sexta-feira, 25 de julho de 2008

JANELA INDISCRETA


Suspense. Nos últimos anos, o Campeonato Brasileiro de Futebol devolveu ao público, aos jogadores e a todos os envolvidos com o esporte bretão o velho complexo de vira-latas. E o medo. Se o tal complexo percebido por Nelson Rodrigues havia sido enterrado após a conquista da Copa de 1958, ele acaba de ser exumado, cinquenta anos depois. Ou não seria um campeonato de vira-latas aquele em que o maior medo do torcedor é perder o craque do seu time para a janela indiscreta de negociações com o futebol europeu? Aliás, futebol europeu, asiático, adriático, polar, aborígene, talibã...

Me lembro bem – e com pesar – da noite em que o Vasco tirou o Bebeto do Flamengo. Corria o ano de 1989 e eu era um moleque esquelético e orelhudo que começava a acompanhar atentamente o dia-a-dia do meu time. Talvez tenha sido meu período mais doentio como torcedor, ali pelos doze anos de idade. Passava as noites escutando o programa Panorama Esportivo, da Rádio Globo, das dez à meia-noite.

Ao final de uma das edições do Panorama, já perto da madrugada, chegou a notícia fulminante, na voz enfática do Élcio Venâncio: “O Vasco anuncia a contratação de Bebeto!”. Sempre que me lembro de alguma notícia trágica sobre futebol, lá está a figura caxias de Élcio Venâncio. E ele anunciou a venda do Bebeto como um repórter policial anuncia um assassinato de figurão em terreno baldio. Esse era sempre o tom dele. Onde andará Élcio Venâncio?

Mas, voltando à tragédia do Bebeto, dormi mal naquela noite. A notícia doeu nas entranhas. E no dia seguinte, quando cheguei no colégio, os amigos vascaínos infernizaram meus ouvidos com a comemoração ovante. O Bebeto era chorão, acreditava em Papai Noel e no Saci Pererê, mas era craque. E a venda dele para o maior rival do Flamengo foi o meu primeiro trauma em termos de perda de ídolos.

Mas a diferença daquela negociação – e de tantas outras que ganharam manchetes até o final do século passado – para as negociações de hoje, era que o negócio só se concretizava depois que o jogador estivesse estabelecido como ídolo de uma torcida. O Zico, por exemplo, só foi vendido para a Udinese depois de disputar duas Copas do Mundo, já beirando os trinta anos de idade. Hoje, é bem diferente. Qualquer Marcinho arruma as malas antes mesmo da metade da competição se for o artilheiro do campeonato. E não precisa ser artilheiro de nada, não. Se você for o zagueiro reserva do reserva do Flamengo e tiver um bom empresário, pode ir parar no Belenenses, de Portugal.

Agora, quem se lembra do Bujica, aquele centroavante rubro-negro que gostava de balançar as redes vascaínas na década de 80? Foi vendido pro estrangeiro? Nunca. Mas se jogasse hoje, teria boas chances de ir parar na Ucrânia. E o Berg, do Botafogo? Hoje, seria o camisa dez do Galatassaray, da Turquia. Fácil. O Biro-Biro não teria tido tempo de se tornar ídolo da Gaviões da Fiel. Na primeira roubada de bola em jogo contra o XV de Piracicaba, seria levado para as Arábias. Aliás, a famosa democracia corinthiana não teria existido. Hoje, só há lugar para a ditadura do dinheiro. Na vida e no futebol.

Acabo de ler no jornal que um tal de Philippe Coutinho, do Vasco, foi vendido para a Inter de Milão. Tem dezesseis anos, o moleque. Ainda fede a talquinho de neném e deve frequentar festinhas de playground, onde se empanturra com delícias juvenis como o cajuzinho. E o pior: os paneleiros lusitanos ainda nem tiveram a chance de ver o garoto jogar. Não vai doer nada no coração do torcedor. E aí é que está a tragédia: ninguém vai sofrer com a perda do eventual craque de bola. Ninguém vai chorar. Ninguém chora mais pela perda do ídolo. Mas hão de lembrar do mancebo cruzmaltino quando este despontar como revelação tupiniquim pelos gramados do velho continente.

Pergunto, então: - Como torcer por um time brasileiro de futebol em 2008? Como torcer pelo Fluminense sabendo que os dois Thiagos vão embora antes do fim do campeonato? Como torcer pelo Flamengo se o único que admite ficar até o fim é o técnico Harry Potter? Como torcer pelo Grêmio se o craque (?) do time, Roger, decide, da noite para o dia, que vai jogar no Qatar (!), e vai embora sem se despedir dos companheiros? Como torcer diante do desdém e da falta de credibilidade? Como torcer com medo de que o melhor jogador do seu time resolva abrir a janela de transferências e saltar para o abismo da prosperidade? Como torcer nesse clima de suspense e medo à la Alfred Hitchcock?

O melhor negócio é virar voyeur, feito o personagem do James Stewart (o ator do filme Janela indiscreta). Faça como ele. Arrume uma perna quebrada, coloque nela um gesso pesado, sente na poltrona e espreite o seu time pela televisão com muita suspeita e desconfiança porque amanhã ele pode ser vítima de mais um assassinato a que você espreita pela janela. A indiscreta, a medonha, a hedionda janela de transferências.

Zé McGill

sábado, 12 de julho de 2008

A Z E I T O N A


Foda-se o Centro da Cidade do Rio de Janeiro e o seu caos de formigueiro quente, cinza, feio, fétido. Fodam-se a Avenida Rio Branco e a Presidente Vargas. Fodam-se a Cinelândia, o Amarelinho e o glamour do Theatro Municipal. Foda-se a Confeitaria Colombo e toda sua tradição em quitutes. Fodam-se os tribunais, fóruns e escritórios; adevogados, homens-de-negócio e despachantes. Fodam-se o terno e a gravata. Foda-se a Igreja da Candelária. E foda-se também a Academia Brasileira de Letras, que não reconhece a expressão “foda-se” como a melhor e mais transcendental da língua portuguesa.

Se o Robert De Niro ainda fosse o Taxi Driver e vivesse no Rio de Janeiro, diria isso tudo que está escrito aí em cima sobre o Centro. E mais um pouco. Diria que o Centro é a escória da Terra.

O Centro do Rio, praticamente, é um cemitério. Os prédios são a lápide da sepultura de muita gente. Uns morrem aos pouquinhos na Rua da Assembléia número dez, outros padecem macambúzios no Edifício Avenida Central. Os patrões são os coveiros e o computador é a cruz que acompanha os escaveirados das nove da manhã às cinco da tarde. Flores, só para os futuros presuntos que trabalhem num escritório cheio de estagiárias gostosas.

Toda vez que caminho pelas ruas do Centro, sinto meus ossos apodrecerem, meus cabelos embranquecerem. Trabalhei ali algumas vezes e... nunca mais. Outro dia fui obrigado a voltar ao Centro após alguns bons meses de ausência. Sim, para resolver problemas de ordem estritamente burocrática, como de praxe. Hoje, só piso lá quando sou obrigado. Ou quando é para comprar contrabando no camelódromo da Uruguaiana. Atenção. Observação: Já escrevi a palavra "centro" em demasia neste texto. Por isso, no próximo parágrafo, centro será azeitona.

Toda cidade tem suas esquisitices. Em Londres, uma das atrações turísticas de maior sucesso é a trilha dos assassinatos cometidos por Jack, o Estripador. Com direito a um guia tradutor e tudo, pelas ruas de Whitechapel. Em Marraqueche, na praça Jemaa el-Fna (a maior praça do continente africano), os caras brincam de provocar a Naja, a serpente mais peçonhenta do mundo, tocando clarinete e metendo um pandeiro na cara do animal. Em Los Angeles, existe um vale chamado São Fernando, que fica a meia hora da azeitona, e é conhecido pela simpática alcunha de “Cidade do Pecado”. É a Hollywood do cinema pornô. A capital mundial da sacanagem!

Alguém dirá que a maior esquisitice da Cidade Maravilhosa (cheia de cantos mil) é o Estádio de São Januário, na Barreira do Vasco. Mas não. No quesito esquisitice, o campo dos paneleiros bigodudos é... vice-campeão. O título de maior bizarrice carioca vai para o Centro da Cidade.

Aliás, todo centro de cidade grande é desagradável, mas o que potencializa a escrotidão do Centro do Rio é a beleza natural que está a seu redor. Sinceramente, não entendo como é que alguém consegue encher a boca pra dizer: "Eu adoro o Centro. Adoro tomar um chope no Centro depois do trabalho". Pra mim, quem diz isso é hiena: come merda e ri.

Zé McGill

terça-feira, 1 de julho de 2008

O SHOW DO ANO

The Skatalites, a melhor banda de ska do mundo, passou pelo Brasil recentemente e não tocou no Rio. Teve gente se lamentando e gente matando o trabalho e a faculdade para ir até São Paulo ou Brasília conferir o show dos jamaicanos. Eu fiquei. Lamentei, reclamei, proferi adjetivos não muito carinhosos aos responsáveis pela turnê dos caras e depois esqueci. Só que aí disseram que o New York Ska Jazz Ensemble, a segunda melhor banda de ska do mundo, tocaria na cidade. Taí então o consolo, pensei. Consolo... porra nenhuma. Foi o show do ano!

A gente percebe logo que um show merece atenção quando os caras que pisam no palco já passaram da casa dos quarenta anos de idade. Se os caras misturam ska com jazz, rock e reggae e são de Nova Iorque... aí então dá pra desconfiar que o bagulho vai ser realmente quente. E foi. O Teatro Odisséia, local que abrigou o bacanal ska-jazzístico, estava lotado. Raramente se vê uma fila daquele tamanho na porta da casa de shows carioca.

“Rocksteady” Freddie Reiter (saxofone, flauta, vocal) é o coroa meio-careca-meio-grisalho que comanda a banda com um jogo de pernas malemolente e sapatos bicolores. Ele é o único remanescente da formação original do NYSJE. E é ele quem anuncia em inglês: “Nós somos o New York Ska Jazz Ensemble. Rio, vocês estão prontos?”. Começava ali um show que, para mim, ainda não acabou. Estão rolando até agora, aqui dentro da caixola craniana, os ecos do saxofone do “Rocksteady” e do trombone do Mark Pakin – o sósia parrudo do Tom Waits.

O setlist passeou pela carreira da banda e privilegiou seus três primeiros – e melhores - álbuns: New York Ska Jazz Ensemble (1995), Low Blow (1997) e Get This (1998). Nos discos, o NYSJE costuma escolher alguns clássicos do jazz e transformá-los, apimentando a coisa com tempero jamaicano. Quem foi ao Teatro Odisséia viu o que eles fazem com standards como Mood Indigo (Bigard/Ellington/Mills), Harlem Nocturne (Earle Hagen) e Haitian Fight Song (Charles Mingus). Esta última, alías, foi um dos momentos delirantes da noite. A música, que no original de Mingus já soa como um tributo à cocaína tamanha a aceleração dos compassos, com o NYSJE ganha ainda mais cor e energia. Bob Marley & The Wailers também foram homenageados, com uma versão mais cadenciada de Love and Affection, faixa dos primórdios do grupo de Kingston.

Mas o New York Ska Jazz Ensemble não vive só de releituras. O repertório autoral da banda é matador e o público carioca foi presenteado com Joelle, Low Blow, Midnite Crazier e Montalvo, entre outras. De quebra, foram apresentadas algumas faixas do disco novo, Step Forward, que ainda nem foi lançado oficialmente. E, claro, como acontece em 90% dos shows gringos no Rio de Janeiro, teve que rolar um jabazinho maroto: solo de Desafinado (Tom Jobim) no saxofone.

No palco, além do “Rocksteady” e do sósia parrudo do Tom Waits, estavam Yao Dinizulu (bateria), Earl Appleton (teclados), Alfred Wayne Batchelor (baixo) e Alberto Tarin (guitarra). Este último, se empolgava cada vez que “Rocksteady” anunciava: “Na guitarra, Alberto Tarin, de Valencia, Espanha”. E, na empolgação, o Alberto mandou uns solos que às vezes destoavam do clima. Chegou até a citar o solo de Oye Como Va, do Santana, no meio de uma música.

“Caralho! Eu esperei dez anos por esse show!”, foram as palavras que soltou B Negão ao pisar visivelmente emocionado no palco do Teatro Odisséia para participar do bizz mandando rap freestyle em cima da inacreditável Buttah. Entre uma e outra frase dos metais, “Rocksteady” dava um tapinha nas costas e fazia sinal com a cabeça pra que o Negão entrasse na roda. Ninguém conseguiu ficar parado. Sabe aquele lance de por alguns minutos voltar a ser criança? Sabe como é passar um show inteiro com um sorriso debilóide colado na cara, com os dentes à mostra? Pois é. Tipo isso.


Cheguei em casa com o tênis todo pisado e a camisa ensopada de suor. Liguei o som e acordei uma vizinha velha com a música do NYSJE. Até agora, em 2008, passaram pelo Rio de Janeiro os shows de Ozzy Osbourne, Rod Stewart e até Bob Dylan. Mas, por enquanto, o show de domingo do New York Ska Jazz Ensemble no Teatro Odisséia leva o meu troféu de show do ano. Foi daqueles que entram pra lista dos melhores shows da vida de alguém.

Zé McGill


* Aqui estão os links para dois vídeos do show do NYSJE no Teatro Odisséia:
http://youtube.com/watch?v=d52E8udnG2o
http://www.youtube.com/watch?v=VGnqcG7eK2k

** Esta resenha foi publicada no Portal Rock Press:
(
http://www.portalrockpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=2719)

*** Foto – Michael Meneses

quarta-feira, 25 de junho de 2008

QUEM TEM DOR DE BARRIGA VAI A ROMA


Acordei às 9 da manhã em Roma. Eu havia chegado na madrugada anterior e seguido direto para a cama do hotel duas estrelas. Naquela manhã, nem o Coliseu nem o Vaticano eram prioridades. No império da minha mente, o assunto monumental era o resultado do jogo da noite anterior entre Flamengo e América do México, pela Taça Libertadores.

Abri na Internet o site de um jornal brasileiro e veio a surpresa, a catástrofe em manchete: “Tragédia no Maracanã: Fla é Eliminado pelo América do México”. “Pronto. E agora, com que cara eu vou pro Coliseu?”, me perguntei. Que bosta... Eu bem que havia avisado na Revista Foda-se sobre o perigo de ganhar o Campeonato Carioca. É sempre assim: um oba-oba patife que compromete o rendimento do time no restante da temporada. Agora, concordo com a faixa que vem sendo estendida pela torcida em dia de jogo, que diz o seguinte: O Brasileiro é obrigação!

Saí pelas ruas de Roma ainda atordoado com a notícia. Entre um monumento e outro, a lembrança da derrota me esfaqueava. Ao meio-dia, cheguei ao famoso restaurante Il Vero Alfredo – onde inventaram o Fettucinne Alfredo. Pedi o prato tradicional e foi, de fato, a melhor macarronada que já provei. A receita parece simples: um fettuccine especial passado na manteiga e com muito queijo. Entre uma garfada e outra, proferia xingamentos silenciosos ao técnico Joel Santana.

Foi somente quando adentrei o Coliseu, algumas horas mais tarde, que os pensamentos começaram a tomar outro rumo. Dentro daquela arena em ruínas, que não tem a metade do tamanho do Maracanã, as sensações variavam entre admiração e desgosto. Ao mesmo tempo em que eu contemplava a beleza e a preservação daquele monumento de dois mil anos de idade, concluía que a humanidade já era uma merda desde o início dos tempos. Afinal, o Coliseu fora construído para que a massa se deliciasse com um espetáculo sanguinolento onde, entre outras atrações, panteras e leões devoravam homens desafortunados para delírio e aplausos da multidão. Ali, a morte era celebrada como um gol. E, dois mil anos depois, pude sentir a energia pesada que ainda pairava no ar.

Eu estava de pé, na parte superior do Coliseu, imaginando que seria interessante ver dentro da arena o tal do Cabañas, o atacante paraguaio, carrasco rubro-negro, correndo em fuga desesperada dos leões, quando senti a primeira pontada na barriga. Pontada fulminante, daquelas que não deixam dúvida: vem aí uma dor de barriga agressiva que resultará em caganeira crônica. “Foi o fettuccine”, acusei. Desde de criança sei que não posso comer muito queijo, mas insisto em ignorar esta espécie de alergia em benefício do prazer do paladar. O resultado é quase sempre o mesmo: uma meia-dúzia de três ou quatro viagens à privada.

Comecei a lembrar daquela macarronada amarela e pegajosa e veio então a segunda pontada. A minha situação intestinal tornava-se crítica e eu precisava urgentemente encontrar um banheiro. Pelos meus cálculos de cagão experiente, restavam-me cerca de dez minutos antes da erupção. Mas eu estava dentro do Coliseu e sabia que a maioria das pessoas não entra ali em busca de um trono romano. Encontrar uma privada seria tarefa árdua. Portanto, recolhi minha câmera fotográfica e tomei a escadaria que levava ao piso inferior da construção, na altura da rua. Descendo os degraus, eu já suava frio e pensava que aquilo só podia ser um castigo dos antigos imperadores romanos. Trajano, Vespasiano e Domiciano haviam captado o meu desdém por sua empresa colossal e estavam me punindo.

Quando atingi o piso inferior, notei que um homem e uma mulher caminhavam na minha direção. Custei um pouco a perceber que tratava-se de um casal que havia trabalhado comigo no meu último emprego no Brasil! Aliás, eu nem sabia que os dois formavam um casal. Acho que aquilo foi, na verdade, um flagrante. Uma coincidência das mais violentas, tanto para eles, que provavelmente não esperavam encontrar alguém conhecido dentro do Coliseu, quanto para mim, que naquele momento não pensava em outra coisa que não encontrar uma latrina.

Trocamos cumprimentos e falamos sobre o pessoal do trabalho antigo: “Ahh... aquele meu ex-chefe... que figura... hahaha”. Eu soltava este tipo de comentário e não achava a menor graça. Durante os cinco minutos do encontro eu só conseguia pensar no fettuccine que borbulhava dentro da barriga. Meus olhos circulavam frenéticos pelo Coliseu em busca de uma placa de WC. Eu estava pálido. Precisava sair dali depressa se não quisesse me borrar diante dos ex-companheiros de trabalho. Acho que eles finalmente notaram o desconforto na minha cara e inventaram alguma desculpa para se despedir.

Eu agora estava livre para correr. Acelerei o passo e comecei a rodar o Coliseu em busca do alívio. Nada de placa, nada de banheiro. Pânico. Minha visão tornava-se cada vez mais turva e eu estava ficando zonzo. Foi então que avistei um guarda e perguntei-lhe sobre o caminho para a minha salvação. Ele indicou a direção dos banheiros e eu disparei. No meio do caminho, um grupo de turistas japoneses obstruia a passagem. Estavam todos amontoados, fotografando alguma estátua e soltando em uníssono um típico “Ooooohhhh!”. Ali eu virei um gladiador. Cada segundo era precioso e não seria um grupo de turistas japoneses que me impediria de vencer aquela batalha. Praticamente atropelei um adolescente oriental e continuei a correria sem olhar para trás.

Avistei a casinha quando o fettucinne já havia se transformado em Mike Tyson dentro de mim. Digladiamos por mais dois minutos, eu e Tyson, na fila do banheiro químico. Quando finalmente chegou a minha vez, sentei no trono de plástico e pensei em Trajano, Vespasiano e Domiciano. Em nome de todos os infelizes que um dia perderam suas vidas em benefício do prazer sarcástico destes imperadores, aqui estava a minha vingança, depositada com grande satisfação no caldeirão do império romano. Caguei pro Coliseu. Ou melhor, caguei no Coliseu.

Zé McGill

quinta-feira, 29 de maio de 2008

CHICA, O QUE É UM BLOW JOB?


Quatro e meia da madrugada. Caminho sozinho e borracho pela Ramblas – a principal rua de Barcelona – após uma noitada infernal num dos clubs mais famosos da cidade. Colo o queixo no peito e enfio as mãos no fundo dos bolsos do casaco para aliviar o frio. Uma dúzia de paquistaneses vagam pelas calçadas como fantasmas oferecendo “cerveza – beer!” por um Euro cada. A mão direita sai de dentro do bolso para agarrar uma latinha vermelha de Estrela Damm, que me faria companhia no trajeto até a casa do meu irmão. Ele ficou no club. Agarrou uma sueca.

Alguns quarteirões adiante, sinto que alguém caminha na minha cola. Olho por cima do ombro e vejo uma menina negra, bonita, de calça jeans e casaco de couro marrom. Ela não tinha mais de vinte anos de idade. Era uma puta. Já haviam me dito que as putas de rua em Barcelona são todas negras, a maioria importada do Senegal. “Olá! Quieres un blow job?”, perguntou. Resolvi dar uma de cretino e, mesmo sabendo perfeitamente que um blow job quer dizer boquete em bom português, respondi com outra pergunta, em espanhol: “Mas, chica, o que é um blow job?”. Ela riu e passou a andar ao meu lado.

Caminhei os dez minutos seguintes com a senegalesa grudada em mim. Enquanto oferecia seus serviços, ela alisava a parte frontal da minha calça jeans. O álcool e o frio não impediram uma ereção sutil ali dentro da cueca, mas quanto mais olhava o rosto daquela menina, mais culpado eu me sentia. Sua voz acusava um desespero crescente e o preço do programa caia dez Euros a cada dez passos. Ela precisava da grana que eu não tinha e insistia: “Vamos ali. Você vai gostar. Pode fazer o que quiser comigo”.

A brincadeira estava perdendo a graça. O desespero era evidente nos olhos dela e aquilo era brochante. Me deu vontade de cortar o papo furado. Lancei então uma conversa de titio na intenção de afastar a moça: “Você é uma menina simpática, esperta, bonita. Sua família sabe que você está na rua a esta hora da madrugada?”. Pronto. Funcionou. Na mesma hora ela interrompeu a caminhada e encheu a boca pra mandar: “Ahh, fuck you!”. Virou as costas e desapareceu. Joguei fora a latinha de cerveja e continuei a caminhada, rindo sozinho. Escutei um sonoro “Foda-se” logo na minha primeira noite em Barcelona. O foda-se também está aqui. O foda-se está em toda a parte.

Zé McGill

domingo, 20 de abril de 2008

A S T R O N A U T A



Amanhã vôo para Barcelona. Vou cair fora por um tempo e não sei quando poderei atualizar a Revista Foda-se. Talvez o faça com pequenas notas para registrar a viagem, que tem garantidos no roteiro Espanha, Itália e Inglaterra. A passagem de volta está marcada para cinco de junho, mas isto é apenas uma data.

Minha banda acabou, meu casamento idem e não possuo vínculo empregatício. Portanto, não há nada que me prenda ao Brasil. Minto. Tem o Flamengo. Não por esse Campeonato Carioca patético em que os times grandes não jogam fora de casa, mas pela Libertadores. Por mim, o Botafogo pode levar o Carioca. Estou cagando. Até porque, toda vez que o Flamengo ganha o Estadual, calça um salto alto e fica se achando o fodão. Depois, se estrepa no Brasileiro.

Fora o Flamengo, sentirei falta também da Antarctica Original e da Bohemia. Já provei cervejas do mundo inteiro e, até a presente data, não encontrei nada parecido. As cachoeiras do Horto – melhor lugar do Rio de Janeiro – também deixarão saudades. E tem ainda os amigos e o Frank Sinatra. Frank, é um cachorro de dois anos e meio, da raça Golden Retriver. O meu melhor amigo nos últimos meses. Quando fico pra baixo, ele chega com cara de cão abandonado e pousa o queixo pesado no meu peito. Quando tudo vai bem, o Frank balança o rabo freneticamente e destrói tudo que estiver ao seu alcance. Ele está aqui agora, do meu lado, e não quer me deixar escrever. Já babou toda a tela do laptop.

Na bagagem, levo pouca roupa e alguns livros. Entre eles, As vinhas da ira, de John Steinbeck. Ainda estou nos primeiros capítulos, mas já sei que, quando terminar a leitura, vou colocá-lo na lista dos meus dez favoritos, que fica registrada neste link à direita, o do perfil. Levo também O estrangeiro, de Albert Camus, o livro que inspirou a música Killing an Arab, do The Cure. A mochila vai abarrotada de encomendas do meu irmão, que mora em Barcelona há quase dois anos. Tem uma barra gigante de Diamante Negro, um par de sandálias Havaianas brancas, o livro do Tim Maia e um pacote de frutas cristalizadas (!). Os fetiches que a saudade da pátria inspiram em um indivíduo são uma comédia.

Sempre achei uma frescura essa história de mp3 player. Gosto de escutar música com os ouvidos bem abertos, sem headphones. Mas para uma viagem longa, até que o aparelho será útil. Comprei-o por R$40, no camelódromo da Uruguaiana. Cabem umas 250 músicas e o repertório já está fechado. Tem de João Donato a Bezerra da Silva. De Carlos Gardel a Gotan Project. De Elvis a Squirrel Nut Zippers. De Gabriel Muzak a Ultraje a Rigor. De Shuggie Ottis a Skip James. De SereS a Fela Kuti. De Toots & The Maitals a Skatalites. De Sly & Robbie a New York Ska Jazz Ensemble. De WAR a Mulatu Astatke. De Pixies a The Who. De John Frusciante a Johnny Cash. E tem uma porrada de faixas da Amy Winehouse – a melhor coisa que aconteceu na música neste século – incluindo umas cinco versões de Valerie.

Voltando ao roteiro. Chego em Barcelona na segunda-feira e fico até o dia 07 de maio. Não conheço ninguém que já tenha passado por lá e não considere Barcelona uma das cidades mais legais do mundo. Veremos. E veremos também Barcelona vs. Valencia, no estádio Camp Nou, a 04 de maio. Depois parto para Roma, onde ficarei por dois dias, antes de tomar o trem para a Toscana. Mora lá, em Lucca, um primo escritor que só conheço por e-mail. Vou aproveitar para ir a Florença, que fica ali perto. Em seguida, Londres. A expectativa é grande por conhecer o berço do Rock n Roll. Vou visitar outro primo, um paulista que não vejo há anos e que, dizem, está ficando famoso na cena local como DJ de música eletrônica. Serão onze dias em Londres.

Depois, volto para Barcelona e devo ir até a Alemanha, conhecer a namorada do meu irmão e visitar uma amiga trapezista que está num circo, em Berlim. Por último, a azeitona da empada, o lugar que mais me atrai, não sei por quê motivo, em todo este roteiro: o Marrocos. Mas isso tudo, é claro, se eu conseguir passar por todas as fronteiras sem problemas. Dizem que estão apertando o cerco contra os imigrantes, especialmente na Espanha. É triste isso. O mundo não deveria ter fronteiras. O cidadão deveria ser livre para poder passar por qualquer território do planeta sem precisar apresentar documento e... dinheiro. Sim. É preciso comprovar que há dinheiro em caixa para gastar no país visitado. Muito triste.

Estou decorando as minha linhas para o diálogo teatral das fronteiras a ser travado com os agentes de imigração. Estar desempregado é um perigo nesta hora. Por isso, acho que vou dar uma resposta que sempre quis, mas nunca tive coragem. Antes de sair do meu último emprego, resolvi fazer vários exames médicos para aproveitar o plano de saúde. Toda vez que eu chegava no consultório, era submetido a um interrogatório intrigante. A última pergunta era sempre a mesma: “Qual é sua profissão?”. No Gastro, fiquei pensando: “que porra o meu emprego tem a ver com o meu pâncreas?”. Minha vontade era responder o seguinte: “Sou astronauta”. Mas ainda não tive coragem. Fui acometido pela mesma vontade em todos os outros consultórios. Quem sabe mando essa para o agente espanhol.

Se não quiserem me receber em seu precioso país porque estou desempregado, FODAM-SE. Volto pra casa, numa boa. Mas suponho que não terei muitos problemas, uma vez que possuo passaporte norte-americano. Sou formado em jornalismo, mas não me orgulho muito disso. A principal coisa que aprendi na faculdade foi que nunca se deve acreditar no que é dito ou escrito por um jornalista. Aliás, desconfiem do que é escrito aqui na Revista Foda-se. Algumas vezes exagero, omito, minto, engano. Portanto, não gosto de dizer que sou jornalista. Nem numa fronteira. Vou concretizar o meu fetiche. Vou dizer que sou astronauta. Mas posso estar mentindo...

Levo no bolso praticamente todas as minhas últimas economias. O pouco que consegui juntar do meu último emprego. Sorte que as passagens aéreas internas da Europa custam zero Euros. Pois é, acredite: Comprei as passagens para Itália e Inglaterra por zero Euros, e mais uma merreca em taxas (Aqui a dica:
www.ryanair.com). Mas, de qualquer maneira, sei que na volta estarei mais liso que o cabelo da Catherine Boceta Jones. Isto é, se eu voltar. No fundo, levo a esperança de encontrar alguma coisa que me faça ficar por lá por um tempo. Quem sabe não me apaixono por um camelo no Marrocos?

Isto não é um adeus, mas preciso agradecer por todas as mensagens que tenho recebido através da Revista Foda-se, no Orkut e no Gmail. A maioria delas, de incentivo e congratulações. E algumas malcriadas também, que são sempre tão bem vindas quanto qualquer outra. Nesta semana, ultrapassamos o incrível número de mil visitantes únicos! São mais de mil desocupados que leram o que eu escrevo por aqui. Vocês não têm nada melhor pra fazer não? De qualquer modo, obrigado. Ao lado dos discos que gravei com as duas bandas que tive, SereS e Gentle Pains, esta revista é um dos orgulhos que carrego. Descobri com ela que vou tentar ganhar a vida escrevendo. Sei que vou passar sufoco, mas... foda-se.

Zé McGill

* Para ser informado sobre as atualizações da Revista Foda-se, escreva um e-mail para
revistafodase@gmail.com, com o assunto “Foda-se”. Ou entre na comunidade do Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=46908949

* Amy Winehouse, Valerie - http://www.youtube.com/watch?v=lqSKVv6YO8g

* John Frusciante, How Deep Is Your Love - http://www.youtube.com/watch?v=-tKQWvNZT0k

terça-feira, 15 de abril de 2008

ADEUS, PIGMEU ARTILHEIRO


Romário foi o maior jogador de futebol que eu vi em ação. Seria injusto dizer que foi o Zico, maior ídolo da história do meu Flamengo. Quando o camisa dez da Gávea estava no auge de sua forma, no início dos anos 1980, eu era um pirralho magricelo que fedia a Yakult e tinha as atenções voltadas para as corridas de chapinha na areia do playground do meu prédio, o Forte dos meus soldados de Playmobil e a Geléia de Mocotó Imbasa. Não entendia nada de futebol, apesar de já me considerar um rubro-negro fanático.

A partir dos dez anos de idade, já em 1987, comecei a tomar gosto pela coisa e passei a acompanhar de perto o dia-a-dia do Flamengo e do futebol em geral. Naquele mesmo ano, tive os primeiros espasmos de torcedor doente no chão da sala ao ver o meu time sagrar-se tetracampeão brasileiro, com Zico ainda em campo e jogando muito. E vi também o Vasco de Romário levar a nossa taça de campeão carioca. Ele como artilheiro, pelo segundo ano consecutivo.

Mas foi no ano seguinte que Romário entrou acidamente na minha memória, ao aplicar um balãozinho no goleiro Zé Carlos antes de tocar a bola com a cabeça para o fundo do barbante, no primeiro jogo da decisão do estadual de 1988. Até hoje sinto azia ao relembrar o lance. Depois veio o jogo do Cocada e o gol dele no último minuto, mas o que ficou foi a humilhação imposta pelo camisa onze do time de paneleiros portugueses na primeira partida da decisão. Até então, meu sentimento com relação àquele semi-anão metido a gostosão poderia ser resumido em uma palavra: ódio.

Para a minha sorte, e da torcida do Flamengo, o pigmeu artilheiro mudou-se para a Holanda pouco depois daquela final. Me limitei a assistir as traquinagens dele pelo PSV através dos Gols do Fantástico, aos domingos. A cada gol seu, soltava para mim mesmo um comentário do tipo: “Isso. Fica aí, seu escroto, do outro lado do mundo”. Mas foi numa dessas noites de domingo, entre uma dentada e outra na pizza de presunto, que gelei com o gol mais bonito da rodada. Léo Batista, o narrador-highlander, dizia algo próximo a: “E o Baixinho continua aprontando das suas na Espanha. Desta vez a vítima foi o Real Sociedad...”.

Naquele lance, já atuando pelo Barcelona, Romário recebeu um lançamento longo e matou a bola no peito como quem diz: “Vem cá neném, que o papai te dá um trato”. Em menos de um segundo, sem deixar a bola quicar na grama, emendou com a parte interna do pé direito e encobriu o goleiro, que, no susto, ainda tentou evitar o gol, mas tombou feito um saco de batatas na pequena área enquanto observava o objeto do seu fracasso invadir a rede. O lance todo não durou mais de quatro segundos. E ele fez aquilo a uma distância de cerca de dez metros da grande área. Sinistro, muuuito sinistro.

Foi automático. Depois daquele gol, passei a observar o duende marrento com outros olhos. Com um misto de admiração, incredulidade e carinho. Compreendi que, quando Romário estava em campo, não era o futebol que acontecia, mas a vida, a morte e todas emoções que vêm incluídas no pacote. Eu testemunhava os shows do Júnior no Maracanã, fiquei embasbacado com o gol do Maradona sobre a Inglaterra na copa de 86 (aquele em que ele dribla cinco antes de marcar) e lembrava do golaço do Van Basten pela Holanda, naquele chute sem ângulo. Mas o lance do Romário era especial. Sobretudo por sua frieza, antes, durante e depois do gol.

Frieza esta que seria explicitada na Copa do Mundo de 1994. Lembra da disputa de pênaltis, na final contra a Itália? Lembra como o Romário caminhou devagar e rebolativo para o local da cobrança? Lembra como ele chutou e olhou a bola bater caprichosamente na trave antes de entrar? E, finalmente, lembra como ele andou de volta para o centro do gramado, após cumprir sua missão, sem abrir um sorriso nem soltar uma bufada de alívio? Pois é. Foi assim que ele terminou de ganhar a Copa para o Brasil. As defesas do Tafarel, o comando do Dunga e a habilidade do Bebeto foram importantes, mas sem o Romário, não teríamos escutado o Galvão Bueno berrar bisonhamente enquanto aplicava uma gravata no Pelé: “É tetraaa! É tetraaa! É tetraaa!”.

Seis meses depois da Copa, Romário chegava ao Flamengo. Acabara de ser eleito o melhor jogador do mundo. Quando ele vestiu pela primeira vez o manto sagrado, as mágoas do passado viraram fumaça. Foram poucos títulos relevantes nas quatro temporadas em que defendeu o Rubro-negro, mas em compensação, fomos presenteados com o elástico sobre o Amaral, a sagacidade oportunista diante da falha do Márcio Teodoro, uma voadora no peito do gigante covarde do Vélez Sarsfield e quatro artilharias consecutivas do Campeonato Carioca. Ah, e ainda fomos à forra com os vascaínos. Perdi a conta das vezes em que vi o pigmeu mandar a torcida bigoduda calar a boca no Maracanã.

Ontem, 14 de abril de 2008, Romário anunciou o encerramento da carreira, aos 42 anos de idade. Pena que ele não chorou durante a entrevista. Eu sempre vibrei com o choro sincero do marrentinho. Dentro de campo, era um matador gelado. Mas fora dele, um coração mole e uma sinceridade transbordante.

Romário me ensinou duas coisas: a primeira, é que a humildade é facultativa diante do gênio. A marra dele sempre foi justificada pelos gols que fazia e pela coragem nas atitudes e declarações. O segundo ensinamento foi dado ao longo dos anos, mas principalmente no final da carreira, quando, já acima da casa dos quarenta, chegou ao milésimo gol e provou que, para o jogador de futebol, a inteligência é mais importante do que a forma física ou a habilidade.

Fica aqui a homenagem da Revista Foda-se ao pigmeu artilheiro. E a certeza de que jamais surgirá no futebol alguém como ele.

Zé McGill



* Aqui está o vídeo com o gol antológico de Romário pelo Barcelona: