sexta-feira, 29 de agosto de 2008

RADIOHEAD EM SÃO FRANCISCO


Assisti a um show do Radiohead em Barcelona, há dois meses, no festival Daydream. Saí meio puto da vida porque esperava escutar alguns sucessos como My iron lungs, Fake plastic trees ou Karma Police, que não constavam no setlist. Por outro lado, fiquei com a batida e o vocal de Weird Fishes – do novo álbum, In rainbows - na cabeça por uma semana. Quando cheguei em casa, baixei o disco e me viciei. Dali em diante, foram dois meses de expectativa pelo show no Outsidelands Festival, em São Francisco, Califórnia, na última sexta-feira, dia 22 de agosto.

Parei de acompanhar a carreira do Radiohead no início deste século, quando a banda lançou Kid A, seu quarto álbum, e passou a priorizar o experimentalismo eletrônico e uma complexidade excêntrica nas composições, deixando de lado sua sensível capacidade de produzir baladas grudentas e rocks vigorosos da melhor qualidade. Continuo achando Kid A (2000) uma chatice, com raras exceções, o sucessor, Amnesiac (2001), fraco, e Hail to the thief (2003), uma bosta.

No ano passado, porém, os caras voltaram com tudo e chamaram a atenção de todo mundo que se interessa por música. Numa estratégia de marketing que deixou a indústria fonográfica com o cu na mão, eles lançaram In rainbows na internet sugerindo que o público baixasse o álbum pelo preço que achasse justo pagar. Disso, quase todo mundo já sabe. O que nem todo mundo percebeu ainda é que In rainbows é, ao lado de OK computer (1997), o melhor disco da carreira do quinteto de Oxford.

Após estréia fonográfica apenas regular com Pablo honey (1993), a banda amadureceu em The bends (1995) e chegou perto da sua obra-prima com Ok computer. Mas depois o negócio desandou. Até hoje me pergunto como pôde o mesmo grupo de pessoas que compôs clássicos como Paranoid android, High and dry e No surprises ter cometido diarréias sonoras como 2+2=5, The gloaming ou The national anthem. É admirável a capacidade que esses caras possuem de soarem geniais em um momento e cretinos no minuto seguinte. E o show deles é mais ou menos assim.

Só que o repertório do novo show é baseado no genial In rainbows. Portanto, os momentos de cretinice são escassos. Tanto em Barcelona quanto em São Francisco eles tocaram noventa por cento do repertório do disco novo ao vivo. A diferença entre os dois shows foi que, em São Francisco, rolaram todos aqueles hits citados no primeiro parágrafo. Só faltou mesmo Creep, que parece ter se tornado uma espécie de Anna Júlia do Radiohead e raramente é executada em shows.

O show de São Francisco aconteceu no Golden Gate Park, no primeiro dia do festival Outsidelands. Antes da atração principal, pude conferir 20 minutos do show do Manu Chao e corri para pegar uma hora do show do Beck, em outro palco, com direito a Loser e Devil’s haircut. Bom show. Melhor que aquele do Rock in Rio de 2001. Mas precisei cair fora antes do fim para garantir um lugar na multidão que se amontoava em frente ao palco principal à espera do Radiohead. A noite caía sobre o parque e eu ainda corria pelo gramado, desviando de alguns nativos obesos com seus hot dogs e suas cervejas de sete dólares nas mãos, quando escutei de longe as batidas de 15 step, a mesma música que abriu o show de Barcelona.

Eu não sou PM e não tenho o talento sobrenatural de avaliar os números de uma multidão assim, só de olhar. Mas havia pelo menos cinquenta mil pessoas ali e o que pude ver do palco foi o Thom Yorke do tamanho da unha do meu dedo mindinho. O que salvou foi o telão, que era dividido em quatro quadros, sempre focalizando um dos músicos em cada quadro. O show seguiu com Reckoner e um som apenas razoável para um festival de primeiro mundo. Em seguida veio a introdução do clássico Airbag e urros de delírio da multidão. Só que, de repente, o festival de primeiro mundo pagou mico. Houve um estalo seco e o som do P.A. sumiu completamente por cerca de dois minutos. Ouvi alguém da platéia reclamar: “That was not cool”.

Depois o som voltou e tudo correu bem até que surgiram no setlist as sofríveis The national anthem e The gloaming. Para minha sorte, durante esta última, aconteceu de novo: no meio da música, falha no sistema de som e silêncio total. Desta vez foi legal. Foi cool. O melhor silêncio que escutei em meses, ofuscado apenas por algumas vaias educadas. E durou quase a música inteira, aquele silêncio. O som voltou quando a banda tocava o último acorde. Perfeito. Fiquei rindo sozinho, imaginando que o técnico de som, entediado, houvesse desplugado os cabos propositalmente. O Thom Yorke ficou estressado. Chegou no microfone e esbravejou: “Sorry. I don’t know what the fuck is going on”.

Mas o show continuou com uma sequência matadora: Weird fishes, Idioteque, Karma police e Jigsaw falling into place. Pronto, valeu o ingresso. Olhei em volta e comecei a perceber porque é que se diz por aí que o Radiohead é hoje a maior banda de rock do mundo. Os cinquenta mil presentes acompanhavam Thom Yorke e cantavam juntos a maioria das letras, assim como aconteceu em Barcelona. A performance do vocalista, em transe numa dança esquizofrênica, por alguns instantes lembrou o jeitão esquisito do finado Ian Curtis (Joy Division). O adolescente que estava ao meu lado fez uma observação divertida a respeito de Yorke: “I think this dude is retarded” (acho que esse cara é retardado). E, olhando aquele ataque semi-epiléptico no centro palco, ficou difícil discordar do garoto.

Ao mesmo tempo, é difícil discordar de quem diz que o Radiohead é hoje a maior e melhor banda de rock do mundo. Thom Yorke (vocal e guitarra), Ed O’Brien (guitarra e vocal), Jonny Greenwood (guitarra), Colin Greenwood (baixo), e Phil Selway (bateria) sabem criar clima como poucos e a superioridade técnica deles como músicos é evidente. Fora isso, eles acabaram de lançar um disco que é simplesmente fodão e têm o melhor cantor de rock da atualidade. Thom Yorke canta muito e estava inspirado em São Francisco. O ponto alto dele foi em Nude – uma das boas faixas de In rainbows – quando hipnotizou até os esquilos do parque soltando sua bela voz de mancebo revoltado e deprimido.

Se você é fã incondicional de Radiohead, é provável que não tenha chegado até este último parágrafo. Talvez esteja aí, do outro lado da tela do computador, segurando uma pedra portuguesa e com uma vontade grande de atirá-la na minha cara. Só porque eu chamei o Thom Yorke de retardado e mancebo deprimido e porque eu acho aqueles três discos da banda um porre. Entretanto, se você não chegou até aqui, não saberá que no bis eles tocaram Paranoid android e Fake plastic trees e encerraram a apresentação com a melhor música do Kid A: Everything in its right place. Não saberá também que os shows de Barcelona e São Francisco e, especialmente, o novo disco, In rainbows, me fizeram voltar a gostar do Radiohead. E me convenceram de que, de fato, eles são hoje a maior e melhor banda de rock do mundo.



Zé McGill


* Pra quem ainda não conhece o clássico instantâneo Weird fishes, aqui está o vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=FcANFVcJeOM

** E aqui um vídeo que registra o apagão sonoro no meio de Airbag, no show de São Francisco: http://www.youtube.com/watch?v=qH_3p1hAbWk

*** Esta resenha foi publicada no Portal Rock Press. Confira:


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O CAVALO DA TECNOLOGIA


Acho um saco esse papo de tecnologia. Pra mim, bluetooth é cárie, banda larga é bunda grande e firewall é assunto para o corpo de bombeiros. Mas, além de me entediar, a tecnologia me assusta. Ela está tornando o ser humano cada vez mais superficial e individualista. A criança contemporânea brinca cada vez menos na rua e passa cada vez mais tempo com a cara grudada na tela do computador. Pessoas constroem relações de amizade e amor através de cabos de fibra ótica, muitas vezes sem sequer terem trocado um olhar. Fico me perguntando aonde isso tudo vai parar, mesmo sabendo que isso tudo não vai parar.

Evoluir é uma necessidade natural do homem? Ok, pode ser. Mas o homem também tem bom senso e sensibilidade, ou não? Está na moda militar contra o aquecimento global e a poluição, o que é ótimo (e vital), mas ninguém parece perceber as ameaças do avanço desembestado da tecnologia. Quando a poluição começa a ameaçar a saúde, eles não criam o rodízio de automóveis, os filtros de chaminés? Pois então, por que não utilizar o bom senso para decretar uma freada na corrida alucinada do cavalo da tecnologia? É, eu vejo a tecnologia como um cavalo raivoso de olhos vermelhos esbugalhados que cavalga espumando pelos cantos da boca, soltando fumaça pela narina e atropelando tudo que cruza o seu caminho.

Por outro lado, reconheço que alguns dos avanços tecnológicos proporcionam coisas boas. Sem eles, não existiriam o MP3, nem as redes de P2P (troca de arquivos digitais) – a melhor invenção dos últimos anos. Não existiriam o Youtube, o rádio, os amplificadores, as guitarras, o cinema, as transmissões ao vivo de futebol pela TV. Sei de tudo isso. E sei também que não existiria este blog. Talvez a Revista Foda-se nunca tivesse nascido. Mas quando penso na clonagem de animais e seres humanos, no culto à música eletrônica movido a drogas sintéticas, na indústria bélica, na bomba atômica, na mira laser, no Big Brother em que as metrópoles monitoradas por câmeras estão se tornando e na Cora Rónai (a colunista nerd de O Globo), sinto que a coisa está fora de controle. Deu tilt no sistema.

Alguém dirá que a tecnologia não tem culpa, que o culpado é sempre o homem, que a utiliza de forma mesquinha e egoísta. Eu discordo. Acho que, assim como o dinheiro, a tecnologia pode ter vida e alma próprias. E, assim como o dinheiro, ela pode sim influenciar o comportamento do ser humano. Pode mudar conceitos, transformar tradições e culturas, criar vícios nocivos. E pode até contribuir com o fim de namoros e casamentos. É impressionante o número de casais desfeitos com a ajuda da Internet. Conheço vários casos de relacionamentos que terminaram com a descoberta de um e-mail ou de uma mensagem suspeita no Orkut. É cada vez mais comum.

A nossa geração, e as próximas duas ou três, poderiam viver muito bem com o que temos hoje, sem que nada mais fosse inventado. E poderia viver melhor ainda se algumas invenções recentes fossem eliminadas do nosso dia-a-dia. Não digo isso com o ressentimento de um ancião que perdeu o seu posto de trabalho para uma máquina, ou coisa que o valha. Trabalhei durante cinco anos na área de teconologia dentro de gravadoras. Fui responsável pelos sites e pelos novos negócios que envolvem a música. Acompanhei de perto a queda da venda de CDs e o surgimento das mídias digitais, da venda de arquivos de música através da Internet e dos telefones celulares. E encho a boca pra dizer: pedi demissão porque, entre outros motivos, este negócio perdeu a graça. Pelo menos para mim.

O negócio das gravadoras perdeu a graça porque a tecnologia acabou com o tesão do consumidor pelo ato da compra de música. Durante boa parte da minha vida, um dos maiores prazeres que tinha era entrar numa loja de discos, olhar as prateleiras cheias de vinis ou CDs, pegar um disco nas mãos e admirar a capa. Depois, era levar o disco pra casa, colocá-lo para tocar e ler o encarte com as letras e a ficha técnica. Isso tudo criava um clima que não se cria mais com as lojas de música digital na Internet ou nos telefones celulares. Hoje, o processo é frio demais. Automático demais.

Até o sexo está ficando automático. Nunca se bateu tanta punheta no planeta Terra quanto após o advento da Internet. Antigamente, a masturbação era patrocinada pela imaginação ou pelas fotos de revistas. Hoje, todo mundo faz sexo com a tela do computador. Taxistas, atletas, porteiros, maquiadores, executivos, presidentes. Todos têm o seu site de sacanagem predileto. O seu chefe também. Seu filho idem. Até a sua mãe vê putaria na rede! E, a princípio, não há nada de errado com isso. Mas a coisa pode ficar perigosa, porque nunca foi tão fácil se viciar em masturbação.

A ganância, a ira, a inveja, o ciúme, a perversão, a violência e outras maravilhas tão antigas quanto estas nunca estiveram tão bem acompanhadas. O dinheiro e o cavalo da tecnologia estão prontos para equipá-las. Outro dia me disseram que eu tenho alma de hippie. Talvez seja verdade, mas podem anotar aí: o dinheiro e o cavalo da tecnologia serão responsáveis pelo fim da humanidade.

Zé McGill



* Como prova de nosso apreço pelas coisas boas proporcionadas pela tecnologia, a partir de agora, toda postagem da Revista Foda-se terá um vídeo de música do Youtube. O escolhido da semana é o clipe da música Jailer, da cantora franco-nigeriana Asa. Clique no link abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=Sh2vqnok1OA

sexta-feira, 25 de julho de 2008

JANELA INDISCRETA


Suspense. Nos últimos anos, o Campeonato Brasileiro de Futebol devolveu ao público, aos jogadores e a todos os envolvidos com o esporte bretão o velho complexo de vira-latas. E o medo. Se o tal complexo percebido por Nelson Rodrigues havia sido enterrado após a conquista da Copa de 1958, ele acaba de ser exumado, cinquenta anos depois. Ou não seria um campeonato de vira-latas aquele em que o maior medo do torcedor é perder o craque do seu time para a janela indiscreta de negociações com o futebol europeu? Aliás, futebol europeu, asiático, adriático, polar, aborígene, talibã...

Me lembro bem – e com pesar – da noite em que o Vasco tirou o Bebeto do Flamengo. Corria o ano de 1989 e eu era um moleque esquelético e orelhudo que começava a acompanhar atentamente o dia-a-dia do meu time. Talvez tenha sido meu período mais doentio como torcedor, ali pelos doze anos de idade. Passava as noites escutando o programa Panorama Esportivo, da Rádio Globo, das dez à meia-noite.

Ao final de uma das edições do Panorama, já perto da madrugada, chegou a notícia fulminante, na voz enfática do Élcio Venâncio: “O Vasco anuncia a contratação de Bebeto!”. Sempre que me lembro de alguma notícia trágica sobre futebol, lá está a figura caxias de Élcio Venâncio. E ele anunciou a venda do Bebeto como um repórter policial anuncia um assassinato de figurão em terreno baldio. Esse era sempre o tom dele. Onde andará Élcio Venâncio?

Mas, voltando à tragédia do Bebeto, dormi mal naquela noite. A notícia doeu nas entranhas. E no dia seguinte, quando cheguei no colégio, os amigos vascaínos infernizaram meus ouvidos com a comemoração ovante. O Bebeto era chorão, acreditava em Papai Noel e no Saci Pererê, mas era craque. E a venda dele para o maior rival do Flamengo foi o meu primeiro trauma em termos de perda de ídolos.

Mas a diferença daquela negociação – e de tantas outras que ganharam manchetes até o final do século passado – para as negociações de hoje, era que o negócio só se concretizava depois que o jogador estivesse estabelecido como ídolo de uma torcida. O Zico, por exemplo, só foi vendido para a Udinese depois de disputar duas Copas do Mundo, já beirando os trinta anos de idade. Hoje, é bem diferente. Qualquer Marcinho arruma as malas antes mesmo da metade da competição se for o artilheiro do campeonato. E não precisa ser artilheiro de nada, não. Se você for o zagueiro reserva do reserva do Flamengo e tiver um bom empresário, pode ir parar no Belenenses, de Portugal.

Agora, quem se lembra do Bujica, aquele centroavante rubro-negro que gostava de balançar as redes vascaínas na década de 80? Foi vendido pro estrangeiro? Nunca. Mas se jogasse hoje, teria boas chances de ir parar na Ucrânia. E o Berg, do Botafogo? Hoje, seria o camisa dez do Galatassaray, da Turquia. Fácil. O Biro-Biro não teria tido tempo de se tornar ídolo da Gaviões da Fiel. Na primeira roubada de bola em jogo contra o XV de Piracicaba, seria levado para as Arábias. Aliás, a famosa democracia corinthiana não teria existido. Hoje, só há lugar para a ditadura do dinheiro. Na vida e no futebol.

Acabo de ler no jornal que um tal de Philippe Coutinho, do Vasco, foi vendido para a Inter de Milão. Tem dezesseis anos, o moleque. Ainda fede a talquinho de neném e deve frequentar festinhas de playground, onde se empanturra com delícias juvenis como o cajuzinho. E o pior: os paneleiros lusitanos ainda nem tiveram a chance de ver o garoto jogar. Não vai doer nada no coração do torcedor. E aí é que está a tragédia: ninguém vai sofrer com a perda do eventual craque de bola. Ninguém vai chorar. Ninguém chora mais pela perda do ídolo. Mas hão de lembrar do mancebo cruzmaltino quando este despontar como revelação tupiniquim pelos gramados do velho continente.

Pergunto, então: - Como torcer por um time brasileiro de futebol em 2008? Como torcer pelo Fluminense sabendo que os dois Thiagos vão embora antes do fim do campeonato? Como torcer pelo Flamengo se o único que admite ficar até o fim é o técnico Harry Potter? Como torcer pelo Grêmio se o craque (?) do time, Roger, decide, da noite para o dia, que vai jogar no Qatar (!), e vai embora sem se despedir dos companheiros? Como torcer diante do desdém e da falta de credibilidade? Como torcer com medo de que o melhor jogador do seu time resolva abrir a janela de transferências e saltar para o abismo da prosperidade? Como torcer nesse clima de suspense e medo à la Alfred Hitchcock?

O melhor negócio é virar voyeur, feito o personagem do James Stewart (o ator do filme Janela indiscreta). Faça como ele. Arrume uma perna quebrada, coloque nela um gesso pesado, sente na poltrona e espreite o seu time pela televisão com muita suspeita e desconfiança porque amanhã ele pode ser vítima de mais um assassinato a que você espreita pela janela. A indiscreta, a medonha, a hedionda janela de transferências.

Zé McGill

sábado, 12 de julho de 2008

A Z E I T O N A


Foda-se o Centro da Cidade do Rio de Janeiro e o seu caos de formigueiro quente, cinza, feio, fétido. Fodam-se a Avenida Rio Branco e a Presidente Vargas. Fodam-se a Cinelândia, o Amarelinho e o glamour do Theatro Municipal. Foda-se a Confeitaria Colombo e toda sua tradição em quitutes. Fodam-se os tribunais, fóruns e escritórios; adevogados, homens-de-negócio e despachantes. Fodam-se o terno e a gravata. Foda-se a Igreja da Candelária. E foda-se também a Academia Brasileira de Letras, que não reconhece a expressão “foda-se” como a melhor e mais transcendental da língua portuguesa.

Se o Robert De Niro ainda fosse o Taxi Driver e vivesse no Rio de Janeiro, diria isso tudo que está escrito aí em cima sobre o Centro. E mais um pouco. Diria que o Centro é a escória da Terra.

O Centro do Rio, praticamente, é um cemitério. Os prédios são a lápide da sepultura de muita gente. Uns morrem aos pouquinhos na Rua da Assembléia número dez, outros padecem macambúzios no Edifício Avenida Central. Os patrões são os coveiros e o computador é a cruz que acompanha os escaveirados das nove da manhã às cinco da tarde. Flores, só para os futuros presuntos que trabalhem num escritório cheio de estagiárias gostosas.

Toda vez que caminho pelas ruas do Centro, sinto meus ossos apodrecerem, meus cabelos embranquecerem. Trabalhei ali algumas vezes e... nunca mais. Outro dia fui obrigado a voltar ao Centro após alguns bons meses de ausência. Sim, para resolver problemas de ordem estritamente burocrática, como de praxe. Hoje, só piso lá quando sou obrigado. Ou quando é para comprar contrabando no camelódromo da Uruguaiana. Atenção. Observação: Já escrevi a palavra "centro" em demasia neste texto. Por isso, no próximo parágrafo, centro será azeitona.

Toda cidade tem suas esquisitices. Em Londres, uma das atrações turísticas de maior sucesso é a trilha dos assassinatos cometidos por Jack, o Estripador. Com direito a um guia tradutor e tudo, pelas ruas de Whitechapel. Em Marraqueche, na praça Jemaa el-Fna (a maior praça do continente africano), os caras brincam de provocar a Naja, a serpente mais peçonhenta do mundo, tocando clarinete e metendo um pandeiro na cara do animal. Em Los Angeles, existe um vale chamado São Fernando, que fica a meia hora da azeitona, e é conhecido pela simpática alcunha de “Cidade do Pecado”. É a Hollywood do cinema pornô. A capital mundial da sacanagem!

Alguém dirá que a maior esquisitice da Cidade Maravilhosa (cheia de cantos mil) é o Estádio de São Januário, na Barreira do Vasco. Mas não. No quesito esquisitice, o campo dos paneleiros bigodudos é... vice-campeão. O título de maior bizarrice carioca vai para o Centro da Cidade.

Aliás, todo centro de cidade grande é desagradável, mas o que potencializa a escrotidão do Centro do Rio é a beleza natural que está a seu redor. Sinceramente, não entendo como é que alguém consegue encher a boca pra dizer: "Eu adoro o Centro. Adoro tomar um chope no Centro depois do trabalho". Pra mim, quem diz isso é hiena: come merda e ri.

Zé McGill

terça-feira, 1 de julho de 2008

O SHOW DO ANO

The Skatalites, a melhor banda de ska do mundo, passou pelo Brasil recentemente e não tocou no Rio. Teve gente se lamentando e gente matando o trabalho e a faculdade para ir até São Paulo ou Brasília conferir o show dos jamaicanos. Eu fiquei. Lamentei, reclamei, proferi adjetivos não muito carinhosos aos responsáveis pela turnê dos caras e depois esqueci. Só que aí disseram que o New York Ska Jazz Ensemble, a segunda melhor banda de ska do mundo, tocaria na cidade. Taí então o consolo, pensei. Consolo... porra nenhuma. Foi o show do ano!

A gente percebe logo que um show merece atenção quando os caras que pisam no palco já passaram da casa dos quarenta anos de idade. Se os caras misturam ska com jazz, rock e reggae e são de Nova Iorque... aí então dá pra desconfiar que o bagulho vai ser realmente quente. E foi. O Teatro Odisséia, local que abrigou o bacanal ska-jazzístico, estava lotado. Raramente se vê uma fila daquele tamanho na porta da casa de shows carioca.

“Rocksteady” Freddie Reiter (saxofone, flauta, vocal) é o coroa meio-careca-meio-grisalho que comanda a banda com um jogo de pernas malemolente e sapatos bicolores. Ele é o único remanescente da formação original do NYSJE. E é ele quem anuncia em inglês: “Nós somos o New York Ska Jazz Ensemble. Rio, vocês estão prontos?”. Começava ali um show que, para mim, ainda não acabou. Estão rolando até agora, aqui dentro da caixola craniana, os ecos do saxofone do “Rocksteady” e do trombone do Mark Pakin – o sósia parrudo do Tom Waits.

O setlist passeou pela carreira da banda e privilegiou seus três primeiros – e melhores - álbuns: New York Ska Jazz Ensemble (1995), Low Blow (1997) e Get This (1998). Nos discos, o NYSJE costuma escolher alguns clássicos do jazz e transformá-los, apimentando a coisa com tempero jamaicano. Quem foi ao Teatro Odisséia viu o que eles fazem com standards como Mood Indigo (Bigard/Ellington/Mills), Harlem Nocturne (Earle Hagen) e Haitian Fight Song (Charles Mingus). Esta última, alías, foi um dos momentos delirantes da noite. A música, que no original de Mingus já soa como um tributo à cocaína tamanha a aceleração dos compassos, com o NYSJE ganha ainda mais cor e energia. Bob Marley & The Wailers também foram homenageados, com uma versão mais cadenciada de Love and Affection, faixa dos primórdios do grupo de Kingston.

Mas o New York Ska Jazz Ensemble não vive só de releituras. O repertório autoral da banda é matador e o público carioca foi presenteado com Joelle, Low Blow, Midnite Crazier e Montalvo, entre outras. De quebra, foram apresentadas algumas faixas do disco novo, Step Forward, que ainda nem foi lançado oficialmente. E, claro, como acontece em 90% dos shows gringos no Rio de Janeiro, teve que rolar um jabazinho maroto: solo de Desafinado (Tom Jobim) no saxofone.

No palco, além do “Rocksteady” e do sósia parrudo do Tom Waits, estavam Yao Dinizulu (bateria), Earl Appleton (teclados), Alfred Wayne Batchelor (baixo) e Alberto Tarin (guitarra). Este último, se empolgava cada vez que “Rocksteady” anunciava: “Na guitarra, Alberto Tarin, de Valencia, Espanha”. E, na empolgação, o Alberto mandou uns solos que às vezes destoavam do clima. Chegou até a citar o solo de Oye Como Va, do Santana, no meio de uma música.

“Caralho! Eu esperei dez anos por esse show!”, foram as palavras que soltou B Negão ao pisar visivelmente emocionado no palco do Teatro Odisséia para participar do bizz mandando rap freestyle em cima da inacreditável Buttah. Entre uma e outra frase dos metais, “Rocksteady” dava um tapinha nas costas e fazia sinal com a cabeça pra que o Negão entrasse na roda. Ninguém conseguiu ficar parado. Sabe aquele lance de por alguns minutos voltar a ser criança? Sabe como é passar um show inteiro com um sorriso debilóide colado na cara, com os dentes à mostra? Pois é. Tipo isso.


Cheguei em casa com o tênis todo pisado e a camisa ensopada de suor. Liguei o som e acordei uma vizinha velha com a música do NYSJE. Até agora, em 2008, passaram pelo Rio de Janeiro os shows de Ozzy Osbourne, Rod Stewart e até Bob Dylan. Mas, por enquanto, o show de domingo do New York Ska Jazz Ensemble no Teatro Odisséia leva o meu troféu de show do ano. Foi daqueles que entram pra lista dos melhores shows da vida de alguém.

Zé McGill


* Aqui estão os links para dois vídeos do show do NYSJE no Teatro Odisséia:
http://youtube.com/watch?v=d52E8udnG2o
http://www.youtube.com/watch?v=VGnqcG7eK2k

** Esta resenha foi publicada no Portal Rock Press:
(
http://www.portalrockpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=2719)

*** Foto – Michael Meneses

quarta-feira, 25 de junho de 2008

QUEM TEM DOR DE BARRIGA VAI A ROMA


Acordei às 9 da manhã em Roma. Eu havia chegado na madrugada anterior e seguido direto para a cama do hotel duas estrelas. Naquela manhã, nem o Coliseu nem o Vaticano eram prioridades. No império da minha mente, o assunto monumental era o resultado do jogo da noite anterior entre Flamengo e América do México, pela Taça Libertadores.

Abri na Internet o site de um jornal brasileiro e veio a surpresa, a catástrofe em manchete: “Tragédia no Maracanã: Fla é Eliminado pelo América do México”. “Pronto. E agora, com que cara eu vou pro Coliseu?”, me perguntei. Que bosta... Eu bem que havia avisado na Revista Foda-se sobre o perigo de ganhar o Campeonato Carioca. É sempre assim: um oba-oba patife que compromete o rendimento do time no restante da temporada. Agora, concordo com a faixa que vem sendo estendida pela torcida em dia de jogo, que diz o seguinte: O Brasileiro é obrigação!

Saí pelas ruas de Roma ainda atordoado com a notícia. Entre um monumento e outro, a lembrança da derrota me esfaqueava. Ao meio-dia, cheguei ao famoso restaurante Il Vero Alfredo – onde inventaram o Fettucinne Alfredo. Pedi o prato tradicional e foi, de fato, a melhor macarronada que já provei. A receita parece simples: um fettuccine especial passado na manteiga e com muito queijo. Entre uma garfada e outra, proferia xingamentos silenciosos ao técnico Joel Santana.

Foi somente quando adentrei o Coliseu, algumas horas mais tarde, que os pensamentos começaram a tomar outro rumo. Dentro daquela arena em ruínas, que não tem a metade do tamanho do Maracanã, as sensações variavam entre admiração e desgosto. Ao mesmo tempo em que eu contemplava a beleza e a preservação daquele monumento de dois mil anos de idade, concluía que a humanidade já era uma merda desde o início dos tempos. Afinal, o Coliseu fora construído para que a massa se deliciasse com um espetáculo sanguinolento onde, entre outras atrações, panteras e leões devoravam homens desafortunados para delírio e aplausos da multidão. Ali, a morte era celebrada como um gol. E, dois mil anos depois, pude sentir a energia pesada que ainda pairava no ar.

Eu estava de pé, na parte superior do Coliseu, imaginando que seria interessante ver dentro da arena o tal do Cabañas, o atacante paraguaio, carrasco rubro-negro, correndo em fuga desesperada dos leões, quando senti a primeira pontada na barriga. Pontada fulminante, daquelas que não deixam dúvida: vem aí uma dor de barriga agressiva que resultará em caganeira crônica. “Foi o fettuccine”, acusei. Desde de criança sei que não posso comer muito queijo, mas insisto em ignorar esta espécie de alergia em benefício do prazer do paladar. O resultado é quase sempre o mesmo: uma meia-dúzia de três ou quatro viagens à privada.

Comecei a lembrar daquela macarronada amarela e pegajosa e veio então a segunda pontada. A minha situação intestinal tornava-se crítica e eu precisava urgentemente encontrar um banheiro. Pelos meus cálculos de cagão experiente, restavam-me cerca de dez minutos antes da erupção. Mas eu estava dentro do Coliseu e sabia que a maioria das pessoas não entra ali em busca de um trono romano. Encontrar uma privada seria tarefa árdua. Portanto, recolhi minha câmera fotográfica e tomei a escadaria que levava ao piso inferior da construção, na altura da rua. Descendo os degraus, eu já suava frio e pensava que aquilo só podia ser um castigo dos antigos imperadores romanos. Trajano, Vespasiano e Domiciano haviam captado o meu desdém por sua empresa colossal e estavam me punindo.

Quando atingi o piso inferior, notei que um homem e uma mulher caminhavam na minha direção. Custei um pouco a perceber que tratava-se de um casal que havia trabalhado comigo no meu último emprego no Brasil! Aliás, eu nem sabia que os dois formavam um casal. Acho que aquilo foi, na verdade, um flagrante. Uma coincidência das mais violentas, tanto para eles, que provavelmente não esperavam encontrar alguém conhecido dentro do Coliseu, quanto para mim, que naquele momento não pensava em outra coisa que não encontrar uma latrina.

Trocamos cumprimentos e falamos sobre o pessoal do trabalho antigo: “Ahh... aquele meu ex-chefe... que figura... hahaha”. Eu soltava este tipo de comentário e não achava a menor graça. Durante os cinco minutos do encontro eu só conseguia pensar no fettuccine que borbulhava dentro da barriga. Meus olhos circulavam frenéticos pelo Coliseu em busca de uma placa de WC. Eu estava pálido. Precisava sair dali depressa se não quisesse me borrar diante dos ex-companheiros de trabalho. Acho que eles finalmente notaram o desconforto na minha cara e inventaram alguma desculpa para se despedir.

Eu agora estava livre para correr. Acelerei o passo e comecei a rodar o Coliseu em busca do alívio. Nada de placa, nada de banheiro. Pânico. Minha visão tornava-se cada vez mais turva e eu estava ficando zonzo. Foi então que avistei um guarda e perguntei-lhe sobre o caminho para a minha salvação. Ele indicou a direção dos banheiros e eu disparei. No meio do caminho, um grupo de turistas japoneses obstruia a passagem. Estavam todos amontoados, fotografando alguma estátua e soltando em uníssono um típico “Ooooohhhh!”. Ali eu virei um gladiador. Cada segundo era precioso e não seria um grupo de turistas japoneses que me impediria de vencer aquela batalha. Praticamente atropelei um adolescente oriental e continuei a correria sem olhar para trás.

Avistei a casinha quando o fettucinne já havia se transformado em Mike Tyson dentro de mim. Digladiamos por mais dois minutos, eu e Tyson, na fila do banheiro químico. Quando finalmente chegou a minha vez, sentei no trono de plástico e pensei em Trajano, Vespasiano e Domiciano. Em nome de todos os infelizes que um dia perderam suas vidas em benefício do prazer sarcástico destes imperadores, aqui estava a minha vingança, depositada com grande satisfação no caldeirão do império romano. Caguei pro Coliseu. Ou melhor, caguei no Coliseu.

Zé McGill

quinta-feira, 29 de maio de 2008

CHICA, O QUE É UM BLOW JOB?


Quatro e meia da madrugada. Caminho sozinho e borracho pela Ramblas – a principal rua de Barcelona – após uma noitada infernal num dos clubs mais famosos da cidade. Colo o queixo no peito e enfio as mãos no fundo dos bolsos do casaco para aliviar o frio. Uma dúzia de paquistaneses vagam pelas calçadas como fantasmas oferecendo “cerveza – beer!” por um Euro cada. A mão direita sai de dentro do bolso para agarrar uma latinha vermelha de Estrela Damm, que me faria companhia no trajeto até a casa do meu irmão. Ele ficou no club. Agarrou uma sueca.

Alguns quarteirões adiante, sinto que alguém caminha na minha cola. Olho por cima do ombro e vejo uma menina negra, bonita, de calça jeans e casaco de couro marrom. Ela não tinha mais de vinte anos de idade. Era uma puta. Já haviam me dito que as putas de rua em Barcelona são todas negras, a maioria importada do Senegal. “Olá! Quieres un blow job?”, perguntou. Resolvi dar uma de cretino e, mesmo sabendo perfeitamente que um blow job quer dizer boquete em bom português, respondi com outra pergunta, em espanhol: “Mas, chica, o que é um blow job?”. Ela riu e passou a andar ao meu lado.

Caminhei os dez minutos seguintes com a senegalesa grudada em mim. Enquanto oferecia seus serviços, ela alisava a parte frontal da minha calça jeans. O álcool e o frio não impediram uma ereção sutil ali dentro da cueca, mas quanto mais olhava o rosto daquela menina, mais culpado eu me sentia. Sua voz acusava um desespero crescente e o preço do programa caia dez Euros a cada dez passos. Ela precisava da grana que eu não tinha e insistia: “Vamos ali. Você vai gostar. Pode fazer o que quiser comigo”.

A brincadeira estava perdendo a graça. O desespero era evidente nos olhos dela e aquilo era brochante. Me deu vontade de cortar o papo furado. Lancei então uma conversa de titio na intenção de afastar a moça: “Você é uma menina simpática, esperta, bonita. Sua família sabe que você está na rua a esta hora da madrugada?”. Pronto. Funcionou. Na mesma hora ela interrompeu a caminhada e encheu a boca pra mandar: “Ahh, fuck you!”. Virou as costas e desapareceu. Joguei fora a latinha de cerveja e continuei a caminhada, rindo sozinho. Escutei um sonoro “Foda-se” logo na minha primeira noite em Barcelona. O foda-se também está aqui. O foda-se está em toda a parte.

Zé McGill