendo aquele sonzinho palha (tomemos “palha” por antônimo de classe, ok?), sem vergonha mesmo. E quando a gente testemunha uma cantora como Doreen e uma banda como os Skatalites tocando reggae como fizeram no meio do show, soa um alarme lá na parte de trás da cabeça.

Enquanto assistia ao show, fiquei tentando achar defeitos ou imperfeições para que esta resenha não soasse como rasgação de seda de fã. Mas não achei nada. O único senão do show ficou por conta das falhas no P.A., que tentaram mas não conseguiram tirar o brilho dos solos de trombone de Vin Gordon, que por vezes remetiam ao canto de uma baleia assassina no fundo do oceano.

E também tem o seguinte: esse papo de imparcialidade jornalística vira conversa pra boi dormir quando se escreve sobre o show de uma banda como os Skatalites, criadores de um ritmo que deu origem ao reggae de Bob Marley, e que nunca haviam se apresentado no Rio de Janeiro. Às vezes, é preciso gritar para que as pessoas entendam: FOI HISTÓRICO!

Zé McGill


** Saiu também no blog oficial do Circo Voador. Valeu, Lencinho!

*** Foto de Tiago Chediak.

****Latin Goes Ska @ Circo Voador!!!


segunda-feira, 22 de junho de 2009

CHOLITA COCHABAMBA


Segue abaixo conto curto escrito a partir da foto acima.

CHOLITA COCHABAMBA

Peguei o Trem da Morte em Corumbá, numa manhã de quarta-feira. Meu destino era a cidade boliviana de Cochabamba, onde Ramon me aguardava com o material. Para chegar até lá, eu deveria descer do trem em Santa Cruz de La Sierra e de lá tomar um ônibus para o destino final. Tive que aturar vinte horas dentro daquele vagão bodoso, entre as cholas que vendiam limonada em saquinho e as galinhas histéricas. Sentada ao meu lado, uma personagem estranha achava graça do meu desconforto. Era uma anã boliviana, que se apresentou como “Cholita Cochabamba, atriz y vendedora de limonada nas horas vagas”.

- Ah... Cochabamba, si? Yo estoy indo para allí, disse, caprichando no meu portunhol.
- Que bueeeno! Puedes quedarse en mi casa, si quieres, respondeu a anã.

A simpatia gratuita de Cholita me pegou desprevenido. E apesar de ter dispensado polidamente o convite, percebi que a pequena boliviana não pararia de falar. Desandou a contar a história de sua vida. Falou sobre a infância alegre em Cochabamba, relatou episódios que evocavam o preconceito contra sua estatura e, em determinado momento, chegou a dizer que a única parte de seu corpo que não lhe agradava eram os seios, muito pequenos para o gosto dela. Se não me engano, foi justamente na hora em que ela falava sobre os seios que notei que o Trem da Morte estava parando.

Olhei pela janela do vagão e reparei um movimento suspeito do lado de fora. Cholita, que não era passageira de primeira viagem, avisou que tratava-se de uma quadrilha peruana, a mesma que assaltara o trem semanas antes. Na mesma hora, peguei minha maleta e apertei-a contra o peito. Percebendo minha aflição, Cholita sugeriu sentar-se sobre a mala, criando assim o disfarce. E eu agradeci. Sabe-se lá o que aconteceria caso os peruanos descobrissem o conteúdo da maleta...

Mas deu tudo certo. Cheguei à Cochabamba no dia seguinte, acompanhado da anã boliviana. Nos despedimos calorosamente num ponto de ônibus tumultuado e fotografei a pequena com seu container vermelho de limonada. Ela me pediu que lhe mandasse a foto pelo correio assim que chegasse ao Brasil. E foi o que fiz. Inclusive, usei o Photoshop para presentear Cholita com um avultado par de seios. Acho que vou visitá-la no verão.

Zé McGill

* Steve Miller Band, The Joker. Coisa fina!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

AFROBEAT NO GO DIE!


Na última sexta-feira (dia 05 de junho), saiu no Rio Fanzine (Rio Show - O Globo) um texto meu sobre o afrobeat. Muito legal! Mas cortaram um bocado do texto, já que a prioridade era da lenda jamaicana Skatalites, com toda razão. Afinal, quem é Zé McGill comparado aos reis do ska?!

Enfim... segue abaixo o meu texto na íntegra, pra quem quiser dar um confere. Para ler a versão publicada n' O Globo, basta clicar na imagem acima.
E a festa MAKULA do dia 06 foi histórica! Confira algumas das fotos do bailão africano no www.myspace.com/festamakula

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Escutei Fela Kuti pela primeira vez em 1997, eu acho. Lembro que era final de tarde de verão, em Los Angeles, e um amigo brasileiro que morava comigo me apresentou aquele CD cuja capa trazia estampada a figura de um babuíno meio sinistro. Era o disco Gentleman (1973) e a primeira música que rolou tinha o mesmo nome. Naquela época, eu escutava muito Pixies e Jane’s Addiction e não tinha muita paciência com o que não fosse rock. Quando meu amigo disse que o tal Fela Kuti era da Nigéria, quase pedi a ele que deixasse pra botar o disco numa outra hora. Mas aí a música começou. E entrou uma batida de percussão que lembrava samba, umas notas graves no teclado e um saxofone demente. Legal, mas nada que não me fizesse querer colocar de volta o disco dos Pixies. Só que, lá pelo segundo minuto da música, quando entraram juntos o baixo e a bateria, ingressei numa espécie de transe. Senti a parede do apartamento tremer e o cheeseburger que eu havia almoçado revirar dentro do meu estômago. Saca aquelas músicas que te ganham logo na primeira audição? Pois é...

Alguns anos mais tarde, já no Brasil, comecei a pesquisar sobre o afrobeat, gênero criado pelo Fela, que une o groove do soulfunky do James Brown à liberdade criativa do jazz, assim como a elementos propriamente africanos e também ao vigor do rock, ele mesmo. Fui caçar aquele som que eu havia escutado em “Gentleman”. Descobri outros nigerianos como Orlando Julius, Tony Allen, Joni Haastrup e The Funkees. Todos contemporâneos da melhor fase do Fela, nos anos 70. E me dei conta de que havia esbarrado com o afrobeat justamente no ano da morte de seu criador. Fela Kuti morreu naquele ano de 1997, quando eu só escutava rock e comia cheeseburger em Los Angeles. Por algum tempo, lamentei ter chegado tarde demais à África.

Acontece que o tempo passou e surgiu na internet o MySpace. Ali, tomei conhecimento da sobrevivência do afrobeat pelo mundo. Ouvi o som de big bands surgidas já no novo século como Nomo (de Michigan), Afrodizz (Montreal), Fanga (Montpellier) e JariBu (Tóquio!). E fiquei sabendo que existem duas cenas em ebulição no orbe terrestre: Nova Iorque, com bandas como Antibalas, Akoya e Kokolo, e Londres, com Dele Sosimi e Inemo, entre outras. Algumas paqueram o jazz, outras flertam até com o hip hop e muitas são compostas por integrantes não-negros. Mas aquilo que o mestre Fela ensinou, inclusive o discurso politizado, está quase sempre ali, na base de tudo. Ou seja, o afrobeat não apenas sobrevive, mas está se espalhando pelo mundo com grau de alcance parecido com o de uma pandemia incontrolável.

Isso sem falar em Lagos, capital da Nigéria, onde os rebentos do Fela – Femi e Seun Kuti – mantém aceso o fogo do afrobeat em sua terra natal. No Brasil, já tivemos grupos como Afrika Gumbe e Obina Shok, cheios de elementos afro no som. E estão pipocando novas bandas nacionais (vide o MySpace) que colocam o afrobeat entre suas principais influências. Portanto, não se espante caso uma tsunami de afrobeat invada o Rio de Janeiro em breve. E não precisa esquecer o samba, a caipirinha, o rock e nem o cheeseburger. Mas chute a preguiça e o preconceito pra escanteio: ouça o som e tente não dançar. Afinal, carregamos no nosso background cultural mil e uma referências africanas. Ou não?

Zé McGill

* Pra não perder o hábito, segue videozinho cascudo da música "Yegelle Tezeta", de Mulatu Astatke (Etiópia), sobre animação da Disney...