domingo, 20 de abril de 2008

A S T R O N A U T A



Amanhã vôo para Barcelona. Vou cair fora por um tempo e não sei quando poderei atualizar a Revista Foda-se. Talvez o faça com pequenas notas para registrar a viagem, que tem garantidos no roteiro Espanha, Itália e Inglaterra. A passagem de volta está marcada para cinco de junho, mas isto é apenas uma data.

Minha banda acabou, meu casamento idem e não possuo vínculo empregatício. Portanto, não há nada que me prenda ao Brasil. Minto. Tem o Flamengo. Não por esse Campeonato Carioca patético em que os times grandes não jogam fora de casa, mas pela Libertadores. Por mim, o Botafogo pode levar o Carioca. Estou cagando. Até porque, toda vez que o Flamengo ganha o Estadual, calça um salto alto e fica se achando o fodão. Depois, se estrepa no Brasileiro.

Fora o Flamengo, sentirei falta também da Antarctica Original e da Bohemia. Já provei cervejas do mundo inteiro e, até a presente data, não encontrei nada parecido. As cachoeiras do Horto – melhor lugar do Rio de Janeiro – também deixarão saudades. E tem ainda os amigos e o Frank Sinatra. Frank, é um cachorro de dois anos e meio, da raça Golden Retriver. O meu melhor amigo nos últimos meses. Quando fico pra baixo, ele chega com cara de cão abandonado e pousa o queixo pesado no meu peito. Quando tudo vai bem, o Frank balança o rabo freneticamente e destrói tudo que estiver ao seu alcance. Ele está aqui agora, do meu lado, e não quer me deixar escrever. Já babou toda a tela do laptop.

Na bagagem, levo pouca roupa e alguns livros. Entre eles, As vinhas da ira, de John Steinbeck. Ainda estou nos primeiros capítulos, mas já sei que, quando terminar a leitura, vou colocá-lo na lista dos meus dez favoritos, que fica registrada neste link à direita, o do perfil. Levo também O estrangeiro, de Albert Camus, o livro que inspirou a música Killing an Arab, do The Cure. A mochila vai abarrotada de encomendas do meu irmão, que mora em Barcelona há quase dois anos. Tem uma barra gigante de Diamante Negro, um par de sandálias Havaianas brancas, o livro do Tim Maia e um pacote de frutas cristalizadas (!). Os fetiches que a saudade da pátria inspiram em um indivíduo são uma comédia.

Sempre achei uma frescura essa história de mp3 player. Gosto de escutar música com os ouvidos bem abertos, sem headphones. Mas para uma viagem longa, até que o aparelho será útil. Comprei-o por R$40, no camelódromo da Uruguaiana. Cabem umas 250 músicas e o repertório já está fechado. Tem de João Donato a Bezerra da Silva. De Carlos Gardel a Gotan Project. De Elvis a Squirrel Nut Zippers. De Gabriel Muzak a Ultraje a Rigor. De Shuggie Ottis a Skip James. De SereS a Fela Kuti. De Toots & The Maitals a Skatalites. De Sly & Robbie a New York Ska Jazz Ensemble. De WAR a Mulatu Astatke. De Pixies a The Who. De John Frusciante a Johnny Cash. E tem uma porrada de faixas da Amy Winehouse – a melhor coisa que aconteceu na música neste século – incluindo umas cinco versões de Valerie.

Voltando ao roteiro. Chego em Barcelona na segunda-feira e fico até o dia 07 de maio. Não conheço ninguém que já tenha passado por lá e não considere Barcelona uma das cidades mais legais do mundo. Veremos. E veremos também Barcelona vs. Valencia, no estádio Camp Nou, a 04 de maio. Depois parto para Roma, onde ficarei por dois dias, antes de tomar o trem para a Toscana. Mora lá, em Lucca, um primo escritor que só conheço por e-mail. Vou aproveitar para ir a Florença, que fica ali perto. Em seguida, Londres. A expectativa é grande por conhecer o berço do Rock n Roll. Vou visitar outro primo, um paulista que não vejo há anos e que, dizem, está ficando famoso na cena local como DJ de música eletrônica. Serão onze dias em Londres.

Depois, volto para Barcelona e devo ir até a Alemanha, conhecer a namorada do meu irmão e visitar uma amiga trapezista que está num circo, em Berlim. Por último, a azeitona da empada, o lugar que mais me atrai, não sei por quê motivo, em todo este roteiro: o Marrocos. Mas isso tudo, é claro, se eu conseguir passar por todas as fronteiras sem problemas. Dizem que estão apertando o cerco contra os imigrantes, especialmente na Espanha. É triste isso. O mundo não deveria ter fronteiras. O cidadão deveria ser livre para poder passar por qualquer território do planeta sem precisar apresentar documento e... dinheiro. Sim. É preciso comprovar que há dinheiro em caixa para gastar no país visitado. Muito triste.

Estou decorando as minha linhas para o diálogo teatral das fronteiras a ser travado com os agentes de imigração. Estar desempregado é um perigo nesta hora. Por isso, acho que vou dar uma resposta que sempre quis, mas nunca tive coragem. Antes de sair do meu último emprego, resolvi fazer vários exames médicos para aproveitar o plano de saúde. Toda vez que eu chegava no consultório, era submetido a um interrogatório intrigante. A última pergunta era sempre a mesma: “Qual é sua profissão?”. No Gastro, fiquei pensando: “que porra o meu emprego tem a ver com o meu pâncreas?”. Minha vontade era responder o seguinte: “Sou astronauta”. Mas ainda não tive coragem. Fui acometido pela mesma vontade em todos os outros consultórios. Quem sabe mando essa para o agente espanhol.

Se não quiserem me receber em seu precioso país porque estou desempregado, FODAM-SE. Volto pra casa, numa boa. Mas suponho que não terei muitos problemas, uma vez que possuo passaporte norte-americano. Sou formado em jornalismo, mas não me orgulho muito disso. A principal coisa que aprendi na faculdade foi que nunca se deve acreditar no que é dito ou escrito por um jornalista. Aliás, desconfiem do que é escrito aqui na Revista Foda-se. Algumas vezes exagero, omito, minto, engano. Portanto, não gosto de dizer que sou jornalista. Nem numa fronteira. Vou concretizar o meu fetiche. Vou dizer que sou astronauta. Mas posso estar mentindo...

Levo no bolso praticamente todas as minhas últimas economias. O pouco que consegui juntar do meu último emprego. Sorte que as passagens aéreas internas da Europa custam zero Euros. Pois é, acredite: Comprei as passagens para Itália e Inglaterra por zero Euros, e mais uma merreca em taxas (Aqui a dica:
www.ryanair.com). Mas, de qualquer maneira, sei que na volta estarei mais liso que o cabelo da Catherine Boceta Jones. Isto é, se eu voltar. No fundo, levo a esperança de encontrar alguma coisa que me faça ficar por lá por um tempo. Quem sabe não me apaixono por um camelo no Marrocos?

Isto não é um adeus, mas preciso agradecer por todas as mensagens que tenho recebido através da Revista Foda-se, no Orkut e no Gmail. A maioria delas, de incentivo e congratulações. E algumas malcriadas também, que são sempre tão bem vindas quanto qualquer outra. Nesta semana, ultrapassamos o incrível número de mil visitantes únicos! São mais de mil desocupados que leram o que eu escrevo por aqui. Vocês não têm nada melhor pra fazer não? De qualquer modo, obrigado. Ao lado dos discos que gravei com as duas bandas que tive, SereS e Gentle Pains, esta revista é um dos orgulhos que carrego. Descobri com ela que vou tentar ganhar a vida escrevendo. Sei que vou passar sufoco, mas... foda-se.

Zé McGill

* Para ser informado sobre as atualizações da Revista Foda-se, escreva um e-mail para
revistafodase@gmail.com, com o assunto “Foda-se”. Ou entre na comunidade do Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=46908949

* Amy Winehouse, Valerie - http://www.youtube.com/watch?v=lqSKVv6YO8g

* John Frusciante, How Deep Is Your Love - http://www.youtube.com/watch?v=-tKQWvNZT0k

terça-feira, 15 de abril de 2008

ADEUS, PIGMEU ARTILHEIRO


Romário foi o maior jogador de futebol que eu vi em ação. Seria injusto dizer que foi o Zico, maior ídolo da história do meu Flamengo. Quando o camisa dez da Gávea estava no auge de sua forma, no início dos anos 1980, eu era um pirralho magricelo que fedia a Yakult e tinha as atenções voltadas para as corridas de chapinha na areia do playground do meu prédio, o Forte dos meus soldados de Playmobil e a Geléia de Mocotó Imbasa. Não entendia nada de futebol, apesar de já me considerar um rubro-negro fanático.

A partir dos dez anos de idade, já em 1987, comecei a tomar gosto pela coisa e passei a acompanhar de perto o dia-a-dia do Flamengo e do futebol em geral. Naquele mesmo ano, tive os primeiros espasmos de torcedor doente no chão da sala ao ver o meu time sagrar-se tetracampeão brasileiro, com Zico ainda em campo e jogando muito. E vi também o Vasco de Romário levar a nossa taça de campeão carioca. Ele como artilheiro, pelo segundo ano consecutivo.

Mas foi no ano seguinte que Romário entrou acidamente na minha memória, ao aplicar um balãozinho no goleiro Zé Carlos antes de tocar a bola com a cabeça para o fundo do barbante, no primeiro jogo da decisão do estadual de 1988. Até hoje sinto azia ao relembrar o lance. Depois veio o jogo do Cocada e o gol dele no último minuto, mas o que ficou foi a humilhação imposta pelo camisa onze do time de paneleiros portugueses na primeira partida da decisão. Até então, meu sentimento com relação àquele semi-anão metido a gostosão poderia ser resumido em uma palavra: ódio.

Para a minha sorte, e da torcida do Flamengo, o pigmeu artilheiro mudou-se para a Holanda pouco depois daquela final. Me limitei a assistir as traquinagens dele pelo PSV através dos Gols do Fantástico, aos domingos. A cada gol seu, soltava para mim mesmo um comentário do tipo: “Isso. Fica aí, seu escroto, do outro lado do mundo”. Mas foi numa dessas noites de domingo, entre uma dentada e outra na pizza de presunto, que gelei com o gol mais bonito da rodada. Léo Batista, o narrador-highlander, dizia algo próximo a: “E o Baixinho continua aprontando das suas na Espanha. Desta vez a vítima foi o Real Sociedad...”.

Naquele lance, já atuando pelo Barcelona, Romário recebeu um lançamento longo e matou a bola no peito como quem diz: “Vem cá neném, que o papai te dá um trato”. Em menos de um segundo, sem deixar a bola quicar na grama, emendou com a parte interna do pé direito e encobriu o goleiro, que, no susto, ainda tentou evitar o gol, mas tombou feito um saco de batatas na pequena área enquanto observava o objeto do seu fracasso invadir a rede. O lance todo não durou mais de quatro segundos. E ele fez aquilo a uma distância de cerca de dez metros da grande área. Sinistro, muuuito sinistro.

Foi automático. Depois daquele gol, passei a observar o duende marrento com outros olhos. Com um misto de admiração, incredulidade e carinho. Compreendi que, quando Romário estava em campo, não era o futebol que acontecia, mas a vida, a morte e todas emoções que vêm incluídas no pacote. Eu testemunhava os shows do Júnior no Maracanã, fiquei embasbacado com o gol do Maradona sobre a Inglaterra na copa de 86 (aquele em que ele dribla cinco antes de marcar) e lembrava do golaço do Van Basten pela Holanda, naquele chute sem ângulo. Mas o lance do Romário era especial. Sobretudo por sua frieza, antes, durante e depois do gol.

Frieza esta que seria explicitada na Copa do Mundo de 1994. Lembra da disputa de pênaltis, na final contra a Itália? Lembra como o Romário caminhou devagar e rebolativo para o local da cobrança? Lembra como ele chutou e olhou a bola bater caprichosamente na trave antes de entrar? E, finalmente, lembra como ele andou de volta para o centro do gramado, após cumprir sua missão, sem abrir um sorriso nem soltar uma bufada de alívio? Pois é. Foi assim que ele terminou de ganhar a Copa para o Brasil. As defesas do Tafarel, o comando do Dunga e a habilidade do Bebeto foram importantes, mas sem o Romário, não teríamos escutado o Galvão Bueno berrar bisonhamente enquanto aplicava uma gravata no Pelé: “É tetraaa! É tetraaa! É tetraaa!”.

Seis meses depois da Copa, Romário chegava ao Flamengo. Acabara de ser eleito o melhor jogador do mundo. Quando ele vestiu pela primeira vez o manto sagrado, as mágoas do passado viraram fumaça. Foram poucos títulos relevantes nas quatro temporadas em que defendeu o Rubro-negro, mas em compensação, fomos presenteados com o elástico sobre o Amaral, a sagacidade oportunista diante da falha do Márcio Teodoro, uma voadora no peito do gigante covarde do Vélez Sarsfield e quatro artilharias consecutivas do Campeonato Carioca. Ah, e ainda fomos à forra com os vascaínos. Perdi a conta das vezes em que vi o pigmeu mandar a torcida bigoduda calar a boca no Maracanã.

Ontem, 14 de abril de 2008, Romário anunciou o encerramento da carreira, aos 42 anos de idade. Pena que ele não chorou durante a entrevista. Eu sempre vibrei com o choro sincero do marrentinho. Dentro de campo, era um matador gelado. Mas fora dele, um coração mole e uma sinceridade transbordante.

Romário me ensinou duas coisas: a primeira, é que a humildade é facultativa diante do gênio. A marra dele sempre foi justificada pelos gols que fazia e pela coragem nas atitudes e declarações. O segundo ensinamento foi dado ao longo dos anos, mas principalmente no final da carreira, quando, já acima da casa dos quarenta, chegou ao milésimo gol e provou que, para o jogador de futebol, a inteligência é mais importante do que a forma física ou a habilidade.

Fica aqui a homenagem da Revista Foda-se ao pigmeu artilheiro. E a certeza de que jamais surgirá no futebol alguém como ele.

Zé McGill



* Aqui está o vídeo com o gol antológico de Romário pelo Barcelona:

terça-feira, 8 de abril de 2008

COMIDA CHINESA PARA OZZY OSBOURNE


Era horário de almoço no restaurante de comida chinesa em que eu trabalhava como entregador, em Berverly Hills, Los Angeles, 1998. Entediado com o movimento fraco daquela tarde, eu aguardava a próxima entrega esparramado sobre a cadeira. Estava quase caindo no sono quando o telefone tocou. A atendente anotou o pedido e colocou duas sacolas grandes sobre o balcão. No cartão que vinha grampeado em uma das sacolas, o nome do cliente: Osbourne.

Ozzy e sua família viviam em uma mansão situada a poucos quarteirões do restaurante, e eu já os havia visto freqüentando o local. Gostavam da comida refinada do Chin Chin, especialmente do Tangerine Beef, que estava entre os pratos daquele pedido. Só poderia ser ele, pensei. Levantei da cadeira e procurei pelos dois argentinos que trabalhavam comigo como entregadores. Não estavam na área. O caminho estava livre e aquela entrega seria minha. Os argentinos eram gente boa, e a vez da entrega era de um deles, mas não é todo dia que se leva comida para Ozzy Osbourne. Portanto, agarrei as duas sacolas e corri desembestado para o carro.

Girei a chave e dei a partida no motor do meu Ford Festiva vermelho – um modelo idêntico ao Fiat Uno brasileiro. No caminho até a Beverly Drive, rua onde ficava a residência dos Osbourne, senti meus pés tremerem levemente sobre os pedais do acelerador e embreagem. Eu estava tenso. Olhei para as duas sacolas gordas sentadas no banco do carona e ri sozinho, imaginando se ali dentro haveria algum prato preparado à base de morcegos. O Príncipe das Trevas havia encomendado cento e vinte dólares de comida.

Foram menos de dez minutos até a intimidadora mansão branca de Ozzy. Desliguei o motor e fiquei mirando a casa por alguns segundos, de dentro do carro. Quando saltei, com uma sacola pesada em cada mão, me senti como o sujeito da foto da capa do filme O exorcista. Entrei pelo jardim e apertei o botão da campainha. Esperei uns cinco minutos até que Jack – o filho mais velho – abrisse a porta. Cumprimentei o gordinho que, no auge de sua adolescência, parecia uma bolinha de meleca, cheio de espinhas na cara. Ele olhou para as sacolas de comida, arrancou-as das minhas mãos, e saiu gritando pela casa: “Daddy, daddy, food is here” (“Papai, papai, a comida chegou”).

Fiquei em pé ali, espiando o hall de entrada daquele palácio por alguns segundos. De repente, senti uma mão tocar o meu ombro direito. Quando me virei, ali estava Ozzy, com um regador de plantas na mão, todo vestido de preto. Ele estava cuidando do jardim, mas eu não notara sua presença quando passei por ali. “Hello. Please wait here” (“Olá. Por favor, aguarde aqui”), pediu com sotaque britânico carregado. Observei enquanto Ozzy arrastava uma das pernas até um armário no canto da sala. Abriu uma das gavetas e, sem contar, puxou um bolo de notas verdes para o pagamento da comida.

Enquanto isso, eu tentava pensar em alguma coisa legal para dizer ao homem de preto. Eu era, e ainda sou, fã do Black Sabbath – grupo que ele ajudou a formar na Inglaterra, na década de 60. Mas quando ele voltou com o dinheiro, não consegui dizer nada melhor que: “Hey Ozzy, eu sou seu fã. Eu sou do Brasil e é uma honra entregar comida para você”. A resposta do Ozzy não poderia ser melhor: “Whatever”. O whatever dele era uma forma sutil de dizer: Foda-se. Eu não estou interessado. Tchau.

Saí de lá feliz da vida. Liguei o som do carro no volume máximo e coloquei uma fita cassete com minha música favorita do Sabbath, Sweet Leaf. Antes de partir, contei o dinheiro e constatei que Ozzy havia me presenteado com oitenta dólares de gorjeta! Foi a maior gorjeta que recebi em quase um ano como entregador. E o whatever que recebi foi ainda melhor. Até que foi merecido.

Quase dez anos depois, na última quinta-feira, fui conferir o show do Ozzy na HSBC Arena (RJ), em noite chuvosa. Antes da apresentação, o telão exibiu alguns esquetes em que Ozzy aparece escrotizando filmes como A rainha e seriados como Lost. É de mijar de rir. Em seguida, as luzes se apagaram e o clima ficou por conta de Carmina Burana nos alto-falantes. Clichezão safado.

A primeira música do set list foi I Don’t Want to Stop, do recém-lançado álbum Black Rain – o primeiro em que Ozzy garante ter composto e cantado as músicas 100% sóbrio. Mas sobriedade não significa caretice para o quase sexagenário Sr. Osbourne. E o show dele é diversão garantida. Entre uma música e outra, chegava ao microfone para dizer: “Let’s go fucking crazy!!”. Não faltaram baldes d’água atirados contra a platéia, tampouco os chifrinhos vermelhos de diabo enfiados na cabeleira. Ah, ele também mostrou a bunda murcha para o público.

A noite seguiu com sucessos de sua carreira solo como Bark at the Moon e Mr. Crowley, que foram recebidos com entusiasmo pela juventude metaleira. Aliás, mais uma vez, o preço hediondo dos ingressos (pista = R$180,00) espantou muita gente. Nem mesmo os dois shows de abertura - Black Label Society e Korn – foram suficientes para assegurar a lotação máxima da casa. Já está na hora de reverem o esquema das carteirinhas de estudante, porque o feitiço virou contra o feiticeiro: os estudantes acabam pagando um valor maquiado que na verdade deveria corresponder ao preço cheio dos ingressos. E quem não é estudante paga o pato.

Mas vamos voltar ao que interessa: - pelo menos para mim, o que realmente interessava ali era escutar alguns clássicos do Black Sabbath. Então, tome War Pigs, Iron Man e Paranoid – esta última fechando o show, com direito à rodinha de porrada. Tá bom? Ainda Não? Então leva de lambuja a melhor música da carreira solo do Ozzy, No More Tears, que não fazia parte do repertório oficial da turnê. Pronto. Agora sim. Já valeu a pena.

Eu esperava uma banda afiada e um cantor com as cordas vocais comprometidas pelo tempo. Mas o que vi foi justamente o contrário. Enquanto os músicos escorregavam em seus instrumentos, Ozzy Osbourne garantia o espetáculo com os olhos esbugalhados e a inconfundível voz esganiçada em perfeitas condições. Por outro lado, o som do P.A. estava embolado e ainda tivemos todos que aturar longos minutos de um exibicionismo desnecessário do guitarrista Zakk Wilde, num solo masturbador interminável.

Isso, sem falar nas faixas que poderiam ter sido poupadas, como a balada de gosto duvidoso Mama I’m Coming Home e o hard rock farofeiro I Don’t Want to Change the World. Aí, foi a minha vez de ir à forra. Foi a minha vez de olhar de lado e dizer: Whatever, Ozzy.


Zé McGill


*Ozzy escrotizando no Youtube:

**Este texto foi publicado na revista Rock Press (06/04/2008): http://www.rockpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=2478

quarta-feira, 2 de abril de 2008

MEDO DE MAR


Pedi demissão. Trabalhava há pouco mais de um ano em uma gravadora multinacional e trilhava o caminho para me tornar um executivo do mercado fonográfico. Cansei. Agora percorro os trilhos da vagabundagem e posso me considerar um desempregado feliz. Meu futuro não será mais planejado em longo prazo. Amanhã, não sei como será. Tudo pode piorar, tudo pode melhorar. Estou na pista. Ou melhor, na areia da praia.

Vagabundo disciplinado, acordei às oito horas da manhã de ontem. Combinamos, eu e dois amigos, uma pequena viagem até a melhor praia do Rio de Janeiro, a Prainha – uma das poucas da cidade onde a areia não fede a chulé e não se encontra camisinha usada nem tampa de privada boiando na água. Há anos não experimentava o prazer de uma praia vazia em plena terça-feira. Como é boa essa vida de vagabundo!

No paraíso da Prainha, a água do mar é verde e clara como uma limonada. Não fosse a maré bravia, teria ficado boiando por horas de barriga pra cima feito um leão marinho preguiçoso no esquema “você deságua em mim e eu oceano”, bem cafajeste mesmo. Armamos a barraca para aliviar o calor do sol e sentamos nas cadeiras de praia. Desce uma cerveja, sobe um baseado. Que belezura. Ficamos sentados ali observando um maluco que se aventurava nas ondas de dois metros, equipado apenas com pés de pato.

Comentávamos a respeito da impavidez daquele sujeito quando lembrei de um episódio traumatizante vivido naquele mesmo mar, muitos anos atrás. Eu era adolescente e feliz proprietário de uma morey boogie, mas já me considerava um intrépido bodyboarder. E foi ali, na mesma Prainha, que cai na água e parti destemido pra cima da arrebentação. Furei as primeiras ondas e nem havia respirado direito quando dei de cara com uma morra colossal, a última onda da série. Tomei na cabeça. Passei alguns segundos liquidificando no fundo, batendo as costas na areia e engolindo um punhado de água e sal.

Voltei à superfície abrindo a boca para sugar o máximo possível de oxigênio para dentro dos pulmões, emitindo um urro desconcertante. Trepei na prancha e colei a testa em cima dela para retomar a consciência. Comecei então a sentir uma fisgada violenta na coxa direita: câimbra. A dor aguda impossibilitava qualquer movimento e por isso me distanciei da arrebentação. Um surfista adulto que remava por ali, notou o meu aperto e perguntou: “Ô muleque, tudo bem aí? Quer um empurrãozinho?”. Nem pensar! Imagina se eu, bodyboarder arrojado que era, toparia descer uma onda empurrado. “Não, não. Tá tranquilo. Tô só esperando a próxima série”, respondi. Que palhaço.

Meu orgulho seria tragado pelo oceano dez minutos depois, quando, ainda imóvel sobre a prancha, olhei para a direita e notei que uma enorme medusa boiava a poucos centímetros de minha perna paralisada. A medusa é um invertebrado aquático de corpo gelatinoso, em forma de guarda-sol. Uma água viva gigante, com tentáculos venenosos. A visão era aterrorizante. Mijei na sunga. E fiquei torcendo para que aquele monstro se afastasse dali. Mas aí me ocorreu que o odor da urina atrai tubarões e eu já estava bem afastado da praia, flutuando isolado. Presa fácil.

Sempre tive verdadeiro cagaço de tubarão. Acho que vi filmes demais quando era pequeno. A paranóia era tanta que eu chegava ao ridículo de nadar rápido dentro da piscina, com medo de ser abocanhado pela besta imaginária. Quando pulava pra fora da piscina, ofegante sobre a borda, e me perguntavam o que estava acontecendo, eu dizia que estava apostando corrida. Hoje, me recuso a mergulhar em alto-mar. Especialmente com óculos de mergulho que possibilitam enxergar ao longe. Imagino logo um cardume de tubarões se aproximando. Sei que o fundo do mar é maravilhoso, um outro mundo, com estrelinhas brilhantes, cavalos-marinhos minúsculos e conchinhas muito meigas, porém, não, obrigado. Tô fora.

Mas voltando àquela tarde adolescente na Prainha, o episódio da medusa e a paranóia do mijo me fizeram pedir arrego. Quando avistei aquele surfista novamente, deixei a vergonha de lado e pedi socorro. O cara era gente fina e foi solícito. Desceu da prancha e me empurrou na primeira onda que passou. Quando cheguei à beira, a perna ainda doía, e eu mal conseguia ficar em pé. As marolas varriam minhas canelas, a presilha enrolou-se nos meus pés e eu caí de cara na areia. Chegada triunfal. Uma dupla de jogadores de frescobol presenciou tudo. E não conseguiram conter o riso. Humilhado, tentei me levantar enquanto tropeçava nos pés de pato.

A sensação de derrota deu um ponto final prematuro à minha carreira de surfista. Mas o medo de mar persiste. E não apenas pelas feras que habitam o oceano. O simples fato de não enxergar o que está abaixo da superfície me incomoda profundamente. Mas hoje, pelo menos consigo nadar tranqüilo pelas piscinas do mundo.

Zé McGill

segunda-feira, 24 de março de 2008

NA NATUREZA SELVAGEM


Aluguei o filme Na natureza selvagem um mês antes dele chegar aos cinemas. Minha locadora tem uma seção de DVDs área 1, e ali, geralmente encontro filmes sem legendas em português que acabaram de ser lançados nos seus países de origem. Levo-os para casa e assisto no meu Playstation 2. Assim como no caso do diretor Sean Penn, que confessou ter julgado o livro original de Jon Krakauer pela capa no ato da compra, julguei o filme pela foto da caixinha do DVD. E foi o melhor chute que dei nos últimos tempos.

Na Natureza Selvagem (Into the Wild, em inglês), é baseado na estória real do jovem Chris McCandless, que logo após a formatura, decide doar todas as suas economias - 24 mil dólares - a uma instituição de caridade. Em seguida, cai na estrada rumo ao oeste norte-americano e, sobretudo, em busca de uma aventura solitária na friagem do Alasca, onde pretendia viver da terra por alguns meses.

Entretanto, ao contrário do que se poderia presumir, nosso protagonista não era nenhum hippie doidão. Além de melhor aluno da classe, McCandless era um cara determinado. Quando decidiu mandar o foda-se para as agruras da sociedade, levou o negócio a sério: queimou o pouco de dinheiro que lhe restava, cortou a carteira de identidade em pedacinhos e adotou um novo nome. Isso é que é ser punk.

Apesar de radical, McCandless era dono de uma personalidade cativante e de um espírito libertário contagiante. Ao longo de sua jornada pelo oeste, deparou-se com diversos personagens, e não é difícil notar as marcas profundas que o jovem de vinte e poucos anos deixava nas pessoas que cruzavam seu caminho.

Entre eles, vale citar um casal de coroas hippies que supera suas crises de relacionamento com a ajuda do garoto, uma cantora adolescente que se apaixona por ele e um velhinho solitário que propõe adotá-lo. Este velhinho, por sinal, dá um banho de interpretação. O ator, Hal Holbrook, foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por este papel, e só perdeu para o imbatível Javier Bardem, de Onde os fracos não têm vez.

Sobre o ator principal, o sujeito que interpreta Chris McCandless, vale atentar para o que o diretor Sean Penn - um dos caras mais legais de Hollywood - tem a dizer: "Ele é muito talentoso. Esta foi a performance mais significativa de um jovem ator por várias gerações". O nome da fera é Emile Hirsch (foto), que despertou a atenção de Penn por seu desempenho em Os Reis de Dogtown. Sua atuação é de fato marcante em Na Natureza Selvagem. Alguns dirão que trata-se do novo Leonardo DiCaprio...

A trilha sonora é um parágrafo à parte. O papel das trilhas no cinema é colaborar com a construção do clima. E foi isso o que fez Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam, em seu primeiro disco solo. Sim, a trilha do filme tornou-se o primeiro álbum de uma carreira que promete. Para este trabalho, Vedder parece ter incorporado o espírito do protagonista e compôs preciosidades como No Ceiling, Hard Sun e Society, que nada ficam a dever às melhores baladas da banda de Seattle.

Talvez o único desacerto de Sean Penn ao transpor o livro de Krakauer e a história de McCandless para a telona tenha sido o fato de focalizar demais as atenções na crise familiar do rapaz. O enredo dá margem a uma conclusão equivocada de que sua fuga seria essencialmente fundamentada na raiva e decepção que alimentava com relação aos pais.

De fato, a descoberta por McCandless de que seu pai (William Hurt, no filme) tinha uma outra família enquanto o criava, gerou no garoto uma revolta até compreensível. Afinal, a descoberta da condição de “bastardo” não deve ser uma surpresa agradável. Mas o diretor e o roteirista parecem ter relegado a segundo plano a indignação essencial do personagem que, na verdade, era voltada para a hipocrisia e as futilidades de seus pais, da sociedade, do mundo. Estas foram as grandes motivações de sua fuga. E o cara teve a coragem de fazer o que eu, você, todos nós já tivemos vontade de fazer um dia, mas não tivemos coragem: largar tudo.

A qualidade de um filme pode ser medida pela edição, pelo roteiro, pela fotografia - que, aliás, é arrasadora neste filme - ou pelo trabalho dos atores e do diretor. Mas o que faz um filme marcar a vida das pessoas é o impacto que ele causa. E o impacto que me causou Na Natureza Selvagem fez com que eu corresse à livraria mais próxima no dia seguinte em busca do livro e do CD da trilha sonora. Quase dois meses após aquela minha ida à locadora, continuo pensando no filme todos os dias.


Zé McGill


*Este texto foi publicado na revista ROCK PRESS em 20/03/08. Segue o link:

segunda-feira, 17 de março de 2008

D U N E - ALUCINANDO NO DESERTO


“Meu amor, acho que chegou a hora. Eu vou morrer agora”. Esta foi a singela frase que dirigi à minha namorada no auge daquela bad trip. Estávamos caminhando pelo deserto, no estado de Nevada, sob o sol escaldante do meio-dia, à procura do meu carro. Voltávamos de uma festa rave chamada Dune, onde me empanturrei de um coquetel de drogas que por pouco não transformou meu cérebro em patê.

A rave aconteceu em algum final de semana do verão norte-americano de 1998. Naquela época, eu ganhava a vida entregando comida chinesa em Beverly Hills e minha namorada, Christianne, trabalhava no caixa de um restaurante caribenho do bairro de Santa Monica, Los Angeles, onde morávamos havia pouco mais de um ano. Dividíamos um simpático apartamento de três quartos – que ficava pertinho da praia - com Gustavo, um amigo carioca, e Mandeep, um indiano viciado em música eletrônica que fora criado na Inglaterra. Foi dele a idéia de irmos à festa no deserto.

Eu não era nenhum fã de música eletrônica e nunca havia estado numa rave, mas a idéia de uma festa no meio do deserto, e regada a LSD, seduziu meu espírito inconseqüente que acabara de completar vinte anos de existência sobre a face da Terra. Portanto, no sábado, após um almoço à base de burritos mexicanos, entramos no meu Ford Festiva vermelho (idêntico ao Fiat Uno brasileiro) e caímos na estrada. Eu, Chris, Gustavo, Mandeep e Vanessa, nossa vizinha nativa da Califórnia.

Foram mais de cinco horas de viagem até a fronteira do estado de Nevada. O cenário era deslumbrante e o astral da tripulação o melhor possível. O clima era de aventura e penetramos o deserto ao som de The Doors, numa consciente perseguição do clichê. Com as janelas fechadas, os incontáveis baseados de skunk transformaram o interior do Ford numa sauna enfumaçada. Mal consegui enxergar a placa que anunciava a chegada à reserva indígena onde se consumaria a famigerada rave.

Mas bastou seguirmos o comboio de automóveis que se formou naquele ponto e, em vinte minutos, chegamos ao local do evento. Estacionamos o carro a cerca de um quilômetro da festa e começamos a andar em sua direção. No meio do caminho, uma dupla de malandrecos latinos ofertava a plenos pulmões: “Ácido! Ácido! Quem vaaai?”. E eu fui. Eu e Gustavo. Nós, que estávamos acostumados a pagar trinta reais por um quadradinho de papel de ácido no Rio de Janeiro, topamos a barganha na mesma hora.

Os caras carregavam o LSD puro em pequenos vidros de colírio e cada gota custava três dólares. Bastava colocar a língua para fora e eles pingavam o alucinógeno sobre ela. Tomei uma gota. O Gustavo, duas. O resto do pessoal foi menos ansioso e preferiu esperar. O Mandeep já havia sumido pelo deserto. Ele era enturmado com os organizadores do evento e correu ao encontro dos amigos ravers assim que desceu do carro, prometendo nos encontrar mais tarde.

Quando chegamos ao local exato da rave, finalmente percebi a dimensão do negócio. O lugar era de uma beleza arrasadora e dez mil pessoas de todas as raças e idades quicavam ao som da batida repetitiva do techno. A área tinha mais ou menos o tamanho de um campo de futebol oficial e era circulada por montanhas de areia fina que faziam jus ao nome da festa: Dune (duna). Uma visão do outro mundo. O caos e a esbórnia haviam se instalado sobre a sílica do oeste americano.

Escalamos uma das dunas para obter uma visão mais ampla da folia modernosa e ficamos ali abraçados por um tempo, eu e Chris. Eu tomara o ácido havia quase uma hora mas a onda insistia em não bater. Então ela me disse que queria experimentar ecstasy. Ok. Vamos nessa. Eu já estava mesmo desconfiado da potência do ácido que os latinos haviam me vendido, e decidi acompanhá-la no comprimido branco de Mitsubishi que tinha até a logo da fabricante japonesa impressa em relevo. Compramos as balinhas ali mesmo, por dez dólares cada, das mãos de um conhecido nosso de Los Angeles chamado Oliver, que freqüentava nossa casa esporadicamente para filar cervejas.

Dez minutos depois, Chris estava vomitando sobre a areia. Era uma reação típica de iniciantes do ecstasy. Segurei sua mão enquanto analisava o líquido que ela havia expelido do estômago. O vômito dela se arrastou por entre os pedregulhos feito uma cobra vadia. A consistência e as cores metálicas do fluído me fizeram perceber que a jornada psicodélica havia começado. Pronto, eu estava louco e a sensação era maravilhosa. Nem esperei ela limpar a boca. Agarrei-a pela cintura e lancei-lhe um beijo de língua demorado.

Depois do beijo, fomos procurar o Gustavo, que havia sumido. Avistamos o cara no pico de uma duna vizinha, a poucos metros dali. Estava sozinho, de cócoras e sacudindo a cabeça ao ritmo da música. Chegamos até ele e notei, no instante em que ele se virou para nos saudar, que suas pupilas estavam altamente dilatadas. Era outro insano na noite fria do deserto. Acendemos mais um baseado e nos abraçamos, os três. Lembro de olhar para o Gustavo e dizer: “Eu te amo”. E ele me devolveu a sinceridade com a mesma frase. A Chris, que contemplava a cena com os olhos cheios d’água, não resistiu e entrou no clima: “Eu também amo vocês!”.

Descemos para nos misturar com a multidão e entrar na dança. O ecstasy é uma droga sintética que induz o indivíduo a uma sensação de euforia e bem-estar. Aliado ao trance (transe, em português), um estilo mais suave de música eletrônica, fez a nossa cabeça durante horas. As melodias progressivas e as batidas que emanavam das caixas de som de três metros de altura nos hipnotizaram. A nós e a todos ao nosso redor. Estava tudo lindo, no maior clima de paz e amor. Olhei para as dunas e descobri que as montanhas de areia também estavam dançando. Literalmente.

Uma mulher completamente nua, coberta apenas por um vestido de plástico transparente colado ao corpo, entrou na nossa roda distribuindo flores e cogumelos. Fiquei mirando os bicos dos seios amassados contra o plástico enquanto ela colocava um pequeno cogumelo ressecado na palma da minha mão. Mandei aquele fungo colorido pra dentro sem vacilar. Naquele momento, minha razão vagava por algum planeta distante e nem me dei conta da mistura química explosiva que eu estava fabricando.

Continuei encarando a mulher de plástico, que sorria e desejava paz a todos. Notei quando ela se dirigiu ao Gustavo e, encantada com o fato de sermos brasileiros, perguntou: “Como se diz peace em português?”. Ao que ele respondeu: “Peace in portuguese is foda-se”. E a palerma plastificada saiu dizendo “foda-se” para metade da festa na maior animação.

De repente, senti um corpo desabando sobre meus pés. Era um jovem gringo que se estrebuchava em convulsões. Reparei assustado que sua veia jugular estava roxa, inchada e enrijecida. Alguns segundos se passaram enquanto eu presenciava aquela bizarrice, até que finalmente alguém da organização do evento apareceu e puxou o sujeito para um canto. Aquilo era alguma espécie de overdose, e eu senti o primeiro calafrio.

O segundo veio quando começou a amanhecer. No escuro, não era possível perceber, mas com a luz do dia, reparei que os rostos das pessoas, inclusive o meu, estavam tensos e embranquecidos, cobertos de areia do deserto. Parecia que tínhamos envelhecido trinta anos. Aquela maquiagem natural deu a todos o aspecto de zumbis e a rave, que antes era uma festa cheia de vida, pareceu se transformar num culto misterioso às drogas e à música mecânica. E eu e meus amigos não fazíamos parte daquilo. O medo e a paranóia invadiram meus pensamentos. Começava ali minha primeira (e única) bad trip - a expressão universal designada para sensações físicas e psicológicas cabulosas provocadas pelo uso excessivo de drogas.

Em seguida, fomos caminhar pela areia e esbarramos no corpo do Mandeep, estatelado no solo com um lenço cobrindo seu rosto. Congelei com aquela visão. Concluí que ele estava morto e entrei num processo silencioso de pânico. Percebendo a minha consternação, o Oliver, que estava por perto, aproximou-se e tentou me acalmar. Ele explicou que aquilo era normal e que o Mandeep havia apenas tomado muito G – um líquido salgado, muito popular entre os ravers, e que mais tarde descobrimos tratar-se de uma bomba de hormônios. Segundo Oliver, ele estava "apenas" desmaiado e o lenço sobre o rosto era para proteger contra a luz do sol.

Pra mim, foi a gota d’água. O pessoal também sentiu o clima mórbido que havia se instalado e resolvemos cair fora dali. No caminho até o carro, eu estava num estado de choque que inspirava a preocupação dos amigos. É difícil traduzir em palavras a onda errada em que eu me encontrava. Lembro de apertar com força a mão da minha namorada enquanto marchava pelo deserto num pesadelo acordado que eu acreditava ser a realidade. Ao mesmo tempo, eu devorava uma garrafa de água mineral na tentativa de recuperar os sentidos.

Minha sensibilidade havia aflorado de tal forma que eu realmente acreditei quando a Vanessa me disse: “Não beba tanta água. Você vai acabar se afogando”. Sei que a intenção dela era a melhor possível, mas ao ouvir estas palavras, me joguei no chão da estrada e achei que estava de fato me afogando. Foi então que disse a Christianne que minha hora havia chegado. Senti que a morte estava me vigiando de perto, numa ronda macabra. Mas acho que ela decidiu me dar uma colher de chá, pois consegui me levantar e caminhar até o carro.

Chegamos em casa e eu passei dias me recuperando. Não falava com ninguém e fiquei uma semana sem ir trabalhar, achando que nunca mais voltaria ao normal. A intensidade daquela experiência no deserto me causou um impacto tão profundo que até hoje, dez anos depois, recuso qualquer tipo de substância alucinógena ou droga sintética. Prefiro ficar na cerveja e nos eventuais baseados. Nunca mais fui a uma rave. E nem pretendo. Aliás, alguém deveria criar a rave do funk, movida a James Brown, Matata, Rose Royce, Kool & The Gang, Sly Stone e cia. Ninguém precisaria de ecstasy para dançar até o amanhecer.

Apesar dos horrores descritos acima, não renego os experimentos entorpecidos da minha juventude. Tive incontáveis viagens válidas - inclusive esta bad trip - que contribuíram para um maior conhecimento das minhas questões existenciais e espirituais. Por isso mesmo, recomendo a qualquer pessoa pelo menos uma experiência alucinógena na vida.

Zé McGill


* Encontrei no Youtube um vídeo da festa Dune, de 1999 - um ano após a nossa. Até a mulher de plástico aparece. Confiram: http://www.youtube.com/watch?v=E2C7eK46B-k

domingo, 9 de março de 2008

A METEOROLOGIA DA VIDA


A previsão é de chuva para o final de semana. Por isso mesmo, abro o armário e saco um par de chinelos e uma bermuda. Vou à praia. Não acredito mais na meteorologia: não desde a última vez em que realmente confiei nela - e fui traído.

Meu casamento estava em ruínas e eu procurava um jeito de melhorar as coisas. Pensei que um final de semana na praia, com cerveja, camarão, uma cama gostosa numa pousada, e muito sol, nos faria bem. Consultei a previsão do tempo na Internet e fiquei animado: sol de sexta a domingo. Beleza. Então vamos nessa. Reservei o quarto e partimos os dois para Trindade, no litoral do Rio, ao cair da noite de sexta-feira. Dirigi por quatro horas consecutivas enquanto ela, imersa em sono profundo, babava no vidro do carona.

Acordamos cedo com a luz do sol entrando pela janela e esquentando nossos pés. A pousada ficava na beira da praia e, portanto, o preço da diária era hediondo. Gastei o que não tinha e me afundei ainda mais no cheque especial, mas tudo bem. Tudo ótimo. Precisávamos quebrar a rotina de trabalho-casa-trabalho e o dinheiro seria o último obstáculo. O primeiro seria uma gangue de nuvens negras que se aproximava da praia no momento em que erguíamos os nossos copos para o brinde.

Foram pouco mais de quinze minutos de sol antes que a chuva começasse a aguar nossa cerveja. E ainda tivemos que aturar um grupo de turistas paulistas histéricos que rolavam bêbados pela areia a poucos metros de nós. O resto do final de semana foi todo aguado. Fracasso total.

Os meteorologistas e a chuva não foram os responsáveis exclusivos pelo fiasco daquela excursão praiana, mas o fato é que o casamento acabou um mês depois. O clima de Trindade não ajudou, só que a real crise climática era entre nós dois. Na verdade, faltava clima havia um bom tempo. E clima não pode faltar a um casal. De fato, clima é vital.

O clima é essencial no amor, no sexo, no trabalho, nas relações entre as pessoas, na música, no cinema, na literatura, nas fotografias e até mesmo no futebol. Imagine uma final de campeonato com estádio vazio, sem provocações entre as torcidas, sem o nervosismo da véspera que toma conta de todos os envolvidos na decisão. Sem isso tudo, não há emoção. Não há clima.

Meu filme favorito me ganhou no clima. Chama-se Down by law. Rodado em preto e branco, e dirigido por Jim Jarmusch, logo na primeira cena a câmera desliza pelas ruas de um bairro pobre e faz com que o espectador sinta-se dentro de um carro espiando pela janela, absorto na atmosfera soturna do submundo. Isso ao som de Jockey full of bourbon – uma música sombria de Tom Waits – outro monstro do clima. O filme conta a estória de um cafetão (John Lurie), um DJ (Tom Waits) e um turista italiano aloprado (Roberto Benigni) que se conhecem na prisão e fogem dela juntos, pelo pântano. É clima do iníco ao fim.

No sexo também. Clima é fundamental. Uma vez fui para a cama com uma menina linda, alguns anos mais nova que eu. Era noite de Natal e ela promoveu uma daquelas festas em que as pessoas vão para se embebedar após a ceia com a família. Estávamos curtindo um amasso quente num canto escuro da sala quando ela me pegou pela mão e me levou para o quarto dela.

O recinto era decorado com cores fresquinhas como amarelo claro e rosa-bebê. Notei que dezenas de bichinhos de pelúcia me fitavam com olhos plastificados e cheios de ternura. Então ela ligou o ar-condicionado numa temperatura congelante e tirou a calcinha. Fiquei analisando os pentelhos ruivos dela por alguns segundos enquanto ouvia as risadas embriagadas dos convidados na sala-de-jantar. Finalmente parti pra cima dela e... brochei. Pois é, não tinha clima. Acho que a culpa foi daqueles bichinhos de pelúcia.

Criar clima pode ser uma tarefa árdua. O sujeito pode até recorrer ao uso de uma luz especial, música, incenso e entorpecentes, mas o genuíno clima perfeito geralmente é espontâneo e natural. Talvez por isso eu prefira a chuva ao sol. A chuva tem uma capacidade singular de criar clima. Me dá prazer assistí-la cair pela janela no final da tarde e escutar o ruído causado pelo contato dos pingos com o solo. O cheiro da terra molhada, o vazio silencioso das ruas, a purificação do ar. Isso tudo me dá um certo barato. Já o sol me deixa inquieto. Faz com que eu me sinta na obrigação de sair pra rua.

De hoje em diante, vou viver em busca dos climas. Vou estudar a meteorologia da vida. Não vou mais cometer a audácia de tentar prever o comportamento da natureza, e nunca mais vou consultar a previsão do tempo.

Zé McGill

*Clique aqui e assista a um trecho do filme Down by law, no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=isLpP4XN0MM