
Adeus hexa, adeus Libertadores, adeus Caio Harry Potter Júnior. Olhei o Flamengo contra o Atlético Paranaense pela televisão no último domingo. Um olho brilhou de tristeza pela apatia e covardia do time, mas o outro brilhou diferente, aliviado com a saída iminente de um técnico que me causou um dos sentimentos mais esquisitos que existem: pena.
Quando li que Harry Potter admitiu ainda não ter encontrado a formação ideal da equipe na trigésima sexta rodada do campeonato, deu pena. Quando ele disse que o Frambueza foi o melhor em campo contra o Botafogo, deu pena. Quando declarou, numa entrevista coletiva, que seu sonho era um dia ter o nome gritado pela torcida... misericórdia. Coitado.
A gente sabe que um técnico é fraco quando uma meia-dúzia de três ou quatro jogadores notoriamente bons de bola vão mal. Foi assim com Leonardo Moura, Ibson, Juan e Marcelinho Paraíba, que tiveram raros momentos de brilho durante o campeonato. E foi assim com o único craque do elenco do Flamengo: Jônatas, que passou o ano inteiro fora até do banco de reservas.
Quando o problema é com apenas um jogador que anda em má fase, tudo bem, aí o problema é o jogador, não o técnico. Mas quando vários jogadores vão mal ao mesmo tempo, há algo errado no comando. O Harry Potter usa óculos, tem varinha de condão, cabelo lambidinho e até que é bem intencionado, mas não sabe falar grosso e escala mal o time. Vide as insistências com Jaílton como zagueiro (cometendo três pênaltis por jogo) e Marcelinho Paraíba (que só faltou chorar para ser escalado em sua posição de origem, no meio de campo).
Se o técnico do Flamengo em 2008 fosse o Felipão, o Muricy Ramalho ou o Mano Menezes, o Jônatas voltava a jogar bola rapidinho. Se bobear, já estaria de volta à seleção. Aliás, se o técnico do Flamengo fosse um desses caras no campeonato que acabou, seríamos campeões. Tínhamos time pra isso. E não há jogador atuando no Brasil que lance uma bola de longa distância, que tenha categoria e visão de jogo como Jônatas Domingos. Que ele é meio doidão, todo mundo sabe. Mas Romário e Maradona também são. Todo gênio é doidão.
O meu avô, que já foi dirigente do Flamengo, conta que um dia chegou no vestiário e encontrou o Jônatas cabisbaixo, quase chorando. Ele já era titular do time, já estava arrebentando e o bolso dele já estava cheio de dinheiro, mas mesmo assim, tinha os olhos cheios d’água ali no vestiário. Meu avô chegou pra ele e perguntou: “Ô Jônatas, que é que há? Tá triste por quê?”. O camisa 5, soluçando, respondeu algo parecido com: “Eu quero voltar pro Ceará, não aguento mais, quero voltar pra minha família...”. Pergunto: É gênio ou não é?
Poucos anos depois, Jônatas carregou o time na conquista da Copa do Brasil de 2006, com ajuda fundamental do Renato Abreu. Não esqueço a comemoração do gol do Renato contra o Ipatinga, naquela Copa do Brasil. O jogo da volta estava empatado no Maracanã quando o Jônatas saiu driblando no meio de campo e lançou uma bola limpinha pro Renato, que chutou de primeira e marcou o gol da vitória. No close da câmera de TV, deu para ler os lábios do Renato durante a comemoração. Ele procurava à sua volta e perguntava: “Cadê o Jônatas? Cadê o Jônatas?”. Queria agradecer o presente. "Cadê o Jônatas", foi o que eu fiquei perguntando ao Caio Potter o ano inteiro.
E agora é isso. O ano acabou e engolimos a pior classificação possível em um Campeonato Brasileiro, que é a quinta colocação. Só não é pior que o rebaixamento. E ainda temos que aturar aquela grande corporação, aquele business, que é o São Paulo Futebol Clube, tomar o nosso posto de maior campeão do Brasil com aquele joguinho safado deles. Você, que não é flamenguista, dirá: “Isso é papo de recalcado”. E é mesmo, mas é também papo de quem não acha legal ver uma empresa ser campeã de futebol.
Quanto ao rebaixamento do Vasco, senti pena (oh, sentimento profano!). Cheguei a torcer pelo time das mulheres bigodudas porque não queria ver tiração de onda por parte do Eurico Miranda – aquele hipopótamo de suspensórios, o personagem mais escroto da história do nosso futebol. Torci pelo rebaixamento do Fluminense. Este sim, merecia. Afinal, todos sabem que o time da burguesia carioca voltou à primeira divisão numa virada de mesa estapafúrdia.
Nós, flamenguistas, tivemos um ano triste. Triste porque o futebol é feito de expectativas e todas as nossas foram frustradas a partir daquela que foi a maior tragédia rubro-negra da história: a derrota por três a zero para o América do México, na Libertadores. Depois vieram outros desastres, como a derrota para o Atlético Mineiro e o empate com o Goiás que, na verdade, foi mais uma derrota por três a zero.
Se tivemos algum momento de alegria em 2008, este nos foi fornecido por um dos nossos maiores ídolos: Renato Gaúcho. Ele, que fez aquele gol insólito contra o Atlético Mineiro, em 1987, e que, agora, comandou o fracasso do Fluminense na final da Libertadores contra a LDU. Valeu, Renato!!! E, no ano que vem, tudo pode melhorar. O Harry Potter já saiu de fininho, temendo ser alvejado pela pedra filosofal das arquibancadas, e o Jônatas vem aí. O Kaiser do Semi-Árido voltará a brilhar. Ele só precisa de um técnico que lhe dê um pouco de carinho e dois quilos de rapadura pra matar as saudades do Ceará.
Zé McGill
Aqui uma pequena amostra do que o Jônatas sabe fazer. Veja sem som, porque a música é uma merda.
http://www.youtube.com/watch?v=jMhwQhAx-QU
Em compensação, aqui está um clipe amador da melhor música do mundo: Gentleman, de Fela Kuti. Pra ouvir no último volume.
http://www.youtube.com/watch?v=-ykpwr8K3M4
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
JÔNATAS PRECISA DE CARINHO
sábado, 22 de novembro de 2008
JOÃO JOÃO E O FORASTEIRO
Estava faminto quando adentrou a taberna naquela noite fria. Colocou o revólver sobre o balcão, tirou o terno e pediu um ovo estrelado com duas fatias de bacon. Sentou-se e abriu bem as narinas para aspirar o cheiro quente de sua refeição, que já flutuava pelo salão. O rádio de pilha tocava um blues dos anos 1930 que falava sobre o encontro de alguém com o diabo numa encruzilhada.
Sentado ao seu lado, um forasteiro franzino engolia calmamente a cerveja morna que descia da caneca de vidro. Tinha um olho cego embaçado, o outro no revólver de João João, que dormia sobre o balcão. Acabara de chegar na cidade e estava à procura do assassino de seu irmão. Agora que o encontrara, sentado logo ao lado com aquela cicatriz indefectível, refazia seu plano de vingança.
O forasteiro ouvira dizer que o ponto fraco de João João residia justamente nos deboches que seu nome composto inspirava, mesmo que ninguém na cidade tivesse coragem de proferir os tais deboches na sua presença. Portanto, foi por este caminho que o forasteiro iniciou o ataque quando o ovo estrelado e os bacons pousaram no colo de seu adversário.
“Boa noite, estranho, qual é a sua graça?”
“E quem é que deseja saber?”, retrucou João João, salgando o ovo sem olhar para o forasteiro.
“Ora, vamos, meu caro. Só estou tentando puxar conversa nesta noite vazia. Você pode me chamar de Zezé”.
João João largou os talheres de metal sobre o prato e finalmente o encarou.
“Me chamo João João”, respondeu, com o bacon entre os dentes.
“Pfff... João João!”, exclamou o forasteiro explodindo numa gargalhada maliciosa e esguichando cerveja por entre os lábios semi-cerrados antes de concluir: “Que raio de nome é esse!?”
Agora de pé, João João passou a mão no revólver e apontou na direção do forasteiro. Sua alma embriagada de cólera desfizera as manias mais excêntricas de sua frieza e uma mecha do cabelo negro e brilhante agora pendia patética sobre a testa em brasa.
“É nome de sujeito homem”, trovejou João João. “Nome de matador, seu filho de uma puta. E tira esse sorriso da cara senão eu te meto chumbo agora mesmo!”
O forasteiro descansou a caneca de vidro sobre o balcão e limpou o sorriso com a manga da camisa. Foi ali que o dono da taberna, um tipo obeso e de bigode ruivo, apresentou Marieta, a escopeta que ficava escondida do outro lado do balcão. Não precisou dizer nada. Bastou apontar, com o cano da arma, o caminho da rua.
Lá fora, o vento corria rasteiro, sujando de poeira o couro das botas de João João. A estrada de terra que passava na frente da taberna dormia deserta no mais negro breu. A única testemunha do duelo que se anunciava era a luz fraca da lamparina de querosene, que dançava preguiçosa na porta da taberna. Nenhum dos clientes teve peito de meter a cara na janela.
João João, que saíra primeiro, empunhava o revólver com raiva. Tanta raiva, que o suor da palma de sua mão tornara escorregadia a coronha do revólver. Seus olhos procuravam a silhueta do forasteiro no meio da escuridão, mas o que avistaram foi a caneca de vidro rolando na direção das botas sujas e derramando o resto de cerveja morna sobre a areia. Nenhum sinal do forasteiro, até que sentiu a garganta sendo esmagada por um braço e a barriga espetada pela ponta de um facão. O revólver de João João quicou pela estrada.
“Vou fazer um X na tua cara, completar o serviço que meu irmão começou”, disse o forasteiro, soltando um bafo quente na parte posterior da orelha de João João.
“Mate-me agora, ou morra depois, seu pedaço de merda”, grunhiu João João.
“Não... prefiro te deixar caminhar por aí, com um X na cara, pra completar a desgraça que esse teu nome ridículo já te traz. João João... pfff. Que nome escroto.”
O facão viajou fundo, do noroeste ao sudeste da face de João João. Deitado em frente à taberna, com o rosto coberto de sangue, ele escutou as gargalhadas e os gritos cada vez mais distantes do forasteiro, que sumiu para sempre no breu da estrada: “João João! Teu nome é tua sepultura! Tua sepultura, João João!”
Aqui o link pro vídeo, que é bem sinistro - http://www.youtube.com/watch?v=3MCHI23FTP8
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
ALESSANDRA NEGRINI NUNCA ME LIGOU
“Toca um funk aí!”
“Hã?”, respondi, fingindo que o volume do som atrapalhava a compreensão daquele pedido lunático.
“Fuuun-kêêê!”, escancarou a ocluda. Pronto. Agora não tinha mais desculpa.
“Pô... mas isso é James Brown. Quer mais funky que isso?”, tentando ser simpático: a ocluda tinha uma bunda legal.
“Eu sei, muito bom! Mas toca aí um funk original.”
“Original, como assim!?”
Afinal, entendi. O “funk original” dela era o pancadão-popozudo-tigrão-carioca.
“Foi mal, não tenho”, aleguei, tentando fornecer um sorriso amarelado.
A ocluda fez beicinho mas sorriu e saiu saltitando pelo sinteco feito uma gazela suntuosa enquanto ajeitava os óculos.
Tudo bem, até acho que o pancadão, ou funkarioca, tem o seu valor, que é uma forma legítima e até divertida de expressão dos esquecidos do esquemão e etc., mas porra, os meliantes do funk norte-americano dos anos 70 é que são os originais, os pais do funk. E quando a ocluda me abordou, o som que rodava no CDJ era Make it funky, do James Brown: uma pedrada violenta, daquelas que fazem até joão-bobo murcho balançar.
Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na bunda da ocluda, lembrei que a festa acontecia em um dos metros quadrados mais caros da cidade, e que os convidados eram daquele time que acha que é cool militar a favor da cultura dos morros sem nunca ter pisado numa favela. De qualquer maneira, o aniversariante (vulgo: patrão) e a maioria dos convidados estavam perdendo a noção do ridículo na pista, bamboleando de tal maneira que não deixavam dúvida quanto ao sucesso da sequência musical a que eu e Lupicínio os submetíamos.
Já perto da meia-noite, entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na mesa de quitutes, o Lupicínio acertou uma leve cotovelada nas minhas costelas e forneceu a notícia aterrorizante:
“Olha quem chegou aí... a tua musa, Alessandra Negrini”.
“Tá de sacanagem... cadê?”, perguntei no susto.
“Ali, malandro!”, apontando para a porta do apartamento.
“Aí, fodeu, não vou mais conseguir tocar.”, avisei, meio rindo, meio sério.
Lupicínio conhecia a minha tara pela atriz Global. Estava farto de me ouvir dizer, no final dos nossos porres pelos botecos sujos, que Alessandra Negrini era a mulher mais tesuda da galáxia. Sim, encabeçando uma lista que conta ainda com as seguintes alienígenas: Catherine Boceta-Jones (aquela égua galesa), Kirsty Alley (a mamãe-delícia do filmeco Três solteirões e um bebê), Mireya Luis (a ex-craque popozuda da seleção cubana de vôlei) e Cláudia Cruz (a apresentadora do RJTV nos anos 90, que fazia um biquinho fatal com a boca enquanto apresentava as notícias de inutilidade pública do telejornal).
Sabedor da minha aflição, Lupicínio não estranhou quando larguei o headphone no meio de Acenda o farol, do Tim Maia, e fui fumar um cigarro na janela. Alessandra já havia sumido na pequena multidão que se formara no corredor colossal que desembocava na “pista”, mas a ciência de sua presença no recinto festivo me perturbava. Entre uns goles na latinha de cerveja e uns tragos no cigarro, fiquei lembrando das fotos da Playboy, em que ela aparece com o olhar mais safado do mundo, posando de prostituta na Lapa. É a melhor Playboy nacional de todos os tempos.
Encostado no parapeito, de costas pra janela, senti a brisa soprar na minha nuca quando Alessandra surgiu na pista. Trajava um vestido preto de tecido leve que denunciava todos os seus volumes mas deixava nuas apenas as canelas brancas e grossas. Segurando uma taça de champagne com uma das mãos e ajeitando o cabelo recém-cortado com a outra, ela entrou na dança timidamente, apesar do esforço dos estranhos em transparecer a maior naturalidade na sua presença. Acho que foi a suposta timidez dela que me encorajou a voltar pra mesa de som.
Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas no popô da Alessandra - que já requebrava bonito na minha frente - relaxei. Passava das duas horas da madrugada quando a vi caminhando em direção à mesa de som, quer dizer, em minha direção. O sorrisinho dela era bem diferente daquele da Playboy. Era um sorriso meio torto, meio encabulado e, ao mesmo tempo, maroto que só ele. Os dois olhões negros me encontraram com cara de panaca, a boca entreaberta. Notei que ela trazia um pequeno pedaço de papel e uma caneta, ambos na mesma mão. Na outra, ainda a taça de champagne. Tirei o headphone da cabeça, enchi o peito de confiança e me preparei para o confronto.
“Oi. Tudo bem?”, ela - colocando a taça sobre a mesa.
“Tudo!”, eu - vermelho, roxo, magenta, sei lá, sou daltônico.
“Adorei o som de vocês. Várias músicas que eu não escutava há um tempão. Vocês tocam sempre juntos? É que eu vou precisar de um DJ pruma festa e queria pegar o telefone de vocês...”.
Olhei de relance pro Lupicínio, com cara de quem pede socorro, mas o puto fingiu estar compenetrado no trabalho, nem tirou o olho do CDJ. Aposto que estava se mijando de rir. Depois ele confessou que ouviu a conversa toda. Mas agora era comigo. A maior tesuda da galáxia estava na minha frente, pedindo o meu telefone e eu queria lhe dizer algo além do meu número. Ela é o tipo de mulher que já escutou toda a sorte de gracinhas e cantadas imbecis, portanto, perguntar se ela gostaria de conhecer a minha coleção de selos estava fora de cogitação. Resolvi então libertar o canalha que mora dentro de todos nós:
“Olha, Alessandra, seria o maior prazer tocar pra você, mas quando é a festinha?”
“É no dia 31 de outubro, sexta-feira. Você pode?” – respondeu, ainda sorrindo torto, mas na maior boa vontade. Percebi que desta vez ela perguntara se eu poderia, e não se nós poderíamos.
“Hummm... dia 31. É o dia do Halloween, né?”
“É mesmo! Coincidência...”
“Pois é, acho que não vou poder, minha mãe não me deixa sair de casa no Halloween...”
“Que história é essa menino, quantos anos você tem?”, o sorriso dela agora era mais espontâneo.
“Tenho 31, mas a minha mãe... sabe como é...”
“Olha, avisa sua mãe que eu tomo conta de você, tá legal?”
“Ahn, sendo assim, anota aí o meu número.”
O dia 31 de outubro já passou e até hoje aguardo o telefonema de Alessandra. Naquela noite, ainda trocamos alguns comentários sobre os CDs, sobre aquele apartamento ancião e sobre a sua futura festa. Alessandra foi embora na hora do parabéns, lá pelas três da madrugada. Saiu de fininho, sem falar com ninguém. Nem comigo. Acho que deveria tê-la convidado para conhecer a minha coleção de selos. E deveria ter pedido o número do telefone dela, entre os goles na latinha de cerveja e as piadas duvidosas sobre o Halloween.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
M A R I N A
No início do crepúsculo, o dedão do pé direito descobriu as costas lisas de uma concha e empregou-lhe uma massagem letárgica. Enquanto isso, a maré enchia apressada e a canela de Marina desaparecia progressivamente na areia encharcada a cada refluxo do mar verde, cor de limonada. Os movimentos de seu corpo carnudo resumiam-se a inclinações dos olhos vermelhos que agora testemunhavam o soterramento de uma comunidade de tatuís.
A lua cheia mirou intrigada a imersão das coxas enquanto o oceano, faminto, lambia as dobras da bunda voluptuosa de Marina. Um carangueijo que passava por ali estranhou a estagnação apática da moça e decidiu provocá-la, investindo bruscamente na direção dos mamilos pontudos, como se ameaçasse beliscá-los com suas mãos de alicate. Nenhuma reação. O carangueijo deixou-se levar por uma marola e flutuou magoado. Sentia-se imprestável, invisível.
Marina já podia sentir a areia entre os dentes quando o odor de peixe, água e sal penetrou suas narinas e enviou a mensagem de transe para as profundezas do cérebro. Quando amanheceu, a praia estava deserta.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
O GRANDE FRACASSO
No entanto, o jumento aqui quer ver o circo financial pegar fogo com todos os palhaços, domadores e atiradores de faca ardendo de febre dentro do inevitável globo da morte capitalista. Este asno da retórica econômica torce para que esta seja uma crise definitva, diferentemente daquela dos anos 30, que não serviu para elucidar as almas mais pobres sobre o que está acontecendo na sua casa, o mundo. Pois o que está acontecendo, meu sorumbático amigo, é o evidente seguinte: o capitalismo fracassou. E só os bobos ainda não perceberam.
Fracassou porque faz com que passemos a maior parte de nossa vidas dedicando-nos à construção de um patrimônio material que relega ao segundo plano a construção do patrimônio da amizade, da espiritualidade, do amor. Fracassou porque nos induz à busca por supostos segurança e conforto financeiros a qualquer custo, mesmo que este seja o custo da destruição do planeta, dos animais com os quais o dividimos e de nossos próprios corpos e mentes, sacrificados de forma tão vil pela pressa estúpida e pelos prazeres inconsistentes da vida moderna.
O socialismo também fracassou. Mas fracassou, entre outros motivos, por exigir a limitação da ganância de muitos e permitir assim o banquete ganancioso de poucos. Já o capitalismo, fracassou por promover e exigir a ganância desenfreada de todos. Os sinais de seu fracasso são sutis como o coice duma égua prenha na boca do estômago, como a invasão do Iraque na busca por petróleo ou o dedo amputado de uma madame no semáforo por causa do anel de diamante.
É claro que numa grande crise econômica como a que está se anunciando, quem sai mais prejudicado é sempe o pobre, o miserável. Os ricos continuarão ricos e muitos deles ficarão ainda mais ricos às custas da miséria alheia. Mas dizem que existe sempre um lado positivo em toda crise, e, se existirá um lado bom aqui, este será justamente a oportunidade de percebermos como todos nos tornamos escravos da máquina capitalista. E quanto mais profunda for esta crise, maior será nossa capacidade de percepção e julgamento do grande fracasso.
Os homens de “sucesso” gostam de se referir àqueles que vivem à margem do sistema como perdedores, losers, fracassados. Muito bem. Mas que grande sucesso é este senão o êxito em fazer girar a roda-gigante do consumo, da ambição e do caos que tanto contribuíram para o grande fracasso? Chegou a hora deles reverem este conceito e se perguntarem quem são os verdadeiros losers do parque temático do capitalismo.
Votei em Fernando Gabeira para prefeito do Rio e não acredito que ele tenha notado a realidade do grande fracasso. Se notou, não acredito que a vaidade lhe permita abrir a boca para tocar no assunto. Meu voto foi vítima da urgência ecológica por um peido oxigenado de esperança. Pretendo me registrar e votar em Barack Obama e sei que este nem mesmo cogita da possibilidade do grande fracasso que ulula radiante na Wall Street, na Main Street e nos becos escuros e enfumaçados. Este seria um voto contra a truculência e a imbecilidade perigosas de seus adversários, nada mais.
Escrevi este texto e sei que você, oh macambúzio mosquito atolado na graxa da engrenagem colossal, mesmo que tenha se dado conta do grande fracasso, pouco ou nada poderá fazer a respeito. Mas não importa. O que importa agora é enxergá-lo. O rei está nu e só os bobos não enxergaram, ainda.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
REVISTA FODA-SE RECOMENDA
Quando recebi o convite do Gafieiras, fiquei matutando sobre quais músicas escolheria. Eu poderia ter listado músicas de gente estabelecida, gênios como Moacir Santos, Chico Buarque, Tim Maia, Mutantes e Jorge Ben, mas optei por cinco das minhas músicas favoritas de bandas independentes nacionais e atuais. Portanto, aqui estão, não cinco, mas dez das minhas músicas prediletas dessa gente que rala a bunda no asfalto e dificilmente consegue viver de música. Limpe os ouvidos, clique nos links e perceba que tem muita gente fazendo som do bom por essas bandas.
1. Samba Dia
Quem: Gabriel Muzak
Disco: Bossa Nômade
Gravadora/ano: Independente/2003
Ouve isso: http://www.myspace.com/gabrielmuzak
Alguns conhecem o guitarrista e compositor Gabriel Muzak da finada banda The Funk Fuckers. Outros, mais ligados na cena contemporânea do rock nacional, o identificam como front man do grupo carioca Rockz. Mas o trabalho mais legal do Muzak é o seu primeiro álbum solo, Bossa Nômade. Samba Dia é a terceira faixa e sintetiza bem a onda do disco. O baixo esmagador e cheio de efeitos de Guila (Lenine) e a bateria malemolente de Lourenço Monteiro (Marcelo D2) seguem o clima diurno e dilacerado da letra, que avisa: “Seus limites, só você poderá descobrir”. Muzak é daqueles guitarristas que imprimem sua personalidade no instrumento. Daqueles que você escuta uma vez e depois reconhece o estilo em poucos segundos na próxima audição.
2. Pode me Chamar
Quem: Eddie
Disco: Original Olinda Style
Gravadora/ano: Independente/2002
Ouve isso: http://www.myspace.com/bandaeddie
“Você vai cair na festa”, é o que vaticina o refrão de Pode me Chamar, quarta faixa do segundo álbum da banda Eddie, uma das fundadoras do movimento mangue beat que surgiu em Pernambuco no início dos anos noventa. Essa dá vontade de abrir uma cerveja. Tem cheiro de reggae, gosto de frevo e parece maloqueiragem mas é uma singela e quase inocente celebração do mais genuíno alto-astral. É Original Olinda Style dos backing vocals das meninas do Comadre Fulozinha à programação sagaz da batida eletrônica.
3. Meu Capuccino
Quem: Canastra
Disco: Traz a Pessoa Amada em 3 Dias
Gravadora/ano: Monstro Discos/2006
Ouve e olha isso: http://www.youtube.com/watch?v=j4ItDoNSlZ0
Essa música do Canastra me lembra muito o som de um grupo da Carolina do Norte (EUA) chamado Squirrel Nut Zippers, que, se você ainda não conhece, está papando mosca. Assim como os gringos do SNZ, o Canastra (RJ) resgata um clima de cabaré que andava meio sumido. Em Meu Capuccino, faixa do primeiro disco deles, Renato Martins (ex-Acabou La Tequila) canta sobre a solidão e diz que o seu melhor amigo é o capuccino. Mas a banda, que atualmente conta com Rodrigo Barba (Los Hermanos) na bateria, não deixa a tristeza chegar. Ela, aliás, passa longe, graças à linha de metais animada e a levada no estilo das big bands de jazz de New Orleans.
4. O Pinto de Peitos
Quem: Cidadão Instigado
Disco: Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências
Gravadora/ano: Slag Records/2005
Ouve isso: http://www.myspace.com/cidadaoinstigado
“Certas coisa acontecem na vida não para assustar / Mas sim, para mudar o entendimento sobre as coisas absolutas”. Uma dessas “coisas” só pode ser o Cidadão Instigado, banda cearense atualmente instalada em São Paulo e liderada pelo guitarrista e compositor Fernando Catatau. O Pinto de Peitos serve de trilha sonora tanto para uma viagem de ácido quanto para uma festinha de crianças no playground. Aqui, a música nordestina encontra o rock quase progressivo numa encruzilhada que leva o ouvinte aos terrenos psicodélicos de Zé Ramalho, Mutantes, Pink Floyd e Balão Mágico. Esta é maravilhosamente escalafobética. E gruda na cabeça.
5. Casal de Velhos
Quem: Lasciva Lula
Disco: 1ª Edição
Gravadora/ano: Independente/2002
Ouve isso (no link do disco na Last FM): http://www.myspace.com/lascivalula
Das dez músicas aqui sugeridas, esta é a mais rock. Aumente o volume e atente para a raiva ululante das guitarras e do vocal-cospe-sangue à la Black Francis (Pixies) no refrão. O Lasciva Lula nasceu em Cabo Frio, interior do estado do Rio, no final dos anos 1990. Pouco depois, mudou-se para a capital, onde, em poucos anos conquistou uma pequena massa de fãs ardorosos e fiéis. Os shows eram sempre lotados e a cidade ficava cheia de gente vestida com a camisa da bicicletinha, que era o símbolo da banda. Pena que eles não serão uma banda de velhos. Penduraram as guitarras no final do ano passado.
6. Para Abrir os Olhos
Quem: Vanguart
Disco: Vanguart
Gravadora/ano: Independente/2007
Ouve isso: http://www.myspace.com/vanguart
Já vi acusarem o Vanguart de pretensioso e tacharem o quinteto matogrossense de “nova Legião Urbana” etc. Tudo babaquice. O fato é que eles são uma das bandas mais legais a emergir da areia movediça do rock underground brasileiro nos últimos anos. Não é todo dia que sai de Cuiabá uma banda de folk rock influenciada por Bob Dylan e que sabe fazer belas canções pop com letras que não têm medo de soar cafona. Para Abrir os Olhos tem clima de madrugada e termina com o voz doce de Helio Flanders anunciando a chegada da manhã. Talvez por isso tenha sido escolhida para fechar o disco. Destaque para o solo de guitarra.
7. Preciso Ser Pedra
Quem: MoMo
Disco: Buscador
Gravadora/ano: Dubas/2008
Ouve isso: http://www.myspace.com/momoproject
Apesar do meu daltonismo, acredito que toda música tem uma cor. Preciso Ser Pedra, por exemplo, é cinza. Cinza de dia nublado, cinza da melancolia, cinza do exorcismo dos azedumes da vida. “Vaaai minha tristeza”, urra o MoMo no refrão como se abrisse a janela do quarto à procura do sol. Slides de guitarra, teclado Casiotone entorpecente e uma batida letárgica que, somados à candidez da interpretação do cantor, constroem um ambiente de cena em slow motion. A formosura desta canção está em algum lugar no meio do caminho entre Long, long, long, dos Beatles, e Heart Shaped Box, do Nirvana.
8. Pepeu Baixou em Mim
Quem: Do Amor
Disco: Live at Hanoi Studio
Gravadora/ano: Independente/2007
Ouve isso: http://www.myspace.com/doamor
Do Amor é o novo barato de três dos integrantes da Carne de Segunda, falecida banda carioca que fazia um som nada ordinário, ao mesmo tempo parecido com os Novos Baianos e aquelas bandas de surf music das antigas tipo The Ventures e The Shadows. A sonoridade da nova banda está mais para Novos Baianos, o que fica atestado nesta espécie de tributo desleixado ao Pepeu Gomes. Desleixo, aliás, é o que cativa no som deles. Os caras fazem questão de não se levarem a sério, mas não se engane: aqui estão alguns dos músicos mais requisitados do pedaço. O baixista e o baterista são da banda do Caetano Veloso e o guitarrista era baixista do Los Hermanos.
9. Felicidade
Quem: SereS
Disco: SereS
Gravadora/ano: Independente/2005
Ouve isso: http://www.myspace.com/bandaseres
Chegou a hora do jabá, porra! A banda SereS é cria do editor da Revista Foda-se. Foi formada em 2000 e tocou em quase todos os buracos quentes do Rio de Janeiro antes de encher o saco e anunciar para quase ninguém que faria uma pausa por tempo indeterminado em 2007. Segue um pequeno trecho de uma entrevista que nunca aconteceu, do Zé McGill para a revista Rolling Stone: “SereS é um palíndromo. Coisa fina. Felicidade é a nona faixa do nosso disco e a minha favorita. Tem participações de B Negão e Pedrão Selector (trompete). A letra é inspirada nas letras do Cartola e a levada é meio caribenha. O refrão lembra mutantes, eu acho.”
10. Alto e Distante Daqui
Quem: Ultramen
Disco: O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias
Gravadora/ano: Sum Records/2002
Ouve e olha isso: http://www.youtube.com/watch?v=-NLh4SqdSe0
Pra fechar, um funk clássico do Ultramen – o septeto gaúcho que infelizmente se aposentou em 2008 após dezesseis anos de estrada e quatro álbuns que ficarão marcados nos anais do circuito de bandas independentes deste Brasil varonil. Como em todo funk clássico, aqui o groove é ditado pela linha de baixo, pela batida suingada e pelas convenções rítmicas. E encontra sua alma no vocal de Tonho Crocco. Tim Maia ficaria todo metido e orgulhoso se escutasse o couro de “Eu quero voaaaar sem avião”.
Zé McGill
* Aqui o link para a coluna CincoPrauma no site Gafieiras: http://www.gafieiras.com.br/Display.php?Area=Colunas&SubArea=Colunas&ID=251&IDEscritor=136&css=1
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
RADIOHEAD EM SÃO FRANCISCO

Assisti a um show do Radiohead em Barcelona, há dois meses, no festival Daydream. Saí meio puto da vida porque esperava escutar alguns sucessos como My iron lungs, Fake plastic trees ou Karma Police, que não constavam no setlist. Por outro lado, fiquei com a batida e o vocal de Weird Fishes – do novo álbum, In rainbows - na cabeça por uma semana. Quando cheguei em casa, baixei o disco e me viciei. Dali em diante, foram dois meses de expectativa pelo show no Outsidelands Festival, em São Francisco, Califórnia, na última sexta-feira, dia 22 de agosto.
Parei de acompanhar a carreira do Radiohead no início deste século, quando a banda lançou Kid A, seu quarto álbum, e passou a priorizar o experimentalismo eletrônico e uma complexidade excêntrica nas composições, deixando de lado sua sensível capacidade de produzir baladas grudentas e rocks vigorosos da melhor qualidade. Continuo achando Kid A (2000) uma chatice, com raras exceções, o sucessor, Amnesiac (2001), fraco, e Hail to the thief (2003), uma bosta.
No ano passado, porém, os caras voltaram com tudo e chamaram a atenção de todo mundo que se interessa por música. Numa estratégia de marketing que deixou a indústria fonográfica com o cu na mão, eles lançaram In rainbows na internet sugerindo que o público baixasse o álbum pelo preço que achasse justo pagar. Disso, quase todo mundo já sabe. O que nem todo mundo percebeu ainda é que In rainbows é, ao lado de OK computer (1997), o melhor disco da carreira do quinteto de Oxford.
Após estréia fonográfica apenas regular com Pablo honey (1993), a banda amadureceu em The bends (1995) e chegou perto da sua obra-prima com Ok computer. Mas depois o negócio desandou. Até hoje me pergunto como pôde o mesmo grupo de pessoas que compôs clássicos como Paranoid android, High and dry e No surprises ter cometido diarréias sonoras como 2+2=5, The gloaming ou The national anthem. É admirável a capacidade que esses caras possuem de soarem geniais em um momento e cretinos no minuto seguinte. E o show deles é mais ou menos assim.
Só que o repertório do novo show é baseado no genial In rainbows. Portanto, os momentos de cretinice são escassos. Tanto em Barcelona quanto em São Francisco eles tocaram noventa por cento do repertório do disco novo ao vivo. A diferença entre os dois shows foi que, em São Francisco, rolaram todos aqueles hits citados no primeiro parágrafo. Só faltou mesmo Creep, que parece ter se tornado uma espécie de Anna Júlia do Radiohead e raramente é executada em shows.
O show de São Francisco aconteceu no Golden Gate Park, no primeiro dia do festival Outsidelands. Antes da atração principal, pude conferir 20 minutos do show do Manu Chao e corri para pegar uma hora do show do Beck, em outro palco, com direito a Loser e Devil’s haircut. Bom show. Melhor que aquele do Rock in Rio de 2001. Mas precisei cair fora antes do fim para garantir um lugar na multidão que se amontoava em frente ao palco principal à espera do Radiohead. A noite caía sobre o parque e eu ainda corria pelo gramado, desviando de alguns nativos obesos com seus hot dogs e suas cervejas de sete dólares nas mãos, quando escutei de longe as batidas de 15 step, a mesma música que abriu o show de Barcelona.
Eu não sou PM e não tenho o talento sobrenatural de avaliar os números de uma multidão assim, só de olhar. Mas havia pelo menos cinquenta mil pessoas ali e o que pude ver do palco foi o Thom Yorke do tamanho da unha do meu dedo mindinho. O que salvou foi o telão, que era dividido em quatro quadros, sempre focalizando um dos músicos em cada quadro. O show seguiu com Reckoner e um som apenas razoável para um festival de primeiro mundo. Em seguida veio a introdução do clássico Airbag e urros de delírio da multidão. Só que, de repente, o festival de primeiro mundo pagou mico. Houve um estalo seco e o som do P.A. sumiu completamente por cerca de dois minutos. Ouvi alguém da platéia reclamar: “That was not cool”.
Depois o som voltou e tudo correu bem até que surgiram no setlist as sofríveis The national anthem e The gloaming. Para minha sorte, durante esta última, aconteceu de novo: no meio da música, falha no sistema de som e silêncio total. Desta vez foi legal. Foi cool. O melhor silêncio que escutei em meses, ofuscado apenas por algumas vaias educadas. E durou quase a música inteira, aquele silêncio. O som voltou quando a banda tocava o último acorde. Perfeito. Fiquei rindo sozinho, imaginando que o técnico de som, entediado, houvesse desplugado os cabos propositalmente. O Thom Yorke ficou estressado. Chegou no microfone e esbravejou: “Sorry. I don’t know what the fuck is going on”.
Mas o show continuou com uma sequência matadora: Weird fishes, Idioteque, Karma police e Jigsaw falling into place. Pronto, valeu o ingresso. Olhei em volta e comecei a perceber porque é que se diz por aí que o Radiohead é hoje a maior banda de rock do mundo. Os cinquenta mil presentes acompanhavam Thom Yorke e cantavam juntos a maioria das letras, assim como aconteceu em Barcelona. A performance do vocalista, em transe numa dança esquizofrênica, por alguns instantes lembrou o jeitão esquisito do finado Ian Curtis (Joy Division). O adolescente que estava ao meu lado fez uma observação divertida a respeito de Yorke: “I think this dude is retarded” (acho que esse cara é retardado). E, olhando aquele ataque semi-epiléptico no centro palco, ficou difícil discordar do garoto.
Ao mesmo tempo, é difícil discordar de quem diz que o Radiohead é hoje a maior e melhor banda de rock do mundo. Thom Yorke (vocal e guitarra), Ed O’Brien (guitarra e vocal), Jonny Greenwood (guitarra), Colin Greenwood (baixo), e Phil Selway (bateria) sabem criar clima como poucos e a superioridade técnica deles como músicos é evidente. Fora isso, eles acabaram de lançar um disco que é simplesmente fodão e têm o melhor cantor de rock da atualidade. Thom Yorke canta muito e estava inspirado em São Francisco. O ponto alto dele foi em Nude – uma das boas faixas de In rainbows – quando hipnotizou até os esquilos do parque soltando sua bela voz de mancebo revoltado e deprimido.
Se você é fã incondicional de Radiohead, é provável que não tenha chegado até este último parágrafo. Talvez esteja aí, do outro lado da tela do computador, segurando uma pedra portuguesa e com uma vontade grande de atirá-la na minha cara. Só porque eu chamei o Thom Yorke de retardado e mancebo deprimido e porque eu acho aqueles três discos da banda um porre. Entretanto, se você não chegou até aqui, não saberá que no bis eles tocaram Paranoid android e Fake plastic trees e encerraram a apresentação com a melhor música do Kid A: Everything in its right place. Não saberá também que os shows de Barcelona e São Francisco e, especialmente, o novo disco, In rainbows, me fizeram voltar a gostar do Radiohead. E me convenceram de que, de fato, eles são hoje a maior e melhor banda de rock do mundo.
** E aqui um vídeo que registra o apagão sonoro no meio de Airbag, no show de São Francisco: http://www.youtube.com/watch?v=qH_3p1hAbWk
*** Esta resenha foi publicada no Portal Rock Press. Confira:





