quarta-feira, 10 de junho de 2009

AFROBEAT NO GO DIE!


Na última sexta-feira (dia 05 de junho), saiu no Rio Fanzine (Rio Show - O Globo) um texto meu sobre o afrobeat. Muito legal! Mas cortaram um bocado do texto, já que a prioridade era da lenda jamaicana Skatalites, com toda razão. Afinal, quem é Zé McGill comparado aos reis do ska?!

Enfim... segue abaixo o meu texto na íntegra, pra quem quiser dar um confere. Para ler a versão publicada n' O Globo, basta clicar na imagem acima.
E a festa MAKULA do dia 06 foi histórica! Confira algumas das fotos do bailão africano no www.myspace.com/festamakula

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Escutei Fela Kuti pela primeira vez em 1997, eu acho. Lembro que era final de tarde de verão, em Los Angeles, e um amigo brasileiro que morava comigo me apresentou aquele CD cuja capa trazia estampada a figura de um babuíno meio sinistro. Era o disco Gentleman (1973) e a primeira música que rolou tinha o mesmo nome. Naquela época, eu escutava muito Pixies e Jane’s Addiction e não tinha muita paciência com o que não fosse rock. Quando meu amigo disse que o tal Fela Kuti era da Nigéria, quase pedi a ele que deixasse pra botar o disco numa outra hora. Mas aí a música começou. E entrou uma batida de percussão que lembrava samba, umas notas graves no teclado e um saxofone demente. Legal, mas nada que não me fizesse querer colocar de volta o disco dos Pixies. Só que, lá pelo segundo minuto da música, quando entraram juntos o baixo e a bateria, ingressei numa espécie de transe. Senti a parede do apartamento tremer e o cheeseburger que eu havia almoçado revirar dentro do meu estômago. Saca aquelas músicas que te ganham logo na primeira audição? Pois é...

Alguns anos mais tarde, já no Brasil, comecei a pesquisar sobre o afrobeat, gênero criado pelo Fela, que une o groove do soulfunky do James Brown à liberdade criativa do jazz, assim como a elementos propriamente africanos e também ao vigor do rock, ele mesmo. Fui caçar aquele som que eu havia escutado em “Gentleman”. Descobri outros nigerianos como Orlando Julius, Tony Allen, Joni Haastrup e The Funkees. Todos contemporâneos da melhor fase do Fela, nos anos 70. E me dei conta de que havia esbarrado com o afrobeat justamente no ano da morte de seu criador. Fela Kuti morreu naquele ano de 1997, quando eu só escutava rock e comia cheeseburger em Los Angeles. Por algum tempo, lamentei ter chegado tarde demais à África.

Acontece que o tempo passou e surgiu na internet o MySpace. Ali, tomei conhecimento da sobrevivência do afrobeat pelo mundo. Ouvi o som de big bands surgidas já no novo século como Nomo (de Michigan), Afrodizz (Montreal), Fanga (Montpellier) e JariBu (Tóquio!). E fiquei sabendo que existem duas cenas em ebulição no orbe terrestre: Nova Iorque, com bandas como Antibalas, Akoya e Kokolo, e Londres, com Dele Sosimi e Inemo, entre outras. Algumas paqueram o jazz, outras flertam até com o hip hop e muitas são compostas por integrantes não-negros. Mas aquilo que o mestre Fela ensinou, inclusive o discurso politizado, está quase sempre ali, na base de tudo. Ou seja, o afrobeat não apenas sobrevive, mas está se espalhando pelo mundo com grau de alcance parecido com o de uma pandemia incontrolável.

Isso sem falar em Lagos, capital da Nigéria, onde os rebentos do Fela – Femi e Seun Kuti – mantém aceso o fogo do afrobeat em sua terra natal. No Brasil, já tivemos grupos como Afrika Gumbe e Obina Shok, cheios de elementos afro no som. E estão pipocando novas bandas nacionais (vide o MySpace) que colocam o afrobeat entre suas principais influências. Portanto, não se espante caso uma tsunami de afrobeat invada o Rio de Janeiro em breve. E não precisa esquecer o samba, a caipirinha, o rock e nem o cheeseburger. Mas chute a preguiça e o preconceito pra escanteio: ouça o som e tente não dançar. Afinal, carregamos no nosso background cultural mil e uma referências africanas. Ou não?

Zé McGill

* Pra não perder o hábito, segue videozinho cascudo da música "Yegelle Tezeta", de Mulatu Astatke (Etiópia), sobre animação da Disney...




sábado, 30 de maio de 2009

REVISTA FODA-SE ENTREVISTA MAUVAL













A próxima edição da festa MAKULA (dia 06 de junho, sábado, no Cine Glória) terá participação histórica de Mauricio Valladares, a lenda! Para saber mais sobre a festa, clique nos flyers acima. Para entrar na lista amiga (R$10,00), mande e-mail com nomes completos para festamakula@gmail.com

Pra quem não sabe, Mauval, além de DJ e fotógrafo, é apresentador do roNca roNca (Oi FM - 102.9, toda terça-feira, às 22h), o programa de rádio mais legal do Brasil, uma verdadeira aula semanal de música, informação e bom humor. A Revista Foda-se trocou uma ideia com o mestre. Lá vai:


RF: A música africana tem expoentes diversos como a guitarrada do Franco, o groove do afrobeat do Fela Kuti, o jazz da Etiópia, o Kuduro de Angola e os temperos caribenhos da Orchestra Baobab, entre muitos outros. Você tem favoritos entre eles?

MV: A preferência aparece no momento... pela diversidade de estilos, cada um tem sua hora própria.

RF: Dá pra dizer que você e o Júlio Barroso (da Gang 90) foram os pioneiros do som afro na noite do Rio, certo? E já que toquei no assunto, qual é a dimensão da contribuição do Júlio, também como pesquisador musical, para a difusão desse tipo de som na cidade?

MV: Muita gente sempre ajudou para a circulação da informação africana. Acho que não podemos separar um estilo do outro... quando a música africana circular, os sons escandinavos e da Ilha de Marajó também chegarão aos ouvidos curiosos. Tudo está interligado!

RF: O Rio de Janeiro ainda pode ser considerada a capital cultural do Brasil? O que há de errado com o público carioca, que só sai de casa pra conferir o que é hype, os eventos da moda, e parece ter preguiça e falta de interesse em conhecer o que é de fato novo ou diferente na cultura em geral?

MV: De errado atualmente? Ha ha ha... quase tudo! Vamos pegar a tal da "cidade da música" de exemplo... Mas o principal nesse assunto de afastamento do público é a falta de informação. Não temos mais nenhum veículo de comunicação nos dizendo a diferença da melancia para a mulher melancia, manja?

RF: Como era a festa Funk n’ Reggae que você fazia no Rio na década de 80? Rolava muito som africano? O público respondia no pé?

MV: Ha ha ha... sim, as pessoas iam pra festa dispostas a se divertir com músicas fora do padrão.

RF: O que é um bom programa de rádio, na sua opinião?

MV: Um programa que informe e surpreenda!

RF: Porque é que o roNca roNca está no ar há tanto tempo, com um público tão fiel, e continua sempre atraindo novos ouvintes?

MV: Acho que por alimentar um público resistente.

RF: Existe algo ou alguém que você gostaria de ter fotografado mas ainda não fotografou?

MV: Os dejótas da Makula!!!

RF: Quem é que merece um foda-se bem bonito?

MV: Os responsáveis pelo emburrecimento dos brasileiros!


* Sente a pressão deste vídeo da Kokolo Afrobeat Orchestra, de Nova Iorque, num show na Inglaterra. Se liga na desorientação do público... com a presença do MV, a pista da MAKULA corre o risco de ficar parecida no sábado...


sábado, 16 de maio de 2009

MICK JAGGER DA BAHIA


Domingo, dia da mães, e a senhora minha mãe diz que queria ir ao show do Caetano Veloso. Eu acordei de ressaca, todo errado, não conhecia o disco novo e não me animei muito. Mas, como era dia das mães, topei na hora. Lembrei também que nunca havia assistido a um show do CV e que acho fodaços os discos do início da carreira dele. Cheguei sonolento ao Canecão.

E demorei a reconhecer a música de abertura: “A voz do morto”, registrada no disco de raridades Cinema Olympia, onde ela aparece tocada pelos Mutantes. Eu estava largado na cadeira e fui logo me ajeitando. Em seguida veio “Sem cais”, que também é a segunda faixa de Zii & Zie, o novo álbum. A linha de baixo, numa onda quase dub, me deixou chapado, ao mesmo tempo que me despertou. Guitarrinha criando clima cool, bateria cheia de classe, e a banda Cê, que acompanha Caetano desde o disco anterior, garantia a felicidade da mamãe. Eu já estava bem acordado.

Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria), além de figurarem entre os músicos mais talentosos e criativos do Brasil do novo século, também são fãs dos discos do início da carreira do Caetano. E só isso já sugeria que o repertório traria surpresas agradáveis. Mas eu não esperava “Maria Bethânia” (do primeiro disco dos anos de exílio, Caetano Veloso, de 1970), “Irene” e “Não identificado” (do incrível disco de capa branca, Caetano Veloso, de 1969). Esta última, com bateria demolidora de Callado. Aí, mamãe já merecia um beijo.

Caetano pode ser chato, você pode até implicar com ele. Mas é gênio. E talvez seja hoje o melhor cantor brasileiro em atividade. E bota atividade nisso. Além de virar os olhinhos para declarar sorrindo que “Eu sou neguinha”, o cara corre pelo palco feito um Mick Jagger da Bahia (em doses menores de energia), e cativa feito um David Bowie do Pelourinho. Ademais, conserva o (bom) hábito de saber surpreender musicalmente. Se bem que, ao final de “Não identificado”, uma madame da mesa ao lado, certamente surpreendida pela ausência dos maiores sucessos do baiano no roteiro do show, se empolgou e pediu “Leãozinho”. Perdidinha, coitada.

“Base de Guantánamo”, também do disco novo, é prova de que a torneira criativa musical de Caê não fechou. É quase um mantra, quase The Police, quase Cuba. Os backing vocals da banda são coisa fina e a letra fala mal dos norte-americanos. Eu sou norte-americano (nasci lá nos EUA), minha mãe também, e os dois gostamos da música. Tem gente que reclama que Caê faz questão de emitir opinião de forma explícita o tempo todo, até nas letras. Por mim, deixa ele falar e cantar o que quiser... Ele acerta muito mais do que erra.

Acertou na escolha de “Incompatibilidade de gênios”, de João Bosco, mais uma de Zii & Zie, que provocou corinho da plateia durante o bis. Acertou no cenário (de Hélio Eichbauer), em que uma asa-delta colocada praticamente sobre a cabeça do baterista parece que vai levantar vôo. E acertou em cheio no recrutamento da banda Cê.

Tudo bem, a letra de “Lapa” é meio esquisita. Precisava mesmo comparar o bairro carioca a um “rapaz gostoso”? Mas valeu muito ter ido. Mamãe ficou feliz. Eu também fiquei. E a ressaca sumiu. Às vezes, os melhores shows, os melhores filmes, os melhores encontros são aqueles em torno dos quais não se cria expectativa em excesso.

Ok, Mick Jagger da Bahia foi forçação, eu sei.

Zé McGill

* Só faltou no novo show de CV alguma música do disco Transa (1972). Se liga nesse vídeo da música "Nine out of ten" (do Transa), com a Banda Cê, no Tim Festival de 2006:

quinta-feira, 30 de abril de 2009

FALE A COISA CERTA


Se eu tivesse um ponto de escuta instalado no ouvido vinte e quatro horas por dia, o mundo seria meu. Com ajuda do ponto, eu falaria a coisa certa, sempre. E, falando sempre a coisa certa, o sujeito consegue o que quiser na vida. Conquista a mulher que desejar, consegue o emprego que almejar e, se quiser, vira até presidente da República. Basta dizer a coisa certa. Isto é: dizer o que os outros querem escutar.

Do outro lado do meu ponto de escuta, num quartinho enfumaçado e mal iluminado, uma equipe de apoio estaria sempre a postos: psicólogo, psiquiatra, historiador, filósofo, tradutor de vários idiomas, piadista, canalha, boçal... A fauna toda. Cada um seria acionado para soprar o discurso certo na minha orelha no momento adequado. Se eu me sentasse à mesa de um bar com um idiota, o boçal assumiria o comando do outro lado do ponto para nivelar a conversa. Se travasse discussão com uma intelectual pedante, teria o suporte do filósofo para explicar que a vida não é somente aquilo; do historiador, para provar que os antepassados dela também erravam; e do canalha, pra fingir que estou muito interessado no papo dela. E assim por diante.

A filosofia do “Fale a coisa certa” assombra os meus pensamentos há algum tempo. Mas foi na semana retrasada, ao assistir pela primeira vez o clássico Muito além do jardim (1979), com Peter Sellers, que a ficha finalmente caiu de vez. O filme conta a história de um jardineiro chamado Chance (Sellers) que, após a morte de seu patrão, é obrigado a deixar a casa onde trabalhou a vida inteira. O sujeito, um semi-retardado que nunca havia colocado os pés fora de casa e só conhecia a vida através da televisão, dá de cara com um mundo desconhecido e hostil: as ruas de Washington DC.

Logo na primeira noite, Chance é atropelado por uma madame (Shirley MacLaine) que, por medo de ser processada, decide levar o infeliz para sua mansão a fim de cuidar do ferimento causado no acidente. A simplicidade do protagonista – que acaba sempre falando a coisa certa, mesmo que por acaso – começa a abrir portas. Tudo o que ele fala é relacionado à jardinagem, mas as pessoas em sua órbita atribuem suas supostas metáforas a uma sabedoria profunda. Em pouco tempo, a madame está apaixonada por ele e seu marido, o milionário dono da mansão, o adota como confidente.

Num determinado momento do filme, o presidente dos EUA faz uma visita ao milionário, que era uma espécie de consultor seu. Na ocasião, Chance é apresentado ao presidente, que lhe pergunta algo como: “O que você faria para resolver o problema da nossa economia?”. Atrapalhado, o jardineiro responde o seguinte: “Enquanto as raízes estiverem sólidas, tudo estará bem no jardim”. O presidente, que nem era o Bush, fica impressionado com aquela “sacação” e divulga o “conselho” de Chance para toda a imprensa. No final, chegam mesmo a cogitar a candidatura do jardineiro à presidência dos Estados Unidos! Só porque ele falou as coisas certas nas horas certas.

Falar a coisa certa é, no entanto, relativo. Relativo porque o impacto causado pela fala depende do estado de espírito, do grau de instrução e das necessidades a serem preenchidas no âmago do interlocutor. Mas tenha certeza: sempre existirá a coisa certa a ser dita. Sempre. Mesmo que a coisa certa seja uma mentira ou uma contradição às suas ideias. E mesmo que você não queira dizer a coisa certa.

Aliás, se eu soubesse escrever a coisa certa o tempo todo, a Revista Foda-se causaria um frenesi universal, uma pandemia literária descontrolada. Mas como não tenho essa competência e nem um ponto de escuta no ouvido, me contento em escrever e falar a coisa relativamente certa de vez em quando. E viva o Brasil...

Zé McGill

ps - O texto acima é baseado na música Fale a coisa certa, de Zé McGill. Clique aqui para escutar a música no MySpace. A gravação é no esquema caseiro total, voz e violão, mas dá pra ter uma noção...


* Sly & The Family Stone tocando a coisa certa...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

SERGIPANO - CAPÍTULO 2


SERGIPANO – CAPÍTULO II
(Domingo, 19 de abril de 2026)

O time do Flamengo, que jogava no clássico esquema 4-4-2, pisou no gramado do Maracanã com: Murillo; Ambrósio, Jorjão, Joaquim e Tuca; Pardal, Tomás, Paulinho Lambreta e Almeida; Tião e Zé Pedro. Sergipano, mesmo desfigurado, ficou no banco de reservas. Sobre o supercílio direito e a canela esquerda, pedaços generosos de esparadrapo branco. Heleno Vianna, o treinador, não sabia se poderia de fato contar com o atacante, mas preferiu tê-lo à disposição, apesar de deixar claro seu repúdio ao comportamento irascível do jogador. As câmeras de TV focalizavam Sergipano a cada dez minutos: expressão séria, os olhos verdes fixados na bola, que vadiava pelo campo. Registraram o momento em que ele socou o teto do banco de reservas, logo aos sete minutos de jogo, quando o centroavante do Botafogo, Pereira, abriu o placar numa jogada de bola parada.

Sentado ali, no banco de reservas, Sergipano sentia uma dor aguda na canela ferida e sofria desde a véspera com uma enxaqueca grave, causada pela segunda pancada, aquela que o norueguês lhe aplicara na nuca. Na metade do primeiro tempo, fechou os olhos com força, numa reação às dores, e aspirou o ar pelo nariz. Começava a chover no Maracanã e o cheiro de grama misturado ao cheiro de água da chuva provocou no Sergipano uma sensação que unia prazer e ansiedade. No minuto seguinte, levantou-se do banco. Passou o resto do primeiro tempo de pé ao lado de Reginaldo, o lateral reserva, e amigo predileto do Sergipano entre os jogadores do elenco rubro-negro; era um mulato franzino e extrovertido formado nas categorias de base do clube, assim como a grande maioria da equipe. Entre os jogadores, Reginaldo era carinhosamente chamado de “Pereba”.

Quando o juiz decretou o final do primeiro tempo, o placar ainda apontava 1 x 0 para o Botafogo. Sergipano caminhou até a escada do vestiário e começou a descer os degraus com certa dificuldade. Pereba ofereceu a mão ao amigo, que recusou ajuda. A torcida rubro-negra, que andava silenciosa naquela tarde de domingo, percebeu o sacrifício que fazia o seu camisa 11 e, num crescendo de arrepiar, começou a entoar o tradicional coro em reverência ao ídolo: “Vaaamos, Sergipaaano / Nós gostaaamos de você / Cooome mocotóóó / E bota pra foder!!!”. Aquilo mexeu com o brio do lagartense endiabrado. De repente, as dores sumiram e o abatimento deu lugar à fome de bola. Antes de descer a escada, olhou para arquibancada e fez um sinal para os torcedores, como se dissesse com a mão direita: “Me aguardem.”

Dentro do vestiário, Heleno Vianna estava inconformado:
“Se for pra continuar jogando desse jeito é melhor nem voltarmos pro segundo tempo. Vamos ficar por aqui mesmo. O vestiário tá bonito, foi reformado...”
Almeida, o capitão do time, pediu a palavra: “Professor, não tá dando pra jogar pelo meio. Precisa abrir o jogo pelas pontas: o lateral deles é fraco.”
Sergipano, que era desafeto declarado de Almeida, notou o olhar que este lhe direcionou enquanto falava com o treinador. Sergipano era ponta-esquerda e sabia que o recado era para ele. Mas Vianna rebateu com ironia:
“Pois é, meu filho. Eu sei disso. Todo mundo sabe disso. Mas olha aí o estado do nosso ponta valentão...”, mostrando o ferimento na perna do Sergipano.
Na mesma hora, o camisa 11 arrancou o esparadrapo da canela e deu uns tapas sobre o machucado: “Tô bom, já. Olha aí, não estou sentindo mais nada. Heleno, eu sei que fiz merda, mas deixa eu entrar nessa porra que eu vou pra cima deles!”
“Você não consegue nem andar direito, seu aloprado...”, respondeu Vianna, desanimado.
O médico do Flamengo, Dr. Célio Ribeiro, tratou de interromper: “Se entrar, eu não me responsabilizo! Esse cara não devia nem estar no banco”, disse, irritado.

O técnico rubro-negro era vaidoso, mas não orgulhoso. Aos 58 anos de idade e com larga experiência acumulada em quase duas décadas de carreira, sabia que precisava do Sergipano para virar aquele jogo. Por isso, decidiu acabar com o castigo e, assim que o doutor saiu de perto, mandou chamar o jogador para uma conversa particular num canto do vestiário: “Meu filho, cá entre nós, eu estou cagando para o que o doutor diz. Se deixar, ele veta até jogador com dor de corno. O que eu quero saber de você é o seguinte: tu se garante?”, perguntou Vianna, testando a determinação do seu ponta.
“Eu me garanto! O machucado tá feio, mas não quebrei nada. É decisão, Heleno. Depois desse jogo eu fico no sofá o tempo que o senhor quiser. Mas hoje, me deixa ir pro jogo que a torcida já tá gritando o meu nome lá fora. Além do mais, o Maguila guardou a minha marmita de sopa de mocotó. Vou dar umas colheradas e entrar no maior gás!”, afirmou, elétrico.
“Tudo bem. Mas vê lá, hein, rapaz. Você não é o marinheiro Popeye. Vai pra cima, mas vai com calma. E se sentir dor, me avisa logo. Vai pro jogo!”. E assim o treinador avisou ao time que Sergipano estava entrando para o segundo tempo no lugar de Zé Pedro. Todos, exceto Almeida, fizeram questão de demonstrar satisfação com sorrisos e gritos de incentivo.

Antes de subir para o campo, Sergipano pediu a Maguila, o roupeiro, que esquentasse a sopa no forninho de microondas. Enquanto esperava, abriu sua mochila e sacou um embrulho de plástico que continha pequenos pedaços de pimenta malagueta verde, o tempero que usava na sopa de mocotó. Retirou um pedaço do embrulho e guardou a pimenta dentro do punho cerrado. Cinco colheradas da sopa foram suficientes para que ele enchesse o peito de confiança. Em seguida, subiu a escada do vestiário e se posicionou no gramado sem retribuir o calor da torcida, que estava eufórica com a entrada do ídolo e agora confiava na virada. A chuva apertou.

No momento em que a bola rolou, Sergipano logo descobriu que o ferimento na canela incomodaria. Mas recebeu o primeiro passe de Almeida e devolveu rapidamente, criando a tabelinha. Almeida, o camisa 10 que gastava habilidade, chutou rente ao travessão. E os gritos das arquibancadas já ameaçavam estourar os tímpanos alheios.

Enquanto o jogo seguia, Sergipano espremia entre os dedos o pedaço de pimenta que trouxera do vestiário. No primeiro escanteio a favor do Flamengo, ele se fingiu de morto e estacionou ao lado da trave direita do goleiro do Botafogo, Henriques. Sabia que Almeida cobrava os escanteios mirando a marca de pênalti, para facilitar a cabeçada dos zagueiros rubro-negros, que eram bons nas jogadas aéreas. Sabia também que Henriques teria que sair do gol para tentar a defesa. Quando a bola saiu dos pés de Almeida e a movimentação começou dentro da área, o Sergipano, da maneira mais rápida e discreta que pôde, esfregou os dedos apimentados nos olhos do goleiro, no exato momento em que este subia para tentar a defesa. Logo em seguida, o camisa 11 lambeu os próprios dedos, na intenção de destruir a prova do crime. Ninguém dentro do estádio viu a traquinagem. Nem o juiz, nem os bandeirinhas, nem os outros jogadores. O próprio Henriques, só percebeu a ardência nos olhos durante o salto, quando a bola já estava praticamente na cabeça do zagueiro Jorjão. Gol do Flamengo. Jogo empatado.

A televisão mostrou seguidamente o replay do momento exato em que Sergipano levava os dedos aos olhos do goleiro no meio da confusão da pequena área. Mas no campo, o único a descobrir a traquinagem foi mesmo Henriques, que agonizava, jogado na grama. Indignado, o goleiro gritava: “Paraíba filho da puta! Tô cego, tô cego!”. Não demorou para que os jogadores do Botafogo tomassem conhecimento do ocorrido pela boca indignada do goleiro. Logo estava armado o tumulto. O capitão botafoguense, Mario Jorge, apontava para Sergipano e para Henriques, na tentativa de indicar ao árbitro o que havia acontecido. Sergipano foi obrigado a mostrar as mãos, que estavam limpas. Não havia prova de irregularidade. Nem mesmo os replays da TV conseguiram incriminar o atacante rubro-negro, conforme o veredicto que o inocentou no polêmico julgamento que se sucedeu à partida.

O jogo recomeçou após alguns minutos de paralisação. Aos 29, o lateral-esquerdo Tuca roubou a bola do atacante adversário e partiu em velocidade num contra-ataque em que havia dois defensores do Botafogo contra três atacantes flamenguistas. Tuca cortou para a direita e tirou um zagueiro da jogada. Sergipano, livre de marcação, levantou o braço pedindo o passe e recebeu a bola quase na meia-lua. Teve tempo de dominar e partir para dentro da área, mas foi impedido de chutar pelo carrinho certeiro de Henriques, que deslizou pelo gramado molhado e atingiu em cheio a canela contundida do atacante. Pênalti para o Flamengo.

Henriques foi expulso e Sergipano retirado de maca. O esparadrapo foi mais uma vez arrancado da canela do atacante e o sangue voltava a escorrer por ali. Do lado de fora do gramado, urrando de dor, ele assistiu à cobrança precisa da penalidade. Bola de um lado, goleiro reserva do outro. Sergipano estava fora de combate, mas o placar estava virado. Almeida não perdia pênaltis.

Revoltado, Henriques foi tirar satisfação com o Sergipano já fora do gramado. Maguila, o roupeiro, chupava uma laranja ao lado da maca em que o atacante estava estirado e foi logo se metendo entre os dois. O goleiro já chegava com o dedão da luva apontado para a cara de Sergipano, que o olhava com traços de deboche.
“Tu se acha malandro, né? Tu é safado!”, xingou o goleiro. “Tu é safado!”.
“Playboy frangueiro”, repetia o Sergipano.
Os dois já estavam cercados por repórteres e curiosos, mas continuaram a troca de ofensas sob a chuva de microfones. Um repórter de TV entrevistou Henriques, assim que conseguiram separá-los.
“Henriques, o que foi que aconteceu no lance do primeiro gol?”, perguntou.
“Esse safado... Não vale nada. Todo mundo sabe que ele joga sujo”.
“Mas o que foi que ele fez, Henriques?”, insistiu o jornalista.
“Na hora em que eu subi pra fazer a defesa, ele passou um sabão ou sei lá o quê nos meus olhos. Daí eu não consegui enxergar mais nada...” e saiu de cena resmungando.
O mesmo repórter procurou saber a versão do Sergipano.
“Sergipano, o Henriques disse que você esfregou alguma coisa nos olhos dele no lance do primeiro gol, é verdade?”
“Que nada. Todo mundo sabe que o Henriques é um chorão. O Botafogo já teve goleiros mais competentes, o Gonzaga, por exemplo”, retrucou, venenoso.

O Flamengo ainda marcou mais um gol, aos 43, em outro contra-ataque, desta vez puxado por Pereba, que entrara no lugar de Sergipano para segurar o jogo. O camisa 9, Tião, artilheiro do campeonato, completou de primeira o cruzamento rasteiro de Paulinho Lambreta. Flamengo 3 x 1 Botafogo, placar final. E a torcida flamenguista não se cansava de cantar o famoso coro em homenagem ao Sergipano, eleito herói do título: “Vaaamos, Sergipaaano / Nós gostaaamos de você / Cooome mocotóóó / E bota pra foder!!!”.

Zé McGill

* O vídeo dessa música estava no Youtube mas parece que mandaram tirar do ar... Só de pirraça, com vocês: Stretch - Why did you do it?






terça-feira, 31 de março de 2009

S E R G I P A N O


Comecei a escrever algo que pode vir a ser um livro...
Este seria o primeiro capítulo de SERGIPANO, um jogador de futebol arruaceiro e bom de bola, inspirado em Almir, o Pernambuquinho (o aloprado da foto acima). No segundo capítulo, bola rolando e mais confusão, sexo, música... Talvez seja um pouco grande para um blog, mas foda-se... Quem conseguir chegar até o final, sinta-se confortável para sugerir, criticar, sorrir, calar, assobiar, chutar, bocejar...

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SERGIPANO - CAPÍTULO I

Acordou com o rosto colado na calçada de pedras portuguesas. Sua visão se limitava ao que lhe permitia enxergar o olho esquerdo, pois o direito encontrava-se completamente cerrado, inchado pelas pancadas da briga em que se envolvera naquela madrugada. Mas o pior não eram os ferimentos na face. O que preocupava o Sergipano era a mancha de sangue que endurecia o tecido da calça jeans na altura de sua canela esquerda. Domingo tinha jogo. Final de campeonato.

O Sergipano era a grande estrela daquele time do Flamengo no campeonato carioca de 2026. Sua presença na decisão era fundamental para as pretensões da equipe e da torcida, que vivia fase de lua-de-mel com o time após uma década de frustrações. O treinador, Heleno Vianna, conhecendo a fama de arruaceiro do seu camisa 11, fizera recomendações explícitas de discilplina ao final do treino de sexta-feira: “Vai pra casa, toca uma punheta e dorme! Amanhã a gente se vê na concentração”.

Mas a vida noturna do Rio de Janeiro era uma tentação à qual Sergipano sucumbia com a maior impudência. Aos vinte e cinco anos de idade, experimentava a fama com uma sede quase vingativa de quem desperdiçara os anos de adolescência trabalhando no cultivo de tabaco, em Lagarto, sua cidade natal, no agreste sergipano. Sentia-se imbatível. Tinha dinheiro, uma casa de cinco quartos no Recreio dos Bandeirantes e uma caminhonete importada com tração nas quatro rodas.

Naquela noite de sexta-feira, o telefone celular do Sergipano tocou às 22:45hs, justamente no momento em que ele sorvia a última colherada da sopa de mocotó, seu prato predileto, que a cozinheira deixava pronta para os finais de semana antes de ir embora. A bina do aparelho identificava chamada de Gonzaga, ex-goleiro reserva do Botafogo e melhor amigo do Sergipano desde que este chegara ao Rio, havia quatro anos, contratado pelo clube alvinegro.

“Fala Gonzagão!”, saudou Sergipano, de boca cheia.
“Ô, barão, no domingo eu vou lá, hein! Quero ver você acabar com a raça do Henriques, aquele playboy...”, disse Gonzaga. Henriques era o atual goleiro titular do Botafogo. Fora ele quem tomara a vaga de Gonzaga, que estava sem clube havia cinco meses.
“Deixa comigo. Se depender de mim, a carreira do Henriques acaba no domingo”, respondeu Sergipano, cheio de malícia no sotaque nordestino, antes de completar: “Mas diga lá, o que é que tu manda?”
“Então, escuta só: lembra daquela moreninha que a gente conheceu no churrasco do Pereba, a Monica?”
“Aquela bunduda com cara de safada que eu trouxe aqui pra casa depois do churrasco? Lembro bem...”, respondeu Sergipano, largando a colher dentro da cumbuca de sopa.
“Então, encontrei com ela na praia. Me disse que ia passar lá na Baronezza, hoje à noite, com mais duas amigas. Vamos nessa?”
“Porra, Gonzagão, se aqueles putos dos fotógrafos me pegam no flagrante, o Heleno vai me dar o maior esporro, sei não...”.
“Deixa de viadagem, ô, barão! Não vai ter flagrante nenhum. Passo aí e te pego em meia hora, fechado?”, intimou o goleiro.
“Ô diabo... Vamos nessa. Vamos que aquela morena é gostosa e o mocotó já tá no sangue!”, exclamou, desligando o telefone.

Sergipano e Gonzaga chegaram à boate Baronezza já perto da meia-noite. O ambiente era escuro e enfumaçado, mas havia um canto na boate, perto do balcão do bar, que era mais iluminado. Foi para lá que os dois se dirigiram assim que chegaram. Gonzaga vestia uma jaqueta de couro marrom que não deixava espaço para o ar entre os braços musculosos de goleiro e a pele morta do boi. Tinha quase dois metros de altura, cabelos castanho-claros e um nariz muito esquisito, que, de tão curvado, quase tocava a pele entre o próprio e a boca. Sergipano tinha o biotipo típico de muitos nordestinos brasileiros: baixa estatura (um metro e sessenta e cinco centímetros de altura), tronco parrudo e olhar arredio, desconfiado. Trajava calça jeans azul clara e uma camisa social cor de abóbora.

O goleiro foi quem encostou os cotovelos no balcão para pedir a primeira rodada de bebidas: whisky duplo com energético para os dois. A música eletrônica que emanava dos alto-falantes contribuía para criar uma atmosfera luxuriosa, onde garotas de programa e turistas europeus movidos a drogas sintéticas roçavam-se uns nos outros sem que houvesse entre eles nenhuma troca de olhares. Sergipano terminava o segundo drinque quando avistou Monica e as duas amigas do outro lado da boate, cercadas por cinco jovens altos e praticamente albinos. Eram todos louros, com exceção do mais gordinho, de cabelo raspado, que falava e gesticulava sem parar.

“Gonzaga, olha lá a Monica.”, apontou Sergipano, dando uma leve cotovelada na costela do amigo.
“Ih, olha lá... e quem são os galegos?”, indagou Gonzaga, lançando um olhar assassino sobre o grupo de louros.
“Devem ser gringos, vamos dar um confere”.
Sergipano largou o copo vazio sobre o balcão e os dois se aproximaram do grupo. Logo descobriram que realmente eram estrangeiros, os jovens. Eles estavam flertando com o grupo de moças e arriscavam cantadas num português patético: “voucê eh queinte!”, dizia um deles para Monica. A moça correspondia com sorrisos de falsa modéstia e jogava o cabelão liso e negro para o lado, faceira. Sergipano percebeu o clima da conversa e decidiu chegar chutando a porta. Abordou a morena pelas costas, com as mãos nos quadris dela, e falou com a boca quase colada em seu ouvido: “Oi Moniquinha, lembra de mim?”. Gonzaga vinha logo atrás, de olho nas outras duas moças; uma ruiva, de cabelo curto e roupas de plástico modernosas, e outra morena, a mais baixinha das três, que tinha os braços cobertos por tatuagens coloridas e a minissaia mais mini da cidade.

“Sergipano! Claro que lembro de você!”, respondeu Monica, corando na face com o susto, para em seguida explicar aos gringos, em inglês: “Pessoal, este é o Sergipano, do Flamengo! Ele é um jogador de futebol muito famoso por aqui!”. Os gringos, que já haviam ficado pasmos com a intromissão descarada do jogador, não pareceram se animar com a informação. Responderam com um monótono “Oh...”. O mais gordinho ainda emendou: “We don’t like football”. E, mesmo sem saber falar inglês, Sergipano notou a hostilidade no tom de voz dos estrangeiros. “Qual é a desses gringos, Monica? Donti laike futebol? Que porra é essa?”, perguntou Sergipano, com os olhos vermelhos de sangue, encarando o gordinho.

Sabedora do histórico de brigas do jogador, Monica adivinhou a confusão iminente e tratou de mudar de assunto, dando as costas para os gringos e abrindo um sorriso nervoso: “Eles são da Noruega, nem sabem o que é futebol... Mas, então, domingo é dia, hein! Tá preparado?” Sergipano não respondeu, bufou. E não desgrudava os olhos do gordinho escandinavo, que retribuía a animosidade com o olhar. Gonzaga, que observava a tudo calado, interviu: “Vem, Monica, traz as tuas amigas e vamos tomar um drinque ali no bar. Bora, barão”.

Sergipano consentiu e já ia seguindo Gonzaga e as meninas na direção do bar, de mãos dadas com Monica. Mas no meio do caminho, um dos noruegueses – o mais alto e mais bêbado – se colocou no caminho do casal, encarando Monica e fingindo ignorar Sergipano. Com um sorriso sonso espalhado pela cara, ele decretou o início da confusão. Disse algo como: “Hey, baby, onde você vai? Vem com a gente.” E pronto. Sergipano estendeu o braço por entre as pernas do grandalhão e esmagou-lhe o saco com a palma da mão direita. “Ficou maluco, gringo?”, trovejou, mostrando os dentes. Em seguida, um copo de vidro explodiu no supercílio direito do jogador. Era o gordinho, que chegara por trás para acudir o amigo que gemia de dor com a língua de fora e corria sério risco de ficar estéril. O drinque gelado de vodca e suco de laranja que estava no copo de vidro se misturou ao sangue que escorria quente da cara do Sergipano. Este cambaleou por alguns segundos e não pôde testemunhar a voadora que Gonzaga aplicou no peito do gordinho.

A correria e gritaria que deram seguimento à confusão remetiam ao clima de desespero que se instala numa comunidade acometida por uma catástrofe natural. Caos total na pista de dança da Baronezza. Somente quando a pista esvaziou é que foi possível visualizar o massacre: o Sergipano estava montado sobre o peito do gordinho e, babando de ódio, emendava um soco após o outro na cara da vítima, já desacordada. Os cinco seguranças da boate tiveram trabalho para retirar o Sergipano de cima do gordinho. Quando conseguiram, precisaram carregá-lo pelos braços e pernas até a porta da boate. Um dos seguranças ainda levou uma mordida que quase lhe custou um pedaço da orelha.

Lá fora, na porta da boate, Gonzaga recebeu o Sergipano com o casaco de couro rasgado e uma linha fina de sangue escorrendo pelo nariz. Assustada, Monica examinava o olho direito do jogador, que por sorte não perdera a visão após ter um copo de vidro espatifado na cara. Nisso, um dos outros noruegueses surgiu do nada com um pedaço de madeira na mão. Sergipano estava, mais uma vez, de costas quando recebeu o golpe na canela esquerda e outro, logo em seguida, na parte posterior da cabeça. Desta vez, foi ao chão. Apagou por cerca de trinta segundos.

Quando acordou, com o rosto colado na calçada de pedras portuguesas, Sergipano estava rodeado por uma dúzia de fotógrafos. Os flashes disparados pelas câmeras contribuíam para piorar a sensação de tonteira que sofria. Gonzaga, revoltado, gritava: “Cai fora, seu bando de filhos da puta!”. Monica quase sorria, quase fazia pose para as câmeras. Sabia que as fotos estariam nas capas dos jornais do dia seguinte. E não deu outra, a manchete do principal jornal da cidade foi: SERGIPANO ESPANCADO NA VÉSPERA DA DECISÃO!

Zé McGill

Where is my mind?



quarta-feira, 18 de março de 2009

O DIA INTERNACIONAL DO FODA-SE


Fiquei sabendo que o próximo dia 28/03 será celebrado em várias cidades de todo o mundo como o Dia Internacional do Apagão. Parece que a idéia é que as pessoas desliguem as luzes de suas casas durante uma hora em nome da conservação da energia elétrica e preservação da natureza. Toda essa comoção me incentivou a lançar aqui, na Revista Foda-se, o primeiro Dia Internacional do Foda-se..

Isso mesmo, o Dia do Foda-se. E a data está marcada para 23 de março, uma segunda-feira (há dia que mereça mais um belo foda-se do que a segunda-feira?), e você está convidado a participar. A idéia é que todos abram as janelas de casa, do carro ou do trabalho, às 19:00hs (horário de Brasília), e gritem um "foda-se" bem bonito, com ardor. Para quem não puder gritar (os mudos também têm direito ao foda-se), fica liberado o foda-se silencioso, em pensamento. Imagine que coisa maravilhosa será o foda-se ecoando pelos quatro cantos do mundo: do Rio de Janeiro a Galdinópolis, de Barcelona a Lisboa, da Califórnia a Marrakesh, de Dudinka a Vladivostock!

Quem estiver caminhando na rua, melhor ainda: olhe para o céu, erga suas mãos bem alto e grite o seu “foda-se” para o mundo. Foda-se para os problemas da vida. Foda-se a crise econômica mundial. Foda-se Brasília. Foda-se o choque de ordem. Foda-se o Cuca, técnico do Flamengo, que não coloca o Jônatas para jogar. Foda-se aquela(e) ex-namorada(o) que te trocou por outro(a). Foda-se quem não gosta de massagem nos pés. Foda-se quem nunca contou uma mentira. E foda-se a Academia Brasileira de Letras, que não reconhece a beleza e o caráter libertário da expressão “foda-se”.

Há tanta mágica num foda-se! Eu, por exemplo, gosto de um foda-se com ponto de exclamação, mas prefiro os foda-ses com reticências, dormentes, indiferentes. Quando a situação exige agressividade, exclamação nele, muito bem. Mas ainda mais gostoso é proferir o foda-se com desdém, como resposta ao invés de imperativo: quando a professora reclama que você não fez o dever de casa, quando o chefe critica o seu trabalho, quando o William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional...

Tomei o cuidado de pesquisar sobre a história do dia 23 de março no Wikipedia e não há nada que impeça o nosso empreendimento, pelo contrário. Que me perdoem Akira Kurosawa (o cineasta nipônico), Damon Albarn (vocalista do Blur) e Isaac Chansa (futebolista zambiano). Todos eles nasceram na data adotada. Em compensação, foi num dia 23/03 que o parlamento alemão concedeu plenos poderes ao governo de Hitler, Mussolini fundou seu movimento político fascista e JFK ampliou restrições comerciais contra Cuba. O foda-se vai cair feito uma vulva no calendário internacional!

Aliás, mate aula, falte ao trabalho, invente desculpas cretinas nesta segunda-feira. Diga que precisa levar sua avó à musculação, alegue suspeita sobre uma crescente epidemia de Febre Escarlate no condomínio, declare luto pela morte do Clodovil. O Dia Internacional do Foda-se será dia de alegria. Nosso foda-se ressoará isento de amarguras. Será, antes de tudo, a celebração original do próprio foda-se, esta arma de grosso calibre, dona de alcance superior ao de ogivas nucleares no que se refere à destruição de tudo aquilo que não presta. Portanto, no dia 23, prepare a sua espingarda do foda-se. Lustre-a com flanela, verifique a munição e aponte o cano na direção do seu alvo.

E que fique claro: não há na criação do Dia Internacional do Foda-se nenhum tipo de resposta ironizada ao Dia do Apagão. Nós até apoiamos a iniciativa. Mas o problema da preservação da energia e da natureza só começará a ser solucionado quando as questões do culto ao dinheiro e do avanço desenfreado da tecnologia em prol da ganância forem tratados com a atenção que merecem. A mobilização pelo Dia do Apagão serviu apenas como inspiração.

Se você – oh, leitor macambúzio! – nasceu no dia 23 de março e ficou ofendido com a data escolhida para o DIF, sinta-se livre para inventar o Dia Internacional do Corroda-se, ou do Saxofoda-se! Pode até ser na data do meu aniversário (27 de setembro). Mas se o Dia Internacional do Foda-se caísse na data do meu aniversário, eu me sentiria um privilegiado! Ah, só mais uma coisa... Caso ninguém se mobilize e grite o foda-se na janela, às 19:00hs desta segunda-feira, foda-se...

Zé McGill


* Aqui um vídeo da música Ndéleng Ndéleng, da espetaculosa Orchestra Baobab, de Senegal. Boa pedida para trilha sonora do Dia Internacional do Foda-se. A música estará no set do próximo PROGRAMA MAKULA, que vai ao ar toda quinta-feira na Rádio Gruta (www.radiogruta.com), às 15h, e é apresentado pelos DJs da Festa Makula: Zé McGill (Revista Foda-se), Lucio Branco (Soul, Baby, Soul!) e Gustavo Benjão (Do Amor)