sábado, 22 de novembro de 2008

JOÃO JOÃO E O FORASTEIRO


João João era um bandido que metia medo em todo mundo. A barba precisamente aparada, o terno marrom sempre alisado com ferro quente e aquele cabelo negro brilhante que nunca escorria eram as bandeiras do temperamento gelado que carregava. Ninguém sabia o motivo da cicatriz que dividia sua cara redonda em dois hemisférios: no sudoeste, a boca amordaçada pelo corte. No nordeste, olhos infinitos.

Estava faminto quando adentrou a taberna naquela noite fria. Colocou o revólver sobre o balcão, tirou o terno e pediu um ovo estrelado com duas fatias de bacon. Sentou-se e abriu bem as narinas para aspirar o cheiro quente de sua refeição, que já flutuava pelo salão. O rádio de pilha tocava um blues dos anos 1930 que falava sobre o encontro de alguém com o diabo numa encruzilhada.

Sentado ao seu lado, um forasteiro franzino engolia calmamente a cerveja morna que descia da caneca de vidro. Tinha um olho cego embaçado, o outro no revólver de João João, que dormia sobre o balcão. Acabara de chegar na cidade e estava à procura do assassino de seu irmão. Agora que o encontrara, sentado logo ao lado com aquela cicatriz indefectível, refazia seu plano de vingança.

O forasteiro ouvira dizer que o ponto fraco de João João residia justamente nos deboches que seu nome composto inspirava, mesmo que ninguém na cidade tivesse coragem de proferir os tais deboches na sua presença. Portanto, foi por este caminho que o forasteiro iniciou o ataque quando o ovo estrelado e os bacons pousaram no colo de seu adversário.

“Boa noite, estranho, qual é a sua graça?”
“E quem é que deseja saber?”, retrucou João João, salgando o ovo sem olhar para o forasteiro.
“Ora, vamos, meu caro. Só estou tentando puxar conversa nesta noite vazia. Você pode me chamar de Zezé”.
João João largou os talheres de metal sobre o prato e finalmente o encarou.
“Me chamo João João”, respondeu, com o bacon entre os dentes.
“Pfff... João João!”, exclamou o forasteiro explodindo numa gargalhada maliciosa e esguichando cerveja por entre os lábios semi-cerrados antes de concluir: “Que raio de nome é esse!?”

Os outros clientes da taberna, que até então acompanhavam o diálogo entre João João e o forasteiro de olhos arregalados, encolheram-se em seus cantos, provocando um súbito silêncio, apesar do som do rádio e da gargalhada escandalosa que ecoava pelo salão.

Agora de pé, João João passou a mão no revólver e apontou na direção do forasteiro. Sua alma embriagada de cólera desfizera as manias mais excêntricas de sua frieza e uma mecha do cabelo negro e brilhante agora pendia patética sobre a testa em brasa.

“É nome de sujeito homem”, trovejou João João. “Nome de matador, seu filho de uma puta. E tira esse sorriso da cara senão eu te meto chumbo agora mesmo!”

O forasteiro descansou a caneca de vidro sobre o balcão e limpou o sorriso com a manga da camisa. Foi ali que o dono da taberna, um tipo obeso e de bigode ruivo, apresentou Marieta, a escopeta que ficava escondida do outro lado do balcão. Não precisou dizer nada. Bastou apontar, com o cano da arma, o caminho da rua.

Lá fora, o vento corria rasteiro, sujando de poeira o couro das botas de João João. A estrada de terra que passava na frente da taberna dormia deserta no mais negro breu. A única testemunha do duelo que se anunciava era a luz fraca da lamparina de querosene, que dançava preguiçosa na porta da taberna. Nenhum dos clientes teve peito de meter a cara na janela.

João João, que saíra primeiro, empunhava o revólver com raiva. Tanta raiva, que o suor da palma de sua mão tornara escorregadia a coronha do revólver. Seus olhos procuravam a silhueta do forasteiro no meio da escuridão, mas o que avistaram foi a caneca de vidro rolando na direção das botas sujas e derramando o resto de cerveja morna sobre a areia. Nenhum sinal do forasteiro, até que sentiu a garganta sendo esmagada por um braço e a barriga espetada pela ponta de um facão. O revólver de João João quicou pela estrada.

“Vou fazer um X na tua cara, completar o serviço que meu irmão começou”, disse o forasteiro, soltando um bafo quente na parte posterior da orelha de João João.
“Mate-me agora, ou morra depois, seu pedaço de merda”, grunhiu João João.
“Não... prefiro te deixar caminhar por aí, com um X na cara, pra completar a desgraça que esse teu nome ridículo já te traz. João João... pfff. Que nome escroto.”

O facão viajou fundo, do noroeste ao sudeste da face de João João. Deitado em frente à taberna, com o rosto coberto de sangue, ele escutou as gargalhadas e os gritos cada vez mais distantes do forasteiro, que sumiu para sempre no breu da estrada: “João João! Teu nome é tua sepultura! Tua sepultura, João João!”

Zé McGill

*Trilha sonora para leitura: Me and the devil blues, de Robert Johnson.
Aqui o link pro vídeo, que é bem sinistro - http://www.youtube.com/watch?v=3MCHI23FTP8



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

ALESSANDRA NEGRINI NUNCA ME LIGOU


Lá estava eu comandando as carrapetas no meu primeiro trabalho como DJ em uma festa particular. Passava das onze da noite e a pista de sinteco da sala começava a fumegar naquele apartamento ancião da praia do Flamengo. Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na vista panorâmica da Baía de Guanabara, revezávamos, eu e meu parceiro Lupicínio, no temporal de Funk 70 que desabava em forma de James Brown, Kool & The Gang, Sly, Tim Maia e JB’s, entre outros meliantes da pesada, quando uma perua precoce e ocluda me abordou.

“Toca um funk aí!”
“Hã?”, respondi, fingindo que o volume do som atrapalhava a compreensão daquele pedido lunático.
“Fuuun-kêêê!”, escancarou a ocluda. Pronto. Agora não tinha mais desculpa.
“Pô... mas isso é James Brown. Quer mais funky que isso?”, tentando ser simpático: a ocluda tinha uma bunda legal.
“Eu sei, muito bom! Mas toca aí um funk original.”
“Original, como assim!?”
Afinal, entendi. O “funk original” dela era o pancadão-popozudo-tigrão-carioca.
“Foi mal, não tenho”, aleguei, tentando fornecer um sorriso amarelado.
A ocluda fez beicinho mas sorriu e saiu saltitando pelo sinteco feito uma gazela suntuosa enquanto ajeitava os óculos.

Tudo bem, até acho que o pancadão, ou funkarioca, tem o seu valor, que é uma forma legítima e até divertida de expressão dos esquecidos do esquemão e etc., mas porra, os meliantes do funk norte-americano dos anos 70 é que são os originais, os pais do funk. E quando a ocluda me abordou, o som que rodava no CDJ era Make it funky, do James Brown: uma pedrada violenta, daquelas que fazem até joão-bobo murcho balançar.

Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na bunda da ocluda, lembrei que a festa acontecia em um dos metros quadrados mais caros da cidade, e que os convidados eram daquele time que acha que é cool militar a favor da cultura dos morros sem nunca ter pisado numa favela. De qualquer maneira, o aniversariante (vulgo: patrão) e a maioria dos convidados estavam perdendo a noção do ridículo na pista, bamboleando de tal maneira que não deixavam dúvida quanto ao sucesso da sequência musical a que eu e Lupicínio os submetíamos.

Já perto da meia-noite, entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas na mesa de quitutes, o Lupicínio acertou uma leve cotovelada nas minhas costelas e forneceu a notícia aterrorizante:

“Olha quem chegou aí... a tua musa, Alessandra Negrini”.
“Tá de sacanagem... cadê?”, perguntei no susto.
“Ali, malandro!”, apontando para a porta do apartamento.
“Aí, fodeu, não vou mais conseguir tocar.”, avisei, meio rindo, meio sério.

Lupicínio conhecia a minha tara pela atriz Global. Estava farto de me ouvir dizer, no final dos nossos porres pelos botecos sujos, que Alessandra Negrini era a mulher mais tesuda da galáxia. Sim, encabeçando uma lista que conta ainda com as seguintes alienígenas: Catherine Boceta-Jones (aquela égua galesa), Kirsty Alley (a mamãe-delícia do filmeco Três solteirões e um bebê), Mireya Luis (a ex-craque popozuda da seleção cubana de vôlei) e Cláudia Cruz (a apresentadora do RJTV nos anos 90, que fazia um biquinho fatal com a boca enquanto apresentava as notícias de inutilidade pública do telejornal).

Sabedor da minha aflição, Lupicínio não estranhou quando larguei o headphone no meio de Acenda o farol, do Tim Maia, e fui fumar um cigarro na janela. Alessandra já havia sumido na pequena multidão que se formara no corredor colossal que desembocava na “pista”, mas a ciência de sua presença no recinto festivo me perturbava. Entre uns goles na latinha de cerveja e uns tragos no cigarro, fiquei lembrando das fotos da Playboy, em que ela aparece com o olhar mais safado do mundo, posando de prostituta na Lapa. É a melhor Playboy nacional de todos os tempos.

Encostado no parapeito, de costas pra janela, senti a brisa soprar na minha nuca quando Alessandra surgiu na pista. Trajava um vestido preto de tecido leve que denunciava todos os seus volumes mas deixava nuas apenas as canelas brancas e grossas. Segurando uma taça de champagne com uma das mãos e ajeitando o cabelo recém-cortado com a outra, ela entrou na dança timidamente, apesar do esforço dos estranhos em transparecer a maior naturalidade na sua presença. Acho que foi a suposta timidez dela que me encorajou a voltar pra mesa de som.

Entre uns goles na latinha de cerveja e umas espiadas no popô da Alessandra - que já requebrava bonito na minha frente - relaxei. Passava das duas horas da madrugada quando a vi caminhando em direção à mesa de som, quer dizer, em minha direção. O sorrisinho dela era bem diferente daquele da Playboy. Era um sorriso meio torto, meio encabulado e, ao mesmo tempo, maroto que só ele. Os dois olhões negros me encontraram com cara de panaca, a boca entreaberta. Notei que ela trazia um pequeno pedaço de papel e uma caneta, ambos na mesma mão. Na outra, ainda a taça de champagne. Tirei o headphone da cabeça, enchi o peito de confiança e me preparei para o confronto.

“Oi. Tudo bem?”, ela - colocando a taça sobre a mesa.
“Tudo!”, eu - vermelho, roxo, magenta, sei lá, sou daltônico.
“Adorei o som de vocês. Várias músicas que eu não escutava há um tempão. Vocês tocam sempre juntos? É que eu vou precisar de um DJ pruma festa e queria pegar o telefone de vocês...”.

Olhei de relance pro Lupicínio, com cara de quem pede socorro, mas o puto fingiu estar compenetrado no trabalho, nem tirou o olho do CDJ. Aposto que estava se mijando de rir. Depois ele confessou que ouviu a conversa toda. Mas agora era comigo. A maior tesuda da galáxia estava na minha frente, pedindo o meu telefone e eu queria lhe dizer algo além do meu número. Ela é o tipo de mulher que já escutou toda a sorte de gracinhas e cantadas imbecis, portanto, perguntar se ela gostaria de conhecer a minha coleção de selos estava fora de cogitação. Resolvi então libertar o canalha que mora dentro de todos nós:

“Olha, Alessandra, seria o maior prazer tocar pra você, mas quando é a festinha?”
“É no dia 31 de outubro, sexta-feira. Você pode?” – respondeu, ainda sorrindo torto, mas na maior boa vontade. Percebi que desta vez ela perguntara se eu poderia, e não se nós poderíamos.
“Hummm... dia 31. É o dia do Halloween, né?”
“É mesmo! Coincidência...”
“Pois é, acho que não vou poder, minha mãe não me deixa sair de casa no Halloween...”
“Que história é essa menino, quantos anos você tem?”, o sorriso dela agora era mais espontâneo.
“Tenho 31, mas a minha mãe... sabe como é...”
“Olha, avisa sua mãe que eu tomo conta de você, tá legal?”
“Ahn, sendo assim, anota aí o meu número.”

O dia 31 de outubro já passou e até hoje aguardo o telefonema de Alessandra. Naquela noite, ainda trocamos alguns comentários sobre os CDs, sobre aquele apartamento ancião e sobre a sua futura festa. Alessandra foi embora na hora do parabéns, lá pelas três da madrugada. Saiu de fininho, sem falar com ninguém. Nem comigo. Acho que deveria tê-la convidado para conhecer a minha coleção de selos. E deveria ter pedido o número do telefone dela, entre os goles na latinha de cerveja e as piadas duvidosas sobre o Halloween.

Zé McGill

* Por falar em Tim Maia, segue o link de um vídeo raro e foderoso do Síndico. (Atentem para a performance do percussionista, que recebe um santo no final do vídeo... ISSO É BRASIL!!)


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

M A R I N A


Um amigo sugeriu que eu tentasse escrever um conto curto ao mesmo tempo em que escutasse alguma música que não gosto. A idéia era despertar a criatividade através do improvável e deixar o texto correr. Escolhi a sofrível Goodbye my lover, do James Blunt, e coloquei em "repeat" no Media Player. Quando o primeiro parágrafo saiu, acho que já havia escutado a música mais de dez vezes. Uma tortura fodida. Os parágrafos seguintes foram escritos no silêncio... segue o resultado: um conto curto chamado Marina.

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O sal rachava os lábios rúbidos de Marina. Cada sopro do vento hostil levantava o vestido rasgado e desnudava suas coxas pálidas. Marina permanecia inerte, com os pés dormentes afundando na areia e olhar fixo na ilha em forma de baleia. As gotas d’água que saltavam do mar encontravam seu rosto sardento e escorriam em direção à sua boca, confundindo-se desgostosas com as lágrimas salgadas.

No início do crepúsculo, o dedão do pé direito descobriu as costas lisas de uma concha e empregou-lhe uma massagem letárgica. Enquanto isso, a maré enchia apressada e a canela de Marina desaparecia progressivamente na areia encharcada a cada refluxo do mar verde, cor de limonada. Os movimentos de seu corpo carnudo resumiam-se a inclinações dos olhos vermelhos que agora testemunhavam o soterramento de uma comunidade de tatuís.

A lua cheia mirou intrigada a imersão das coxas enquanto o oceano, faminto, lambia as dobras da bunda voluptuosa de Marina. Um carangueijo que passava por ali estranhou a estagnação apática da moça e decidiu provocá-la, investindo bruscamente na direção dos mamilos pontudos, como se ameaçasse beliscá-los com suas mãos de alicate. Nenhuma reação. O carangueijo deixou-se levar por uma marola e flutuou magoado. Sentia-se imprestável, invisível.

Marina já podia sentir a areia entre os dentes quando o odor de peixe, água e sal penetrou suas narinas e enviou a mensagem de transe para as profundezas do cérebro. Quando amanheceu, a praia estava deserta.

Zé McGill


* Um vídeo amador do incrível Shuggie Otis! A música chama-se Aht uh mi hed. Confira:




quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O GRANDE FRACASSO


Estou achando essa crise financeira que assaltou os Estados Unidos – e que começa a atropelar a economia mundial como uma avalanche – de uma beleza fundamental. Pronto. Você aí que leu estas primeiras palavras já está dizendo: “Ah, não... quem é esse ignorante pra falar uma asneira dessas?”. Sim, estimado e atormentado leitor, aqui vos fala um idiota econômico, alguém que não entende patavina sobre as oscilações do mercado financeiro, um jumento numerológico incapaz de operar uma planilha de Excel. Alguém que até bem pouco tempo sequer conhecia a taxa de juros de seu próprio cheque especial.

No entanto, o jumento aqui quer ver o circo financial pegar fogo com todos os palhaços, domadores e atiradores de faca ardendo de febre dentro do inevitável globo da morte capitalista. Este asno da retórica econômica torce para que esta seja uma crise definitva, diferentemente daquela dos anos 30, que não serviu para elucidar as almas mais pobres sobre o que está acontecendo na sua casa, o mundo. Pois o que está acontecendo, meu sorumbático amigo, é o evidente seguinte: o capitalismo fracassou. E só os bobos ainda não perceberam.

Fracassou porque faz com que passemos a maior parte de nossa vidas dedicando-nos à construção de um patrimônio material que relega ao segundo plano a construção do patrimônio da amizade, da espiritualidade, do amor. Fracassou porque nos induz à busca por supostos segurança e conforto financeiros a qualquer custo, mesmo que este seja o custo da destruição do planeta, dos animais com os quais o dividimos e de nossos próprios corpos e mentes, sacrificados de forma tão vil pela pressa estúpida e pelos prazeres inconsistentes da vida moderna.

O socialismo também fracassou. Mas fracassou, entre outros motivos, por exigir a limitação da ganância de muitos e permitir assim o banquete ganancioso de poucos. Já o capitalismo, fracassou por promover e exigir a ganância desenfreada de todos. Os sinais de seu fracasso são sutis como o coice duma égua prenha na boca do estômago, como a invasão do Iraque na busca por petróleo ou o dedo amputado de uma madame no semáforo por causa do anel de diamante.

É claro que numa grande crise econômica como a que está se anunciando, quem sai mais prejudicado é sempe o pobre, o miserável. Os ricos continuarão ricos e muitos deles ficarão ainda mais ricos às custas da miséria alheia. Mas dizem que existe sempre um lado positivo em toda crise, e, se existirá um lado bom aqui, este será justamente a oportunidade de percebermos como todos nos tornamos escravos da máquina capitalista. E quanto mais profunda for esta crise, maior será nossa capacidade de percepção e julgamento do grande fracasso.

Os homens de “sucesso” gostam de se referir àqueles que vivem à margem do sistema como perdedores, losers, fracassados. Muito bem. Mas que grande sucesso é este senão o êxito em fazer girar a roda-gigante do consumo, da ambição e do caos que tanto contribuíram para o grande fracasso? Chegou a hora deles reverem este conceito e se perguntarem quem são os verdadeiros losers do parque temático do capitalismo.

Votei em Fernando Gabeira para prefeito do Rio e não acredito que ele tenha notado a realidade do grande fracasso. Se notou, não acredito que a vaidade lhe permita abrir a boca para tocar no assunto. Meu voto foi vítima da urgência ecológica por um peido oxigenado de esperança. Pretendo me registrar e votar em Barack Obama e sei que este nem mesmo cogita da possibilidade do grande fracasso que ulula radiante na Wall Street, na Main Street e nos becos escuros e enfumaçados. Este seria um voto contra a truculência e a imbecilidade perigosas de seus adversários, nada mais.

Escrevi este texto e sei que você, oh macambúzio mosquito atolado na graxa da engrenagem colossal, mesmo que tenha se dado conta do grande fracasso, pouco ou nada poderá fazer a respeito. Mas não importa. O que importa agora é enxergá-lo. O rei está nu e só os bobos não enxergaram, ainda.


Zé McGill


* Aqui uma outra visão sobre o grande fracasso. Vale o clique.


** E aqui uma boa trilha sonora para a reflexão sobre o grande fracasso. A banda é do Novo México (EUA) e se chama Beirut. A música é Post cards from italy.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

REVISTA FODA-SE RECOMENDA


Semana passada fui convidado pelo pessoal do site Gafieiras para escrever uma coluna chamada CincoPrauma, na qual são sugeridas cinco músicas de artistas brasileiros – uma música para cada dia da semana. Gostei da idéia e me empolguei. Tanto, que resolvi colocar aqui na Foda-se outro texto sobre música logo em seguida ao texto do Radiohead, quebrando o costume de intercalar textos sobre música com textos sobre assuntos diversos. É isso aí... foda-se. Aqui não tem regra.

Quando recebi o convite do Gafieiras, fiquei matutando sobre quais músicas escolheria. Eu poderia ter listado músicas de gente estabelecida, gênios como Moacir Santos, Chico Buarque, Tim Maia, Mutantes e Jorge Ben, mas optei por cinco das minhas músicas favoritas de bandas independentes nacionais e atuais. Portanto, aqui estão, não cinco, mas dez das minhas músicas prediletas dessa gente que rala a bunda no asfalto e dificilmente consegue viver de música. Limpe os ouvidos, clique nos links e perceba que tem muita gente fazendo som do bom por essas bandas.


1. Samba Dia
Quem: Gabriel Muzak
Disco: Bossa Nômade
Gravadora/ano: Independente/2003
Ouve isso: http://www.myspace.com/gabrielmuzak

Alguns conhecem o guitarrista e compositor Gabriel Muzak da finada banda The Funk Fuckers. Outros, mais ligados na cena contemporânea do rock nacional, o identificam como front man do grupo carioca Rockz. Mas o trabalho mais legal do Muzak é o seu primeiro álbum solo, Bossa Nômade. Samba Dia é a terceira faixa e sintetiza bem a onda do disco. O baixo esmagador e cheio de efeitos de Guila (Lenine) e a bateria malemolente de Lourenço Monteiro (Marcelo D2) seguem o clima diurno e dilacerado da letra, que avisa: “Seus limites, só você poderá descobrir”. Muzak é daqueles guitarristas que imprimem sua personalidade no instrumento. Daqueles que você escuta uma vez e depois reconhece o estilo em poucos segundos na próxima audição.


2. Pode me Chamar
Quem: Eddie
Disco: Original Olinda Style
Gravadora/ano: Independente/2002
Ouve isso: http://www.myspace.com/bandaeddie

“Você vai cair na festa”, é o que vaticina o refrão de Pode me Chamar, quarta faixa do segundo álbum da banda Eddie, uma das fundadoras do movimento mangue beat que surgiu em Pernambuco no início dos anos noventa. Essa dá vontade de abrir uma cerveja. Tem cheiro de reggae, gosto de frevo e parece maloqueiragem mas é uma singela e quase inocente celebração do mais genuíno alto-astral. É Original Olinda Style dos backing vocals das meninas do Comadre Fulozinha à programação sagaz da batida eletrônica.


3. Meu Capuccino
Quem: Canastra
Disco: Traz a Pessoa Amada em 3 Dias
Gravadora/ano: Monstro Discos/2006
Ouve e olha isso: http://www.youtube.com/watch?v=j4ItDoNSlZ0

Essa música do Canastra me lembra muito o som de um grupo da Carolina do Norte (EUA) chamado Squirrel Nut Zippers, que, se você ainda não conhece, está papando mosca. Assim como os gringos do SNZ, o Canastra (RJ) resgata um clima de cabaré que andava meio sumido. Em Meu Capuccino, faixa do primeiro disco deles, Renato Martins (ex-Acabou La Tequila) canta sobre a solidão e diz que o seu melhor amigo é o capuccino. Mas a banda, que atualmente conta com Rodrigo Barba (Los Hermanos) na bateria, não deixa a tristeza chegar. Ela, aliás, passa longe, graças à linha de metais animada e a levada no estilo das big bands de jazz de New Orleans.


4. O Pinto de Peitos
Quem: Cidadão Instigado
Disco: Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências
Gravadora/ano: Slag Records/2005
Ouve isso: http://www.myspace.com/cidadaoinstigado

“Certas coisa acontecem na vida não para assustar / Mas sim, para mudar o entendimento sobre as coisas absolutas”. Uma dessas “coisas” só pode ser o Cidadão Instigado, banda cearense atualmente instalada em São Paulo e liderada pelo guitarrista e compositor Fernando Catatau. O Pinto de Peitos serve de trilha sonora tanto para uma viagem de ácido quanto para uma festinha de crianças no playground. Aqui, a música nordestina encontra o rock quase progressivo numa encruzilhada que leva o ouvinte aos terrenos psicodélicos de Zé Ramalho, Mutantes, Pink Floyd e Balão Mágico. Esta é maravilhosamente escalafobética. E gruda na cabeça.


5. Casal de Velhos
Quem: Lasciva Lula
Disco: 1ª Edição
Gravadora/ano: Independente/2002
Ouve isso (no link do disco na Last FM): http://www.myspace.com/lascivalula

Das dez músicas aqui sugeridas, esta é a mais rock. Aumente o volume e atente para a raiva ululante das guitarras e do vocal-cospe-sangue à la Black Francis (Pixies) no refrão. O Lasciva Lula nasceu em Cabo Frio, interior do estado do Rio, no final dos anos 1990. Pouco depois, mudou-se para a capital, onde, em poucos anos conquistou uma pequena massa de fãs ardorosos e fiéis. Os shows eram sempre lotados e a cidade ficava cheia de gente vestida com a camisa da bicicletinha, que era o símbolo da banda. Pena que eles não serão uma banda de velhos. Penduraram as guitarras no final do ano passado.


6. Para Abrir os Olhos
Quem: Vanguart
Disco: Vanguart
Gravadora/ano: Independente/2007
Ouve isso: http://www.myspace.com/vanguart

Já vi acusarem o Vanguart de pretensioso e tacharem o quinteto matogrossense de “nova Legião Urbana” etc. Tudo babaquice. O fato é que eles são uma das bandas mais legais a emergir da areia movediça do rock underground brasileiro nos últimos anos. Não é todo dia que sai de Cuiabá uma banda de folk rock influenciada por Bob Dylan e que sabe fazer belas canções pop com letras que não têm medo de soar cafona. Para Abrir os Olhos tem clima de madrugada e termina com o voz doce de Helio Flanders anunciando a chegada da manhã. Talvez por isso tenha sido escolhida para fechar o disco. Destaque para o solo de guitarra.


7. Preciso Ser Pedra
Quem: MoMo
Disco: Buscador
Gravadora/ano: Dubas/2008
Ouve isso: http://www.myspace.com/momoproject

Apesar do meu daltonismo, acredito que toda música tem uma cor. Preciso Ser Pedra, por exemplo, é cinza. Cinza de dia nublado, cinza da melancolia, cinza do exorcismo dos azedumes da vida. “Vaaai minha tristeza”, urra o MoMo no refrão como se abrisse a janela do quarto à procura do sol. Slides de guitarra, teclado Casiotone entorpecente e uma batida letárgica que, somados à candidez da interpretação do cantor, constroem um ambiente de cena em slow motion. A formosura desta canção está em algum lugar no meio do caminho entre Long, long, long, dos Beatles, e Heart Shaped Box, do Nirvana.


8. Pepeu Baixou em Mim
Quem: Do Amor
Disco: Live at Hanoi Studio
Gravadora/ano: Independente/2007
Ouve isso: http://www.myspace.com/doamor

Do Amor é o novo barato de três dos integrantes da Carne de Segunda, falecida banda carioca que fazia um som nada ordinário, ao mesmo tempo parecido com os Novos Baianos e aquelas bandas de surf music das antigas tipo The Ventures e The Shadows. A sonoridade da nova banda está mais para Novos Baianos, o que fica atestado nesta espécie de tributo desleixado ao Pepeu Gomes. Desleixo, aliás, é o que cativa no som deles. Os caras fazem questão de não se levarem a sério, mas não se engane: aqui estão alguns dos músicos mais requisitados do pedaço. O baixista e o baterista são da banda do Caetano Veloso e o guitarrista era baixista do Los Hermanos.


9. Felicidade
Quem: SereS
Disco: SereS
Gravadora/ano: Independente/2005
Ouve isso: http://www.myspace.com/bandaseres

Chegou a hora do jabá, porra! A banda SereS é cria do editor da Revista Foda-se. Foi formada em 2000 e tocou em quase todos os buracos quentes do Rio de Janeiro antes de encher o saco e anunciar para quase ninguém que faria uma pausa por tempo indeterminado em 2007. Segue um pequeno trecho de uma entrevista que nunca aconteceu, do Zé McGill para a revista Rolling Stone: “SereS é um palíndromo. Coisa fina. Felicidade é a nona faixa do nosso disco e a minha favorita. Tem participações de B Negão e Pedrão Selector (trompete). A letra é inspirada nas letras do Cartola e a levada é meio caribenha. O refrão lembra mutantes, eu acho.”


10. Alto e Distante Daqui
Quem: Ultramen
Disco: O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias
Gravadora/ano: Sum Records/2002
Ouve e olha isso: http://www.youtube.com/watch?v=-NLh4SqdSe0

Pra fechar, um funk clássico do Ultramen – o septeto gaúcho que infelizmente se aposentou em 2008 após dezesseis anos de estrada e quatro álbuns que ficarão marcados nos anais do circuito de bandas independentes deste Brasil varonil. Como em todo funk clássico, aqui o groove é ditado pela linha de baixo, pela batida suingada e pelas convenções rítmicas. E encontra sua alma no vocal de Tonho Crocco. Tim Maia ficaria todo metido e orgulhoso se escutasse o couro de “Eu quero voaaaar sem avião”.

Zé McGill

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

RADIOHEAD EM SÃO FRANCISCO


Assisti a um show do Radiohead em Barcelona, há dois meses, no festival Daydream. Saí meio puto da vida porque esperava escutar alguns sucessos como My iron lungs, Fake plastic trees ou Karma Police, que não constavam no setlist. Por outro lado, fiquei com a batida e o vocal de Weird Fishes – do novo álbum, In rainbows - na cabeça por uma semana. Quando cheguei em casa, baixei o disco e me viciei. Dali em diante, foram dois meses de expectativa pelo show no Outsidelands Festival, em São Francisco, Califórnia, na última sexta-feira, dia 22 de agosto.

Parei de acompanhar a carreira do Radiohead no início deste século, quando a banda lançou Kid A, seu quarto álbum, e passou a priorizar o experimentalismo eletrônico e uma complexidade excêntrica nas composições, deixando de lado sua sensível capacidade de produzir baladas grudentas e rocks vigorosos da melhor qualidade. Continuo achando Kid A (2000) uma chatice, com raras exceções, o sucessor, Amnesiac (2001), fraco, e Hail to the thief (2003), uma bosta.

No ano passado, porém, os caras voltaram com tudo e chamaram a atenção de todo mundo que se interessa por música. Numa estratégia de marketing que deixou a indústria fonográfica com o cu na mão, eles lançaram In rainbows na internet sugerindo que o público baixasse o álbum pelo preço que achasse justo pagar. Disso, quase todo mundo já sabe. O que nem todo mundo percebeu ainda é que In rainbows é, ao lado de OK computer (1997), o melhor disco da carreira do quinteto de Oxford.

Após estréia fonográfica apenas regular com Pablo honey (1993), a banda amadureceu em The bends (1995) e chegou perto da sua obra-prima com Ok computer. Mas depois o negócio desandou. Até hoje me pergunto como pôde o mesmo grupo de pessoas que compôs clássicos como Paranoid android, High and dry e No surprises ter cometido diarréias sonoras como 2+2=5, The gloaming ou The national anthem. É admirável a capacidade que esses caras possuem de soarem geniais em um momento e cretinos no minuto seguinte. E o show deles é mais ou menos assim.

Só que o repertório do novo show é baseado no genial In rainbows. Portanto, os momentos de cretinice são escassos. Tanto em Barcelona quanto em São Francisco eles tocaram noventa por cento do repertório do disco novo ao vivo. A diferença entre os dois shows foi que, em São Francisco, rolaram todos aqueles hits citados no primeiro parágrafo. Só faltou mesmo Creep, que parece ter se tornado uma espécie de Anna Júlia do Radiohead e raramente é executada em shows.

O show de São Francisco aconteceu no Golden Gate Park, no primeiro dia do festival Outsidelands. Antes da atração principal, pude conferir 20 minutos do show do Manu Chao e corri para pegar uma hora do show do Beck, em outro palco, com direito a Loser e Devil’s haircut. Bom show. Melhor que aquele do Rock in Rio de 2001. Mas precisei cair fora antes do fim para garantir um lugar na multidão que se amontoava em frente ao palco principal à espera do Radiohead. A noite caía sobre o parque e eu ainda corria pelo gramado, desviando de alguns nativos obesos com seus hot dogs e suas cervejas de sete dólares nas mãos, quando escutei de longe as batidas de 15 step, a mesma música que abriu o show de Barcelona.

Eu não sou PM e não tenho o talento sobrenatural de avaliar os números de uma multidão assim, só de olhar. Mas havia pelo menos cinquenta mil pessoas ali e o que pude ver do palco foi o Thom Yorke do tamanho da unha do meu dedo mindinho. O que salvou foi o telão, que era dividido em quatro quadros, sempre focalizando um dos músicos em cada quadro. O show seguiu com Reckoner e um som apenas razoável para um festival de primeiro mundo. Em seguida veio a introdução do clássico Airbag e urros de delírio da multidão. Só que, de repente, o festival de primeiro mundo pagou mico. Houve um estalo seco e o som do P.A. sumiu completamente por cerca de dois minutos. Ouvi alguém da platéia reclamar: “That was not cool”.

Depois o som voltou e tudo correu bem até que surgiram no setlist as sofríveis The national anthem e The gloaming. Para minha sorte, durante esta última, aconteceu de novo: no meio da música, falha no sistema de som e silêncio total. Desta vez foi legal. Foi cool. O melhor silêncio que escutei em meses, ofuscado apenas por algumas vaias educadas. E durou quase a música inteira, aquele silêncio. O som voltou quando a banda tocava o último acorde. Perfeito. Fiquei rindo sozinho, imaginando que o técnico de som, entediado, houvesse desplugado os cabos propositalmente. O Thom Yorke ficou estressado. Chegou no microfone e esbravejou: “Sorry. I don’t know what the fuck is going on”.

Mas o show continuou com uma sequência matadora: Weird fishes, Idioteque, Karma police e Jigsaw falling into place. Pronto, valeu o ingresso. Olhei em volta e comecei a perceber porque é que se diz por aí que o Radiohead é hoje a maior banda de rock do mundo. Os cinquenta mil presentes acompanhavam Thom Yorke e cantavam juntos a maioria das letras, assim como aconteceu em Barcelona. A performance do vocalista, em transe numa dança esquizofrênica, por alguns instantes lembrou o jeitão esquisito do finado Ian Curtis (Joy Division). O adolescente que estava ao meu lado fez uma observação divertida a respeito de Yorke: “I think this dude is retarded” (acho que esse cara é retardado). E, olhando aquele ataque semi-epiléptico no centro palco, ficou difícil discordar do garoto.

Ao mesmo tempo, é difícil discordar de quem diz que o Radiohead é hoje a maior e melhor banda de rock do mundo. Thom Yorke (vocal e guitarra), Ed O’Brien (guitarra e vocal), Jonny Greenwood (guitarra), Colin Greenwood (baixo), e Phil Selway (bateria) sabem criar clima como poucos e a superioridade técnica deles como músicos é evidente. Fora isso, eles acabaram de lançar um disco que é simplesmente fodão e têm o melhor cantor de rock da atualidade. Thom Yorke canta muito e estava inspirado em São Francisco. O ponto alto dele foi em Nude – uma das boas faixas de In rainbows – quando hipnotizou até os esquilos do parque soltando sua bela voz de mancebo revoltado e deprimido.

Se você é fã incondicional de Radiohead, é provável que não tenha chegado até este último parágrafo. Talvez esteja aí, do outro lado da tela do computador, segurando uma pedra portuguesa e com uma vontade grande de atirá-la na minha cara. Só porque eu chamei o Thom Yorke de retardado e mancebo deprimido e porque eu acho aqueles três discos da banda um porre. Entretanto, se você não chegou até aqui, não saberá que no bis eles tocaram Paranoid android e Fake plastic trees e encerraram a apresentação com a melhor música do Kid A: Everything in its right place. Não saberá também que os shows de Barcelona e São Francisco e, especialmente, o novo disco, In rainbows, me fizeram voltar a gostar do Radiohead. E me convenceram de que, de fato, eles são hoje a maior e melhor banda de rock do mundo.



Zé McGill


* Pra quem ainda não conhece o clássico instantâneo Weird fishes, aqui está o vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=FcANFVcJeOM

** E aqui um vídeo que registra o apagão sonoro no meio de Airbag, no show de São Francisco: http://www.youtube.com/watch?v=qH_3p1hAbWk

*** Esta resenha foi publicada no Portal Rock Press. Confira:


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O CAVALO DA TECNOLOGIA


Acho um saco esse papo de tecnologia. Pra mim, bluetooth é cárie, banda larga é bunda grande e firewall é assunto para o corpo de bombeiros. Mas, além de me entediar, a tecnologia me assusta. Ela está tornando o ser humano cada vez mais superficial e individualista. A criança contemporânea brinca cada vez menos na rua e passa cada vez mais tempo com a cara grudada na tela do computador. Pessoas constroem relações de amizade e amor através de cabos de fibra ótica, muitas vezes sem sequer terem trocado um olhar. Fico me perguntando aonde isso tudo vai parar, mesmo sabendo que isso tudo não vai parar.

Evoluir é uma necessidade natural do homem? Ok, pode ser. Mas o homem também tem bom senso e sensibilidade, ou não? Está na moda militar contra o aquecimento global e a poluição, o que é ótimo (e vital), mas ninguém parece perceber as ameaças do avanço desembestado da tecnologia. Quando a poluição começa a ameaçar a saúde, eles não criam o rodízio de automóveis, os filtros de chaminés? Pois então, por que não utilizar o bom senso para decretar uma freada na corrida alucinada do cavalo da tecnologia? É, eu vejo a tecnologia como um cavalo raivoso de olhos vermelhos esbugalhados que cavalga espumando pelos cantos da boca, soltando fumaça pela narina e atropelando tudo que cruza o seu caminho.

Por outro lado, reconheço que alguns dos avanços tecnológicos proporcionam coisas boas. Sem eles, não existiriam o MP3, nem as redes de P2P (troca de arquivos digitais) – a melhor invenção dos últimos anos. Não existiriam o Youtube, o rádio, os amplificadores, as guitarras, o cinema, as transmissões ao vivo de futebol pela TV. Sei de tudo isso. E sei também que não existiria este blog. Talvez a Revista Foda-se nunca tivesse nascido. Mas quando penso na clonagem de animais e seres humanos, no culto à música eletrônica movido a drogas sintéticas, na indústria bélica, na bomba atômica, na mira laser, no Big Brother em que as metrópoles monitoradas por câmeras estão se tornando e na Cora Rónai (a colunista nerd de O Globo), sinto que a coisa está fora de controle. Deu tilt no sistema.

Alguém dirá que a tecnologia não tem culpa, que o culpado é sempre o homem, que a utiliza de forma mesquinha e egoísta. Eu discordo. Acho que, assim como o dinheiro, a tecnologia pode ter vida e alma próprias. E, assim como o dinheiro, ela pode sim influenciar o comportamento do ser humano. Pode mudar conceitos, transformar tradições e culturas, criar vícios nocivos. E pode até contribuir com o fim de namoros e casamentos. É impressionante o número de casais desfeitos com a ajuda da Internet. Conheço vários casos de relacionamentos que terminaram com a descoberta de um e-mail ou de uma mensagem suspeita no Orkut. É cada vez mais comum.

A nossa geração, e as próximas duas ou três, poderiam viver muito bem com o que temos hoje, sem que nada mais fosse inventado. E poderia viver melhor ainda se algumas invenções recentes fossem eliminadas do nosso dia-a-dia. Não digo isso com o ressentimento de um ancião que perdeu o seu posto de trabalho para uma máquina, ou coisa que o valha. Trabalhei durante cinco anos na área de teconologia dentro de gravadoras. Fui responsável pelos sites e pelos novos negócios que envolvem a música. Acompanhei de perto a queda da venda de CDs e o surgimento das mídias digitais, da venda de arquivos de música através da Internet e dos telefones celulares. E encho a boca pra dizer: pedi demissão porque, entre outros motivos, este negócio perdeu a graça. Pelo menos para mim.

O negócio das gravadoras perdeu a graça porque a tecnologia acabou com o tesão do consumidor pelo ato da compra de música. Durante boa parte da minha vida, um dos maiores prazeres que tinha era entrar numa loja de discos, olhar as prateleiras cheias de vinis ou CDs, pegar um disco nas mãos e admirar a capa. Depois, era levar o disco pra casa, colocá-lo para tocar e ler o encarte com as letras e a ficha técnica. Isso tudo criava um clima que não se cria mais com as lojas de música digital na Internet ou nos telefones celulares. Hoje, o processo é frio demais. Automático demais.

Até o sexo está ficando automático. Nunca se bateu tanta punheta no planeta Terra quanto após o advento da Internet. Antigamente, a masturbação era patrocinada pela imaginação ou pelas fotos de revistas. Hoje, todo mundo faz sexo com a tela do computador. Taxistas, atletas, porteiros, maquiadores, executivos, presidentes. Todos têm o seu site de sacanagem predileto. O seu chefe também. Seu filho idem. Até a sua mãe vê putaria na rede! E, a princípio, não há nada de errado com isso. Mas a coisa pode ficar perigosa, porque nunca foi tão fácil se viciar em masturbação.

A ganância, a ira, a inveja, o ciúme, a perversão, a violência e outras maravilhas tão antigas quanto estas nunca estiveram tão bem acompanhadas. O dinheiro e o cavalo da tecnologia estão prontos para equipá-las. Outro dia me disseram que eu tenho alma de hippie. Talvez seja verdade, mas podem anotar aí: o dinheiro e o cavalo da tecnologia serão responsáveis pelo fim da humanidade.

Zé McGill



* Como prova de nosso apreço pelas coisas boas proporcionadas pela tecnologia, a partir de agora, toda postagem da Revista Foda-se terá um vídeo de música do Youtube. O escolhido da semana é o clipe da música Jailer, da cantora franco-nigeriana Asa. Clique no link abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=Sh2vqnok1OA