domingo, 28 de junho de 2009

LATIN GOES SKA


O negócio é o seguinte: nesta resenha, vou usar a palavra CLASSE repetidamente. Porque um show dos Skatalites é isso: classe. E não há sinônimo que substitua “classe” à altura.

Esperar que os Skatalites – banda fundada em 1962 – se apresentassem com o vigor que se percebe em álbuns como Stretching Out (um clássico do ska, de 1986) seria covardia. Afinal, metade da banda já ultrapassou a casa dos 60 anos de idade. Por outro lado, a falta de fôlego (flagrante em alguns momentos) foi compensada com doses generosas de classe, muita classe, no histórico show que passou pelo Rio de Janeiro, na última sexta-feira (05/06/09), no Circo Voador.

Mas não confunda falta de fôlego com falta de energia. Até porque os coroas do grupo (Lloyd Knibbs – bateria, Lester Sterling – sax alto, Cedric Brooks – sax tenor, e a cantora Doreen Schaffer) andam muito bem acompanhados por uma moçada que esbanja jovialidade no palco. E por falar em boa companhia, os jamaicanos acertaram também na escolha do Canastra, banda carioca que fez mais do que um simples show de abertura.

O bailão caribenho dos Skatalites foi inaugurado com “Freedom Sounds” e “Occupation”, dois clássicos do repertório deles, que serviram como aviso de que o negócio seria sério. Logo de cara, percebe-se que o coração da banda é mesmo o paredão indigesto de metais (dois saxofones + trompete + trombone). Sterling e Brooks, sempre no centro do palco, entram juntos num estado de torpor que dá gosto de ver. Os velhinhos ficam imóveis, tocando de olhos fechados, enquanto o resto da banda e o público ululam radiantes ao redor. Coisa fina. Classe.

E se os metais são o coração dos Skatalites, bateria e guitarra são o pulmão. Knibbs (o Charlie Watts do ska!) não ataca mais com a vitalidade do passado, as viradas de bateria são mesmo raras, mas é ele quem dá as cartas do ritmo. Ele e o guitarrista Devon James, que tem um ar quase blasé, quase preguiçoso, mas uma mão direita nervosinha que só ela. Mão direita que ficou em evidência em “Simmer Down”, por exemplo.

Outros clássicos skatalaitianos como “Guns of Navarrone” e “Eastern Standard Time” não poderiam faltar. E não faltaram, mas foi em “Latin Goes Ska” que o Circo Voador quase levantou voo de verdade. Uma galera que dançava em frente ao palco na maior animação não se conteve: começaram a subir no palco, um de cada vez, em total harmonia, pra dançar com a banda. E Lester Sterling, um dos membros originais do grupo (ao lado de Knibbs e Schaffer), aprovou a bagunça, com muita classe.

Agora, classe mesmo é com a tal da Doreen Schaffer. Ela participou de menos da metade do show, mas quando cantou, foi com elegância extraordinária. O que mais rola pelo mundo é banda de reggae fazendo aquele sonzinho palha (tomemos “palha” por antônimo de classe, ok?), sem vergonha mesmo. E quando a gente testemunha uma cantora como Doreen e uma banda como os Skatalites tocando reggae como fizeram no meio do show, soa um alarme lá na parte de trás da cabeça.

Enquanto assistia ao show, fiquei tentando achar defeitos ou imperfeições para que esta resenha não soasse como rasgação de seda de fã. Mas não achei nada. O único senão do show ficou por conta das falhas no P.A., que tentaram mas não conseguiram tirar o brilho dos solos de trombone de Vin Gordon, que por vezes remetiam ao canto de uma baleia assassina no fundo do oceano.

E também tem o seguinte: esse papo de imparcialidade jornalística vira conversa pra boi dormir quando se escreve sobre o show de uma banda como os Skatalites, criadores de um ritmo que deu origem ao reggae de Bob Marley, e que nunca haviam se apresentado no Rio de Janeiro. Às vezes, é preciso gritar para que as pessoas entendam: FOI HISTÓRICO!

Zé McGill


** Saiu também no blog oficial do Circo Voador. Valeu, Lencinho!

*** Foto de Tiago Chediak.

****Latin Goes Ska @ Circo Voador!!!


segunda-feira, 22 de junho de 2009

CHOLITA COCHABAMBA


Segue abaixo conto curto escrito a partir da foto acima.

CHOLITA COCHABAMBA

Peguei o Trem da Morte em Corumbá, numa manhã de quarta-feira. Meu destino era a cidade boliviana de Cochabamba, onde Ramon me aguardava com o material. Para chegar até lá, eu deveria descer do trem em Santa Cruz de La Sierra e de lá tomar um ônibus para o destino final. Tive que aturar vinte horas dentro daquele vagão bodoso, entre as cholas que vendiam limonada em saquinho e as galinhas histéricas. Sentada ao meu lado, uma personagem estranha achava graça do meu desconforto. Era uma anã boliviana, que se apresentou como “Cholita Cochabamba, atriz y vendedora de limonada nas horas vagas”.

- Ah... Cochabamba, si? Yo estoy indo para allí, disse, caprichando no meu portunhol.
- Que bueeeno! Puedes quedarse en mi casa, si quieres, respondeu a anã.

A simpatia gratuita de Cholita me pegou desprevenido. E apesar de ter dispensado polidamente o convite, percebi que a pequena boliviana não pararia de falar. Desandou a contar a história de sua vida. Falou sobre a infância alegre em Cochabamba, relatou episódios que evocavam o preconceito contra sua estatura e, em determinado momento, chegou a dizer que a única parte de seu corpo que não lhe agradava eram os seios, muito pequenos para o gosto dela. Se não me engano, foi justamente na hora em que ela falava sobre os seios que notei que o Trem da Morte estava parando.

Olhei pela janela do vagão e reparei um movimento suspeito do lado de fora. Cholita, que não era passageira de primeira viagem, avisou que tratava-se de uma quadrilha peruana, a mesma que assaltara o trem semanas antes. Na mesma hora, peguei minha maleta e apertei-a contra o peito. Percebendo minha aflição, Cholita sugeriu sentar-se sobre a mala, criando assim o disfarce. E eu agradeci. Sabe-se lá o que aconteceria caso os peruanos descobrissem o conteúdo da maleta...

Mas deu tudo certo. Cheguei à Cochabamba no dia seguinte, acompanhado da anã boliviana. Nos despedimos calorosamente num ponto de ônibus tumultuado e fotografei a pequena com seu container vermelho de limonada. Ela me pediu que lhe mandasse a foto pelo correio assim que chegasse ao Brasil. E foi o que fiz. Inclusive, usei o Photoshop para presentear Cholita com um avultado par de seios. Acho que vou visitá-la no verão.

Zé McGill

* Steve Miller Band, The Joker. Coisa fina!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

AFROBEAT NO GO DIE!


Na última sexta-feira (dia 05 de junho), saiu no Rio Fanzine (Rio Show - O Globo) um texto meu sobre o afrobeat. Muito legal! Mas cortaram um bocado do texto, já que a prioridade era da lenda jamaicana Skatalites, com toda razão. Afinal, quem é Zé McGill comparado aos reis do ska?!

Enfim... segue abaixo o meu texto na íntegra, pra quem quiser dar um confere. Para ler a versão publicada n' O Globo, basta clicar na imagem acima.
E a festa MAKULA do dia 06 foi histórica! Confira algumas das fotos do bailão africano no www.myspace.com/festamakula

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Escutei Fela Kuti pela primeira vez em 1997, eu acho. Lembro que era final de tarde de verão, em Los Angeles, e um amigo brasileiro que morava comigo me apresentou aquele CD cuja capa trazia estampada a figura de um babuíno meio sinistro. Era o disco Gentleman (1973) e a primeira música que rolou tinha o mesmo nome. Naquela época, eu escutava muito Pixies e Jane’s Addiction e não tinha muita paciência com o que não fosse rock. Quando meu amigo disse que o tal Fela Kuti era da Nigéria, quase pedi a ele que deixasse pra botar o disco numa outra hora. Mas aí a música começou. E entrou uma batida de percussão que lembrava samba, umas notas graves no teclado e um saxofone demente. Legal, mas nada que não me fizesse querer colocar de volta o disco dos Pixies. Só que, lá pelo segundo minuto da música, quando entraram juntos o baixo e a bateria, ingressei numa espécie de transe. Senti a parede do apartamento tremer e o cheeseburger que eu havia almoçado revirar dentro do meu estômago. Saca aquelas músicas que te ganham logo na primeira audição? Pois é...

Alguns anos mais tarde, já no Brasil, comecei a pesquisar sobre o afrobeat, gênero criado pelo Fela, que une o groove do soulfunky do James Brown à liberdade criativa do jazz, assim como a elementos propriamente africanos e também ao vigor do rock, ele mesmo. Fui caçar aquele som que eu havia escutado em “Gentleman”. Descobri outros nigerianos como Orlando Julius, Tony Allen, Joni Haastrup e The Funkees. Todos contemporâneos da melhor fase do Fela, nos anos 70. E me dei conta de que havia esbarrado com o afrobeat justamente no ano da morte de seu criador. Fela Kuti morreu naquele ano de 1997, quando eu só escutava rock e comia cheeseburger em Los Angeles. Por algum tempo, lamentei ter chegado tarde demais à África.

Acontece que o tempo passou e surgiu na internet o MySpace. Ali, tomei conhecimento da sobrevivência do afrobeat pelo mundo. Ouvi o som de big bands surgidas já no novo século como Nomo (de Michigan), Afrodizz (Montreal), Fanga (Montpellier) e JariBu (Tóquio!). E fiquei sabendo que existem duas cenas em ebulição no orbe terrestre: Nova Iorque, com bandas como Antibalas, Akoya e Kokolo, e Londres, com Dele Sosimi e Inemo, entre outras. Algumas paqueram o jazz, outras flertam até com o hip hop e muitas são compostas por integrantes não-negros. Mas aquilo que o mestre Fela ensinou, inclusive o discurso politizado, está quase sempre ali, na base de tudo. Ou seja, o afrobeat não apenas sobrevive, mas está se espalhando pelo mundo com grau de alcance parecido com o de uma pandemia incontrolável.

Isso sem falar em Lagos, capital da Nigéria, onde os rebentos do Fela – Femi e Seun Kuti – mantém aceso o fogo do afrobeat em sua terra natal. No Brasil, já tivemos grupos como Afrika Gumbe e Obina Shok, cheios de elementos afro no som. E estão pipocando novas bandas nacionais (vide o MySpace) que colocam o afrobeat entre suas principais influências. Portanto, não se espante caso uma tsunami de afrobeat invada o Rio de Janeiro em breve. E não precisa esquecer o samba, a caipirinha, o rock e nem o cheeseburger. Mas chute a preguiça e o preconceito pra escanteio: ouça o som e tente não dançar. Afinal, carregamos no nosso background cultural mil e uma referências africanas. Ou não?

Zé McGill

* Pra não perder o hábito, segue videozinho cascudo da música "Yegelle Tezeta", de Mulatu Astatke (Etiópia), sobre animação da Disney...




sábado, 30 de maio de 2009

REVISTA FODA-SE ENTREVISTA MAUVAL













A próxima edição da festa MAKULA (dia 06 de junho, sábado, no Cine Glória) terá participação histórica de Mauricio Valladares, a lenda! Para saber mais sobre a festa, clique nos flyers acima. Para entrar na lista amiga (R$10,00), mande e-mail com nomes completos para festamakula@gmail.com

Pra quem não sabe, Mauval, além de DJ e fotógrafo, é apresentador do roNca roNca (Oi FM - 102.9, toda terça-feira, às 22h), o programa de rádio mais legal do Brasil, uma verdadeira aula semanal de música, informação e bom humor. A Revista Foda-se trocou uma ideia com o mestre. Lá vai:


RF: A música africana tem expoentes diversos como a guitarrada do Franco, o groove do afrobeat do Fela Kuti, o jazz da Etiópia, o Kuduro de Angola e os temperos caribenhos da Orchestra Baobab, entre muitos outros. Você tem favoritos entre eles?

MV: A preferência aparece no momento... pela diversidade de estilos, cada um tem sua hora própria.

RF: Dá pra dizer que você e o Júlio Barroso (da Gang 90) foram os pioneiros do som afro na noite do Rio, certo? E já que toquei no assunto, qual é a dimensão da contribuição do Júlio, também como pesquisador musical, para a difusão desse tipo de som na cidade?

MV: Muita gente sempre ajudou para a circulação da informação africana. Acho que não podemos separar um estilo do outro... quando a música africana circular, os sons escandinavos e da Ilha de Marajó também chegarão aos ouvidos curiosos. Tudo está interligado!

RF: O Rio de Janeiro ainda pode ser considerada a capital cultural do Brasil? O que há de errado com o público carioca, que só sai de casa pra conferir o que é hype, os eventos da moda, e parece ter preguiça e falta de interesse em conhecer o que é de fato novo ou diferente na cultura em geral?

MV: De errado atualmente? Ha ha ha... quase tudo! Vamos pegar a tal da "cidade da música" de exemplo... Mas o principal nesse assunto de afastamento do público é a falta de informação. Não temos mais nenhum veículo de comunicação nos dizendo a diferença da melancia para a mulher melancia, manja?

RF: Como era a festa Funk n’ Reggae que você fazia no Rio na década de 80? Rolava muito som africano? O público respondia no pé?

MV: Ha ha ha... sim, as pessoas iam pra festa dispostas a se divertir com músicas fora do padrão.

RF: O que é um bom programa de rádio, na sua opinião?

MV: Um programa que informe e surpreenda!

RF: Porque é que o roNca roNca está no ar há tanto tempo, com um público tão fiel, e continua sempre atraindo novos ouvintes?

MV: Acho que por alimentar um público resistente.

RF: Existe algo ou alguém que você gostaria de ter fotografado mas ainda não fotografou?

MV: Os dejótas da Makula!!!

RF: Quem é que merece um foda-se bem bonito?

MV: Os responsáveis pelo emburrecimento dos brasileiros!


* Sente a pressão deste vídeo da Kokolo Afrobeat Orchestra, de Nova Iorque, num show na Inglaterra. Se liga na desorientação do público... com a presença do MV, a pista da MAKULA corre o risco de ficar parecida no sábado...


sábado, 16 de maio de 2009

MICK JAGGER DA BAHIA


Domingo, dia da mães, e a senhora minha mãe diz que queria ir ao show do Caetano Veloso. Eu acordei de ressaca, todo errado, não conhecia o disco novo e não me animei muito. Mas, como era dia das mães, topei na hora. Lembrei também que nunca havia assistido a um show do CV e que acho fodaços os discos do início da carreira dele. Cheguei sonolento ao Canecão.

E demorei a reconhecer a música de abertura: “A voz do morto”, registrada no disco de raridades Cinema Olympia, onde ela aparece tocada pelos Mutantes. Eu estava largado na cadeira e fui logo me ajeitando. Em seguida veio “Sem cais”, que também é a segunda faixa de Zii & Zie, o novo álbum. A linha de baixo, numa onda quase dub, me deixou chapado, ao mesmo tempo que me despertou. Guitarrinha criando clima cool, bateria cheia de classe, e a banda Cê, que acompanha Caetano desde o disco anterior, garantia a felicidade da mamãe. Eu já estava bem acordado.

Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria), além de figurarem entre os músicos mais talentosos e criativos do Brasil do novo século, também são fãs dos discos do início da carreira do Caetano. E só isso já sugeria que o repertório traria surpresas agradáveis. Mas eu não esperava “Maria Bethânia” (do primeiro disco dos anos de exílio, Caetano Veloso, de 1970), “Irene” e “Não identificado” (do incrível disco de capa branca, Caetano Veloso, de 1969). Esta última, com bateria demolidora de Callado. Aí, mamãe já merecia um beijo.

Caetano pode ser chato, você pode até implicar com ele. Mas é gênio. E talvez seja hoje o melhor cantor brasileiro em atividade. E bota atividade nisso. Além de virar os olhinhos para declarar sorrindo que “Eu sou neguinha”, o cara corre pelo palco feito um Mick Jagger da Bahia (em doses menores de energia), e cativa feito um David Bowie do Pelourinho. Ademais, conserva o (bom) hábito de saber surpreender musicalmente. Se bem que, ao final de “Não identificado”, uma madame da mesa ao lado, certamente surpreendida pela ausência dos maiores sucessos do baiano no roteiro do show, se empolgou e pediu “Leãozinho”. Perdidinha, coitada.

“Base de Guantánamo”, também do disco novo, é prova de que a torneira criativa musical de Caê não fechou. É quase um mantra, quase The Police, quase Cuba. Os backing vocals da banda são coisa fina e a letra fala mal dos norte-americanos. Eu sou norte-americano (nasci lá nos EUA), minha mãe também, e os dois gostamos da música. Tem gente que reclama que Caê faz questão de emitir opinião de forma explícita o tempo todo, até nas letras. Por mim, deixa ele falar e cantar o que quiser... Ele acerta muito mais do que erra.

Acertou na escolha de “Incompatibilidade de gênios”, de João Bosco, mais uma de Zii & Zie, que provocou corinho da plateia durante o bis. Acertou no cenário (de Hélio Eichbauer), em que uma asa-delta colocada praticamente sobre a cabeça do baterista parece que vai levantar vôo. E acertou em cheio no recrutamento da banda Cê.

Tudo bem, a letra de “Lapa” é meio esquisita. Precisava mesmo comparar o bairro carioca a um “rapaz gostoso”? Mas valeu muito ter ido. Mamãe ficou feliz. Eu também fiquei. E a ressaca sumiu. Às vezes, os melhores shows, os melhores filmes, os melhores encontros são aqueles em torno dos quais não se cria expectativa em excesso.

Ok, Mick Jagger da Bahia foi forçação, eu sei.

Zé McGill

* Só faltou no novo show de CV alguma música do disco Transa (1972). Se liga nesse vídeo da música "Nine out of ten" (do Transa), com a Banda Cê, no Tim Festival de 2006:

quinta-feira, 30 de abril de 2009

FALE A COISA CERTA


Se eu tivesse um ponto de escuta instalado no ouvido vinte e quatro horas por dia, o mundo seria meu. Com ajuda do ponto, eu falaria a coisa certa, sempre. E, falando sempre a coisa certa, o sujeito consegue o que quiser na vida. Conquista a mulher que desejar, consegue o emprego que almejar e, se quiser, vira até presidente da República. Basta dizer a coisa certa. Isto é: dizer o que os outros querem escutar.

Do outro lado do meu ponto de escuta, num quartinho enfumaçado e mal iluminado, uma equipe de apoio estaria sempre a postos: psicólogo, psiquiatra, historiador, filósofo, tradutor de vários idiomas, piadista, canalha, boçal... A fauna toda. Cada um seria acionado para soprar o discurso certo na minha orelha no momento adequado. Se eu me sentasse à mesa de um bar com um idiota, o boçal assumiria o comando do outro lado do ponto para nivelar a conversa. Se travasse discussão com uma intelectual pedante, teria o suporte do filósofo para explicar que a vida não é somente aquilo; do historiador, para provar que os antepassados dela também erravam; e do canalha, pra fingir que estou muito interessado no papo dela. E assim por diante.

A filosofia do “Fale a coisa certa” assombra os meus pensamentos há algum tempo. Mas foi na semana retrasada, ao assistir pela primeira vez o clássico Muito além do jardim (1979), com Peter Sellers, que a ficha finalmente caiu de vez. O filme conta a história de um jardineiro chamado Chance (Sellers) que, após a morte de seu patrão, é obrigado a deixar a casa onde trabalhou a vida inteira. O sujeito, um semi-retardado que nunca havia colocado os pés fora de casa e só conhecia a vida através da televisão, dá de cara com um mundo desconhecido e hostil: as ruas de Washington DC.

Logo na primeira noite, Chance é atropelado por uma madame (Shirley MacLaine) que, por medo de ser processada, decide levar o infeliz para sua mansão a fim de cuidar do ferimento causado no acidente. A simplicidade do protagonista – que acaba sempre falando a coisa certa, mesmo que por acaso – começa a abrir portas. Tudo o que ele fala é relacionado à jardinagem, mas as pessoas em sua órbita atribuem suas supostas metáforas a uma sabedoria profunda. Em pouco tempo, a madame está apaixonada por ele e seu marido, o milionário dono da mansão, o adota como confidente.

Num determinado momento do filme, o presidente dos EUA faz uma visita ao milionário, que era uma espécie de consultor seu. Na ocasião, Chance é apresentado ao presidente, que lhe pergunta algo como: “O que você faria para resolver o problema da nossa economia?”. Atrapalhado, o jardineiro responde o seguinte: “Enquanto as raízes estiverem sólidas, tudo estará bem no jardim”. O presidente, que nem era o Bush, fica impressionado com aquela “sacação” e divulga o “conselho” de Chance para toda a imprensa. No final, chegam mesmo a cogitar a candidatura do jardineiro à presidência dos Estados Unidos! Só porque ele falou as coisas certas nas horas certas.

Falar a coisa certa é, no entanto, relativo. Relativo porque o impacto causado pela fala depende do estado de espírito, do grau de instrução e das necessidades a serem preenchidas no âmago do interlocutor. Mas tenha certeza: sempre existirá a coisa certa a ser dita. Sempre. Mesmo que a coisa certa seja uma mentira ou uma contradição às suas ideias. E mesmo que você não queira dizer a coisa certa.

Aliás, se eu soubesse escrever a coisa certa o tempo todo, a Revista Foda-se causaria um frenesi universal, uma pandemia literária descontrolada. Mas como não tenho essa competência e nem um ponto de escuta no ouvido, me contento em escrever e falar a coisa relativamente certa de vez em quando. E viva o Brasil...

Zé McGill

ps - O texto acima é baseado na música Fale a coisa certa, de Zé McGill. Clique aqui para escutar a música no MySpace. A gravação é no esquema caseiro total, voz e violão, mas dá pra ter uma noção...


* Sly & The Family Stone tocando a coisa certa...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

SERGIPANO - CAPÍTULO 2


SERGIPANO – CAPÍTULO II
(Domingo, 19 de abril de 2026)

O time do Flamengo, que jogava no clássico esquema 4-4-2, pisou no gramado do Maracanã com: Murillo; Ambrósio, Jorjão, Joaquim e Tuca; Pardal, Tomás, Paulinho Lambreta e Almeida; Tião e Zé Pedro. Sergipano, mesmo desfigurado, ficou no banco de reservas. Sobre o supercílio direito e a canela esquerda, pedaços generosos de esparadrapo branco. Heleno Vianna, o treinador, não sabia se poderia de fato contar com o atacante, mas preferiu tê-lo à disposição, apesar de deixar claro seu repúdio ao comportamento irascível do jogador. As câmeras de TV focalizavam Sergipano a cada dez minutos: expressão séria, os olhos verdes fixados na bola, que vadiava pelo campo. Registraram o momento em que ele socou o teto do banco de reservas, logo aos sete minutos de jogo, quando o centroavante do Botafogo, Pereira, abriu o placar numa jogada de bola parada.

Sentado ali, no banco de reservas, Sergipano sentia uma dor aguda na canela ferida e sofria desde a véspera com uma enxaqueca grave, causada pela segunda pancada, aquela que o norueguês lhe aplicara na nuca. Na metade do primeiro tempo, fechou os olhos com força, numa reação às dores, e aspirou o ar pelo nariz. Começava a chover no Maracanã e o cheiro de grama misturado ao cheiro de água da chuva provocou no Sergipano uma sensação que unia prazer e ansiedade. No minuto seguinte, levantou-se do banco. Passou o resto do primeiro tempo de pé ao lado de Reginaldo, o lateral reserva, e amigo predileto do Sergipano entre os jogadores do elenco rubro-negro; era um mulato franzino e extrovertido formado nas categorias de base do clube, assim como a grande maioria da equipe. Entre os jogadores, Reginaldo era carinhosamente chamado de “Pereba”.

Quando o juiz decretou o final do primeiro tempo, o placar ainda apontava 1 x 0 para o Botafogo. Sergipano caminhou até a escada do vestiário e começou a descer os degraus com certa dificuldade. Pereba ofereceu a mão ao amigo, que recusou ajuda. A torcida rubro-negra, que andava silenciosa naquela tarde de domingo, percebeu o sacrifício que fazia o seu camisa 11 e, num crescendo de arrepiar, começou a entoar o tradicional coro em reverência ao ídolo: “Vaaamos, Sergipaaano / Nós gostaaamos de você / Cooome mocotóóó / E bota pra foder!!!”. Aquilo mexeu com o brio do lagartense endiabrado. De repente, as dores sumiram e o abatimento deu lugar à fome de bola. Antes de descer a escada, olhou para arquibancada e fez um sinal para os torcedores, como se dissesse com a mão direita: “Me aguardem.”

Dentro do vestiário, Heleno Vianna estava inconformado:
“Se for pra continuar jogando desse jeito é melhor nem voltarmos pro segundo tempo. Vamos ficar por aqui mesmo. O vestiário tá bonito, foi reformado...”
Almeida, o capitão do time, pediu a palavra: “Professor, não tá dando pra jogar pelo meio. Precisa abrir o jogo pelas pontas: o lateral deles é fraco.”
Sergipano, que era desafeto declarado de Almeida, notou o olhar que este lhe direcionou enquanto falava com o treinador. Sergipano era ponta-esquerda e sabia que o recado era para ele. Mas Vianna rebateu com ironia:
“Pois é, meu filho. Eu sei disso. Todo mundo sabe disso. Mas olha aí o estado do nosso ponta valentão...”, mostrando o ferimento na perna do Sergipano.
Na mesma hora, o camisa 11 arrancou o esparadrapo da canela e deu uns tapas sobre o machucado: “Tô bom, já. Olha aí, não estou sentindo mais nada. Heleno, eu sei que fiz merda, mas deixa eu entrar nessa porra que eu vou pra cima deles!”
“Você não consegue nem andar direito, seu aloprado...”, respondeu Vianna, desanimado.
O médico do Flamengo, Dr. Célio Ribeiro, tratou de interromper: “Se entrar, eu não me responsabilizo! Esse cara não devia nem estar no banco”, disse, irritado.

O técnico rubro-negro era vaidoso, mas não orgulhoso. Aos 58 anos de idade e com larga experiência acumulada em quase duas décadas de carreira, sabia que precisava do Sergipano para virar aquele jogo. Por isso, decidiu acabar com o castigo e, assim que o doutor saiu de perto, mandou chamar o jogador para uma conversa particular num canto do vestiário: “Meu filho, cá entre nós, eu estou cagando para o que o doutor diz. Se deixar, ele veta até jogador com dor de corno. O que eu quero saber de você é o seguinte: tu se garante?”, perguntou Vianna, testando a determinação do seu ponta.
“Eu me garanto! O machucado tá feio, mas não quebrei nada. É decisão, Heleno. Depois desse jogo eu fico no sofá o tempo que o senhor quiser. Mas hoje, me deixa ir pro jogo que a torcida já tá gritando o meu nome lá fora. Além do mais, o Maguila guardou a minha marmita de sopa de mocotó. Vou dar umas colheradas e entrar no maior gás!”, afirmou, elétrico.
“Tudo bem. Mas vê lá, hein, rapaz. Você não é o marinheiro Popeye. Vai pra cima, mas vai com calma. E se sentir dor, me avisa logo. Vai pro jogo!”. E assim o treinador avisou ao time que Sergipano estava entrando para o segundo tempo no lugar de Zé Pedro. Todos, exceto Almeida, fizeram questão de demonstrar satisfação com sorrisos e gritos de incentivo.

Antes de subir para o campo, Sergipano pediu a Maguila, o roupeiro, que esquentasse a sopa no forninho de microondas. Enquanto esperava, abriu sua mochila e sacou um embrulho de plástico que continha pequenos pedaços de pimenta malagueta verde, o tempero que usava na sopa de mocotó. Retirou um pedaço do embrulho e guardou a pimenta dentro do punho cerrado. Cinco colheradas da sopa foram suficientes para que ele enchesse o peito de confiança. Em seguida, subiu a escada do vestiário e se posicionou no gramado sem retribuir o calor da torcida, que estava eufórica com a entrada do ídolo e agora confiava na virada. A chuva apertou.

No momento em que a bola rolou, Sergipano logo descobriu que o ferimento na canela incomodaria. Mas recebeu o primeiro passe de Almeida e devolveu rapidamente, criando a tabelinha. Almeida, o camisa 10 que gastava habilidade, chutou rente ao travessão. E os gritos das arquibancadas já ameaçavam estourar os tímpanos alheios.

Enquanto o jogo seguia, Sergipano espremia entre os dedos o pedaço de pimenta que trouxera do vestiário. No primeiro escanteio a favor do Flamengo, ele se fingiu de morto e estacionou ao lado da trave direita do goleiro do Botafogo, Henriques. Sabia que Almeida cobrava os escanteios mirando a marca de pênalti, para facilitar a cabeçada dos zagueiros rubro-negros, que eram bons nas jogadas aéreas. Sabia também que Henriques teria que sair do gol para tentar a defesa. Quando a bola saiu dos pés de Almeida e a movimentação começou dentro da área, o Sergipano, da maneira mais rápida e discreta que pôde, esfregou os dedos apimentados nos olhos do goleiro, no exato momento em que este subia para tentar a defesa. Logo em seguida, o camisa 11 lambeu os próprios dedos, na intenção de destruir a prova do crime. Ninguém dentro do estádio viu a traquinagem. Nem o juiz, nem os bandeirinhas, nem os outros jogadores. O próprio Henriques, só percebeu a ardência nos olhos durante o salto, quando a bola já estava praticamente na cabeça do zagueiro Jorjão. Gol do Flamengo. Jogo empatado.

A televisão mostrou seguidamente o replay do momento exato em que Sergipano levava os dedos aos olhos do goleiro no meio da confusão da pequena área. Mas no campo, o único a descobrir a traquinagem foi mesmo Henriques, que agonizava, jogado na grama. Indignado, o goleiro gritava: “Paraíba filho da puta! Tô cego, tô cego!”. Não demorou para que os jogadores do Botafogo tomassem conhecimento do ocorrido pela boca indignada do goleiro. Logo estava armado o tumulto. O capitão botafoguense, Mario Jorge, apontava para Sergipano e para Henriques, na tentativa de indicar ao árbitro o que havia acontecido. Sergipano foi obrigado a mostrar as mãos, que estavam limpas. Não havia prova de irregularidade. Nem mesmo os replays da TV conseguiram incriminar o atacante rubro-negro, conforme o veredicto que o inocentou no polêmico julgamento que se sucedeu à partida.

O jogo recomeçou após alguns minutos de paralisação. Aos 29, o lateral-esquerdo Tuca roubou a bola do atacante adversário e partiu em velocidade num contra-ataque em que havia dois defensores do Botafogo contra três atacantes flamenguistas. Tuca cortou para a direita e tirou um zagueiro da jogada. Sergipano, livre de marcação, levantou o braço pedindo o passe e recebeu a bola quase na meia-lua. Teve tempo de dominar e partir para dentro da área, mas foi impedido de chutar pelo carrinho certeiro de Henriques, que deslizou pelo gramado molhado e atingiu em cheio a canela contundida do atacante. Pênalti para o Flamengo.

Henriques foi expulso e Sergipano retirado de maca. O esparadrapo foi mais uma vez arrancado da canela do atacante e o sangue voltava a escorrer por ali. Do lado de fora do gramado, urrando de dor, ele assistiu à cobrança precisa da penalidade. Bola de um lado, goleiro reserva do outro. Sergipano estava fora de combate, mas o placar estava virado. Almeida não perdia pênaltis.

Revoltado, Henriques foi tirar satisfação com o Sergipano já fora do gramado. Maguila, o roupeiro, chupava uma laranja ao lado da maca em que o atacante estava estirado e foi logo se metendo entre os dois. O goleiro já chegava com o dedão da luva apontado para a cara de Sergipano, que o olhava com traços de deboche.
“Tu se acha malandro, né? Tu é safado!”, xingou o goleiro. “Tu é safado!”.
“Playboy frangueiro”, repetia o Sergipano.
Os dois já estavam cercados por repórteres e curiosos, mas continuaram a troca de ofensas sob a chuva de microfones. Um repórter de TV entrevistou Henriques, assim que conseguiram separá-los.
“Henriques, o que foi que aconteceu no lance do primeiro gol?”, perguntou.
“Esse safado... Não vale nada. Todo mundo sabe que ele joga sujo”.
“Mas o que foi que ele fez, Henriques?”, insistiu o jornalista.
“Na hora em que eu subi pra fazer a defesa, ele passou um sabão ou sei lá o quê nos meus olhos. Daí eu não consegui enxergar mais nada...” e saiu de cena resmungando.
O mesmo repórter procurou saber a versão do Sergipano.
“Sergipano, o Henriques disse que você esfregou alguma coisa nos olhos dele no lance do primeiro gol, é verdade?”
“Que nada. Todo mundo sabe que o Henriques é um chorão. O Botafogo já teve goleiros mais competentes, o Gonzaga, por exemplo”, retrucou, venenoso.

O Flamengo ainda marcou mais um gol, aos 43, em outro contra-ataque, desta vez puxado por Pereba, que entrara no lugar de Sergipano para segurar o jogo. O camisa 9, Tião, artilheiro do campeonato, completou de primeira o cruzamento rasteiro de Paulinho Lambreta. Flamengo 3 x 1 Botafogo, placar final. E a torcida flamenguista não se cansava de cantar o famoso coro em homenagem ao Sergipano, eleito herói do título: “Vaaamos, Sergipaaano / Nós gostaaamos de você / Cooome mocotóóó / E bota pra foder!!!”.

Zé McGill

* O vídeo dessa música estava no Youtube mas parece que mandaram tirar do ar... Só de pirraça, com vocês: Stretch - Why did you do it?